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Os gigolôs de terremoto

Até terremoto tem seu lado bom, imaginaram os estrategistas do Planalto no dia em que o Haiti acabou. Desde 2004 no comando da força de paz da ONU, ferido pela morte de Zilda Arns, de um diplomata e de 17 soldados, o Brasil conseguira com a tragédia o trunfo que faltava para assumir, livre de concorrentes, a condução das operações internacionais […]

Até terremoto tem seu lado bom, imaginaram os estrategistas do Planalto no dia em que o Haiti acabou. Desde 2004 no comando da força de paz da ONU, ferido pela morte de Zilda Arns, de um diplomata e de 17 soldados, o Brasil conseguira com a tragédia o trunfo que faltava para assumir, livre de concorrentes, a condução das operações internacionais destinadas a ressuscitar o país em frangalhos. E então tomou forma a má ideia: que tal aproveitar a favorável conjunção dos astros para fazer do Haiti um protetorado da potência regional que Lula criou?

Eufóricos com o surto de inventividade, os alquimistas federais transformaram o velório de Zilda Arns em comício e escalaram Gilberto Carvalho para o lançamento, à beira do caixão, do novo projeto nacional. A frase de abertura surpreendeu os parceiros de roda de conversa: “O Brasil perdeu uma grande militante e ganhou uma grande padroeira”. Alheio ao espanto provocado pela demissão sumária de Nossa Senhora Aparecida, substituída sem anestesia pela fundadora da Pastoral da Criança, o secretário particular do presidente foi ao que interessava: “Devemos adotar o Haiti a partir de agora. Temos até uma mártir lá”.

“Vou me empenhar para que  Zilda Arns ganhe o Prêmio Nobel da Paz”, emendou Lula na roda ao lado. Expressamente proibida pelos organizadores do Nobel, a premiação póstuma foi autorizada uma única vez, para atender a circunstâncias excepcionais. Em 1961, o estadista sueco Dag Hammarskjöld, secretário-geral da ONU ao longo da década anterior, já estava escolhido quando, às vésperas do anúncio formal, morreu num acidente aéreo. Lula prometeu o que não acontece há 50 anos. Ou ignora a proibição ou se acha mesmo o cara.

Enquanto o chefe apoiava candidaturas impossíveis em cerimônias fúnebres, Nelson Jobim e Celso Amorim articulavam o movimento de resistência à invasão do Haiti por soldados e médicos americanos, armados de remédios, alimentos e equipamentos de socorro. A coleção de fiascos começou com a  tentativa de retomar o controle do aeroporto da capital. Quando preparava a contra-ofensiva, Jobim soube que os ianques estavam lá a pedido do governo haitiano.

Se não fosse tão desoladoramente jeca, o governo Lula teria aproveitado a vigorosa entrada em cena dos EUA para associar-se à única superpotência do planeta e aprender o que não sabe. No pós-guerra, por exemplo, os americanos organizaram a reconstrução do Japão e da Alemanha. O Brasil, que não consegue lidar nem com chuva forte, é um país ainda em construção. Mas o presidente acha que está pronto. E preferiu disputar com Barack Obama o papel de protagonista.

Passada uma semana, só conseguiu ficar ainda mais longe da vaga no Conselho de Segurança da ONU, como avisa o resumo da ópera publicado neste 19 de janeiro pelo jornal espanhol La Vanguardia: “O terremoto ocorrido há uma semana desnudou a incapacidade da Organização das Nações Unidas para fazer frente a um desastre de tais dimensões. A onerosa missão dos 8.300 capacetes azuis não serviu para nada no momento de enfrentar a emergência e organizar a ajuda aos haitianos. O Brasil, que tem aspirações ao status de potência regional latino-americana, mostrou, como coordenador das forças da ONU, incapacidade e falta de liderança”.

Enquanto os haitianos imploram pela salvação que teima em demorar, Celso Amorim continua implorando por audiências  com Hillary Clinton. Enquanto soldados brasileiros lutam pelas vítimas do flagelo, Nelson Jobim luta para prolongar por cinco anos a permanência no Haiti das tropas que visita quando lhe convém.

