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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

O passado tem futuro

TRECHO DO TEXTO PUBLICADO NA REVISTA PIAUÍ DE DEZEMBRO Como atua um corretor de imóveis do tempo do onça Consuelo Dieguez O economista Carlos Lessa apontou a bengala chinesa para o conjunto de casas do século XIX, todas tinindo de novas, traçou uma linha imaginária de uma ponta a outra do quarteirão e exclamou sem […]

Por Augusto Nunes Atualizado em 31 jul 2020, 13h16 - Publicado em 27 dez 2010, 12h50

TRECHO DO TEXTO PUBLICADO NA REVISTA PIAUÍ DE DEZEMBRO

Como atua um corretor de imóveis do tempo do onça

Consuelo Dieguez

O economista Carlos Lessa apontou a bengala chinesa para o conjunto de casas do século XIX, todas tinindo de novas, traçou uma linha imaginária de uma ponta a outra do quarteirão e exclamou sem modéstia: “Eu sou o rei daqui!” Impecável numa calça bege, blazer quase do mesmo tom, camisa azul e suspensórios vermelhos, Lessa, carioca de 74 anos, cabeça inteiramente branca e modos cavalheirescos, parecia vir do mesmo século do casario da Rua do Rosário, no Centro do Rio.

Com o andar compassado, seguiu pela estreita calçada de pedra contando a história de cada sobrado. “Aqui, entre a Primeira e a Segunda Guerra, funcionou um dos prostíbulos mais famosos da cidade”, disse com ar maroto, indicando a casa azulada onde hoje há uma pizzaria. “Pertencia a uma tal Madame Lili, uma cafetina de alto nível, e era frequentado por políticos e homens de negócios”. Lessa tomou conhecimento do histórico libidinoso do prédio ao comprá-lo, há alguns anos, das herdeiras, duas velhas senhoras paulistas que ficaram chocadas ao saber do interesse dele: “Mas o senhor quer comprar aquele puteiro?”, perguntaram-lhe, como se o problema não fosse o fato de o casarão estar perfeitamente esbodegado.

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Quando adquiriu o prédio, Lessa tinha um projeto em mente: restaurar todo o quarteirão da Rua do Rosário e dar uso comercial aos imóveis. “Era uma tristeza ver esses belos sobrados caindo aos pedaços”. O gosto pela restauração começou quase por necessidade. Por um problema alérgico de sua mulher, ele precisou de um local onde abrigar sua biblioteca de mais de 20 mil livros, então instalada no terceiro andar do casarão deles no bairro do Cosme Velho. “Tinha de ser perto de casa”, disse. “Eu não queria ficar longe dos meus livros”. Lessa descobriu dois imóveis aos cacos no topo de uma ladeira, com uma vista estupenda do Cristo Redentor, e os restaurou. Um deles recebeu a biblioteca. No outro mora um filho do casal.

Ele tomou gosto pela coisa. Feito um arqueólogo, saiu à cata de novas ruínas. Não precisou ir muito longe. Um sobrado do século XIX numa vila na Praia do Flamengo, propriedade da família, foi o primeiro a passar por reforma. Lessa comprou a casa do lado e a reconstruiu. Transformou-as em apartamentos duplex. Num deles mora seu irmão com a família. O outro ele aluga. “Queria comprar a vila inteira para restaurar, mas ninguém quer vender”, diz ele, contrariado com a fachada desfigurada das casas vizinhas.

Lessa voltou o ímpeto restaurador para a Rua do Rosário. Ali, sua família também era dona de um sobrado em petição de miséria. Como só restava a fachada, ele teve a ideia de rechear o imóvel com mezaninos em ferro e madeira. No teto, abriu uma gigantesca claraboia para permitir a iluminação de todo o prédio. Logo apareceu um comerciante, amigo de longos anos, interessado em alugá-lo. O espaço foi ocupado por um sebo e um restaurante árabe.

Animado com o sucesso do empreendimento, Lessa comprou o casarão do lado, fez uma obra parecida e hoje o local hospeda um bistrô e uma padaria que fabrica pães especiais. No final de 2005 ele já arrematara todos os prédios da rua, isto é: todos menos um, pertencente à Beneficência Portuguesa, que, impávido na sua decadência, continua a atrapalhar a harmonia do conjunto. Na esquina, um sobrado rosa abriga um restaurante português; os dois andares de cima foram alugados para um escritório de advocacia.

O capital inicial para o negócio veio da venda de uma casa da família na Lagoa. O aluguel dos imóveis restaurados viabiliza a aquisição de novos prédios. O preço de um imóvel desses, em estado terminal, gira em torno de 70 mil reais, mas os gastos com a restauração podem ser dez vezes maiores, dependendo do tamanho. O aluguel dos casarões, garante o economista, torna o negócio rentável. O problema é que, quando começa a restauração, os imóveis em volta se valorizam, dificultando novas aquisições.

A passo mais célere, Lessa caminhou pelo entorno do seu reino brandindo a bengala para as melhorias que vêm sendo feitas na região. Nas estreitas ruelas ao redor, empresários também investiram na recuperação de sobrados. A área se transformou num pequeno polo gastronômico.

Clique aqui para ler o texto na íntegra.

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