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O Brasil na era da intolerância

Sem esta confusão das redes sociais e do doido clima de insensatez que tomou conta do Brasil, podemos também alongar com qualidade a nossa vida

Deonísio da Silva

Precisamos de um édito semelhante ao do imperador Constantino, que traga tolerância e misericórdia para os temas controversos da política, de que todos precisamos, e da ideologia, que todos podemos dispensar na vida cotidiana.

A Era da Intolerância pulou das redes sociais para diversos ambientes onde ela não é bem-vinda. Familiares e amigos mais ajuizados evitam os temas controversos e venenosos para o convívio, professores e alunos sensatos tratam de ensinar e aprender, deixando mútuas ironias para bem longe da sala de aula ou distante das câmeras, pois que agora o ensino nas Humanidades é sobretudo ministrado à distância. E assim pode-se deixar à distância também a ideologia.

Política, religião e ideologia são territórios minados e a guerra é antiga. No século IV, os poderosos imperadores romanos deram solução a uma séria controversa e convém relembrar in media res o que houve e não fazer como a maioria dos políticos, que não lê nada, e não aprende nada.

Entre os anos de 311 e 313 ─ vejam que antigo! ─ os imperadores Galério e Constantino baixaram dois éditos que acabaram com a bagunça. Ambos os documentos foram decretados em Milão, mas o primeiro ato oficial foi de Galério e passou à História como Édito da Tolerância ou Decreto da Indulgência. Esses documentos espelharam um entendimento entre as porções ocidental e oriental do império. Não se podia mais perseguir cristão em lugar nenhum.

O certo é que Galério e Constantino deram fim à perseguição contra os cristãos, estratégia que tinha sido adotada por vários imperadores anteriores e não funcionara. Seu objetivo era buscar uma harmonia política para o império.

Livres da perseguição e em paz, os cristãos mudaram o mundo e neste particular as abadias, os mosteiros e as ordens religiosas desempenharam uma função estratégica, servindo de berço, creche ou escola para as primeiras universidades, que desabrocharam depois de tão fértil preparação no alvorecer do segundo milênio.

Irmão gêmeo de Santa Escolástica, São Bento vivia numa comunidade de regras frouxas, reduzidas a um mínimo, como era costume deste as tolerâncias de Constantino e de Galério. Morando no interior, pois a vida urbana lhes tinha sido hostil, seguiam o preceito de viver em comunidade, recomendação constante dos Atos dos Apóstolos.

Mas Bento de Núrsia, o popular São Bento, um dos santos mais conhecidos do mundo, não sem luta ─ muitos inimigos tentaram matá-lo, sobretudo com alimento envenenado ─ fundou a Abadia de Monte Casino, a primeira do mundo. Estava ainda em pé na Segunda Guerra Mundial, quando foi destruída e, terminado o conflito, foi reconstruída tal como era antes.

Bento impôs a todos os monges uma regra, que para os tempos atuais é o perfeito simulacro de uma boa Constituição: deixa bem claro o que se pode e o que não se pode fazer.

A disciplina dos mosteiros veio para as universidades, para as empresas, para as igrejas e capelas, para toda a sociedade. Talvez o sino seja o seu símbolo mais interessante: para tudo há um tempo.

O sino marca a hora de levantar, de ir para o trabalho, de comer, de descansar, de recolher-se, de dormir. Ele foi uma tecnologia fundamental para uma alocação geral, coletiva e intensa no trabalho.

O lema geral de São Bento era “Ora et Labora” (Reza e Trabalha, em latim), mas a semântica do primeiro verbo era mais ampla: orar era pensar, não se trabalhava sem pensar, não se pensava sem trabalhar, os ofícios eram integrados.

Ah, como os brasileiros estão precisando desta preciosa lição do passado! Ninguém mais se recolhe para nada e, como o sino foi o sinal daquela mudança, as redes sociais hoje espelham o momento atual da bagunça: tudo é dito e feito sem pensar.

O estudo, a pesquisa, as invenções e demais avanços da Humanidade muito devem ao silêncio e à calma, que, escolhidos ou impostos, prepararam mentes e corpos para se dar bem na vida, isto é, não contrariar excessivamente a natureza para que ela não nos puna com as doenças do barulho e da pressa, com o infarto, as dores de cabeça e as gastrites.

A população tinha uma expectativa de vida de poucos mais de vinte anos. Os monges morriam sexagenários. São Bento morreu aos 67.

Então, temos mais esta: sem esta confusão das redes sociais e do doido clima de insensatez que tomou conta do Brasil, podemos também alongar com qualidade a nossa vida. É a pequena lição que tiramos.

*Deonísio da Silva
Diretor do Instituto da Palavra & Professor
Titular Visitante da Universidade Estácio de Sá
http://portal.estacio.br/instituto-da-palavra

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