Tanto os brasileiros que morreram em combate quanto os que continuam no Haiti merecem admiração e respeito. São heróis. Políticos que ignoram o pesadelo inverossímil para concentrar-se em disputas mesquinhas são gigolôs de terremoto.

Comentários
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  1. Comentado por:

    ivete c. furegatti

    Infelizmente, estes “caras” , que não valem meia pataca, conseguiram arrebentar a imagem do Brasil em relações internacionais. Pobre Barão do Rio Branco! Pobre Rui Barbosa! Devem estar se revolvendo adoidadamente em seus túmulos, dado os palhaços que estão por aí!
    E ainda têm coragem de se gabar” NUNCA NA HISTÓRIA DESTE PAÍS”…é piada pura!

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  2. Comentado por:

    Angelica

    Augusto (o que fez o mais recente comentario): voce por acaso leu o meu comentario? Entendeu o que eu quis dizer? Acho que nao. Ao inves de reagir enraivecido a opinioes diferentes da sua, porque nao respeitar diferentes pontos de vista? Acho que os “maus filhos” do Brasil sao aqueles que acreditam que a grama e sempre mais verde do lado do vizinho e nada fazem para mudar a situacao do pais. Lastimavel e a atitude dos que pensam que uma andorinha so nao faz verao.

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  3. Comentado por:

    Ronaldo

    Cara angelica(londres) realmente fique por ai….
    Bem ou mal os que aqui ficaram estão lutando.
    Os que pra la foram, simplesmente foram, e agora que a crise
    bateu nas portas do impecavel e estonteante primeiro mundo,
    voltam, sempre fugindo dos problemas daqui e de la.
    Fujam pra bem longe (togo)

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  4. Comentado por:

    Uma vela para Dario

    Essa Angelica deve ganhar vintão, ser funcionária pública, dezesseis salários por ano, sessenta dias de férias, e ainda sentenciosa com o Mao. Típica pequena burguesia

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  5. Comentado por:

    Carlos

    Eu tenho um amigo que fez uma viagem a argentina, levando um caminhão carregado com mercadorias para aquele país, e voltou amando mais e mais o Brasil. Diferente desta cambada que sai do Brasil pra buscar dinheiro fora, e o milagre é que eles trabalham em dois ou tres empregos, e aqui só querem mamata. Angelicas da vida fiquem longe do Brasil…a patria amada agradece.

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  6. Comentado por:

    Carlos

    Saudades de Estanislau Ponte Preta????, eu estou com saudades de Fernando Collor de Melo.

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  7. Comentado por:

    Valentina de Botas

    Desconfio dos apaixonados que sabem de cara o porquê de sua paixão. Paixão com razão conhecida é coisa rala. Alguém disse que nos apaixonamos por alguém não “porque” isso ou aquilo, mas “apesar” disso ou daquilo. Não nos apaixonamos porque o felizardo, sei lá, lê Yeats ou é aquariano. Nós nos apaixonamos porque não sabemos por que nos apaixonamos, pelo menos inicialmente. É a graça da coisa, ou tudo vira mecânica previsibilidade esperando acontecer. Nesse negócio, a surpresa repentina ou que vai se insinuando devagar põe fogo em tudo. Aí, quando o encontro se dá, os amantes novos se reconhecem com tanta familiaridade que tudo parece vir de outras vidas. É luminosamente lógico; pecador e misericórdia num abraço que dá sentido a ambos. Não sei como os comentários aparecem para você na moderação, se você é informado de cara quem é o remetente ou se o texto precede o nome. No caso da segunda hipótese, acho que você consegue identificar nas duas primeiras linhas os comentaristas mais assíduos. Tanto tempo lidando conosco e com textos faz de você um adivinho de pessoas. Mas nós também adivinhamos você, querido colunista, os títulos tão especiais dos seus textos revelam o autor: só podia ser você. É por títulos sensacionais como “Gigolôs do Terremoto” e muitos outros que reconhecemos o texto inédito, num encontro que faz todo o sentido entre leitor e autor, que diz respeito só a eles. Títulos assim só podem vir de você; é, você que é feito de azul. Um beijo
    Um beijo, Valentina.

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