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O candidato sem chances à prefeitura de Osasco virou um forte candidato à cadeia

PUBLICADO EM 18 DE AGOSTO DE 2012 Sempre que João Paulo Cunha reaparece no noticiário político-policial, faço questão de homenagear essa obscenidade do PT paulista com a reprise do texto que me valeu uma medalha de bronze. Publicado originalmente no Jornal do Brasil em dezembro de 2005, sob o título “A Coalizão dos Vigaristas”, é […]

Por Augusto Nunes Atualizado em 31 jul 2020, 08h06 - Publicado em 18 ago 2012, 17h31

PUBLICADO EM 18 DE AGOSTO DE 2012

Sempre que João Paulo Cunha reaparece no noticiário político-policial, faço questão de homenagear essa obscenidade do PT paulista com a reprise do texto que me valeu uma medalha de bronze. Publicado originalmente no Jornal do Brasil em dezembro de 2005, sob o título “A Coalizão dos Vigaristas”, é um resumo da história que, detalhada nesta quinta-feira pelo ministro Joaquim Barbosa, transformou o presidente da Câmara do mensalão no primeiro da fila dos candidatos à prisão..

O deputado federal João Paulo Cunha demorou três anos para sentir-se ofendido com o artigo que se limitou a contar o caso como o caso foi. Em dezembro de 2008, voltou a recorrer à Justiça, agora exigindo que eu o indenizasse em dinheiro por “danos morais”. Em agosto de 2009, o juiz Paulo Campos Filho, da 4ª Vara Cível de Osasco, considerou improcedente a ação em que o ex-presidente da Câmara reivindicava R$ 100 mil, ou dois mensalões. “O bandido não levou o dinheiro”, registrei ao comentar o desfecho do caso. “Mas ainda não foi levado para a cadeia”.

O camburão parece menos distante desde a leitura parcial do relatório de Joaquim Barbosa. Ao servir a primeira fatia de seu voto, o ministro implodiu de vez a falácia do caixa dois, deixou engasgados os bacharéis a serviço dos mensaleiros e sobressaltou colegas decididos a fingir que não enxergam a montanha de provas. Como perdeu o sono, o deputado que ampliou meu acervo de medalhas tem tempo de sobra para rever o retrato de um meliante fantasiado de representante do povo. Volto em seguida:

“Planalto paga mesada a deputados”, revelou o título da reportagem publicada pelo Jornal do Brasil em 24 de setembro de 2004. As primeiras quatro linhas fizeram o resumo da ópera: “O governo montou no Congresso um esquema de distribuição de verbas e cargos para premiar partidos fiéis ao Planalto. Chama-se mensalão”. Imediatamente, estendeu-se sobre a bandalheira a rede corporativista tecida pelo cinismo dos culpados e pelo silêncio dos bem informados.

Estimulado pelo recuo dos muitos parlamentares que sabiam da história, o deputado João Paulo Cunha, presidente da Câmara, ordenou a abertura de uma sindicância para conferir a denúncia. Os sherloques levaram duas horas para decidir que a acusação era “impertinente”. E João Paulo não perdeu a chance de fingir que, afrontado por agressões ao clube dos pais da pátria, virava fera ferida. Já na manhã seguinte, ajuizou uma ação que exigia, além do direito de resposta, uma “indenização por danos morais”.

Publicada no JB em 30 de outubro, a réplica assinada por João Paulo Cunha transpirava indignação. A Câmara fora vítima de uma falsidade inominável, bradou o articulista, colérico com “o constrangimento imposto aos parlamentares”. Oito meses depois, amparada na entrevista de Roberto Jefferson à jornalista Renata Lo Prete, a Folha de S.Paulo anunciou a descoberta do  mensalão numa manchete que, em sua essência, repetia a notícia que enfurecera João Paulo no ano anterior. Mas a fera de araque nem miou.

“Vocês ainda vão ouvir falar muito num carequinha chamado Marcos Valério”, avisou Jefferson dias mais tarde. E então se deu a metamorfose. Até a descoberta do pântano, o país só conhecia o João Paulo com cara de garotão, maneiras polidas, cada fio de cabelo em seu lugar, óculos de primeiro da classe, afeito a sussurros conciliadores, mas disposto a enfrentar quaisquer perigos em defesa dos oprimidos, do PT e dos colegas.

O João Paulo que emergiu do sumiço de alguns dias era uma caricatura do outro. Só os óculos não haviam mudado. A expressão assustadiça, as olheiras de porteiro de cabaré, a barba implorando por lâminas, os cabelos em desalinho, as pupilas dilatadas pelo medo ─ essas mudanças, conjugadas, berravam que era esse o João Paulo verdadeiro. Tinha a cara da alma alugada a Marcos Valério.

Eles se conheceram na temporada eleitoral de 2002, quando uma agência do vigarista mineiro foi contratada para cuidar da campanha do PT em Osasco, onde João Paulo nasceu. Vitorioso, o deputado transformou o novo amigo em marqueteiro de estimação. Candidato único à presidência da Câmara, João Paulo contratou-o para monitorar uma campanha que não haveria. Depois, escolheu uma agência do parceiro para “melhorar a imagem da Casa”. Grato, Marcos Valério incluiu perguntas sobre o prestígio eleitoral de João Paulo em pesquisas destinadas a avaliar a imagem da instituição. O contrato foi renovado por dois anos no último dia útil de 2004.

Um cheque de R$ 50 mil valerianos recolhido pela mulher de João Paulo na agência do Banco Rural acabou por incluí-lo na fila da guilhotina. Puro descuido. A propina talvez tenha sido a menor das muitas transações tenebrosas consumadas pela dupla. Envolvem quantias bem mais impressionantes. Há outras pilantragens em andamento.

É hora de deter os bandidos.

Para tanto, basta que os ministros do Supremo Tribunal Federal sigam o caminho que Joaquim Barbosa pavimentou com argumentos irrefutáveis e balizou com provas contundentes. Os institutos de pesquisa avisam que João Paulo Cunha é um candidato sem chances à prefeitura de Osasco. Em contrapartida, transformou-se desde quinta-feira num forte candidato à cadeia. Poucos votos bastarão para elegê-lo xerife de cela.

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