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O bondinho do Rio, o bravo motorneiro, o governador poltrão e o secretário vigarista

PUBLICADO EM 4 DE SETEMBRO DE 2011 Se obedecesse ao código de conduta que rege a vida real de Sérgio Cabral Filho, o motorneiro Nelson Correa da Silva nem apareceria no emprego na manhã de 27 de agosto. Como vive fazendo o governador do Rio de Janeiro, Nelson poderia ter cabulado o trabalho com uma […]

PUBLICADO EM 4 DE SETEMBRO DE 2011

Se obedecesse ao código de conduta que rege a vida real de Sérgio Cabral Filho, o motorneiro Nelson Correa da Silva nem apareceria no emprego na manhã de 27 de agosto. Como vive fazendo o governador do Rio de Janeiro, Nelson poderia ter cabulado o trabalho com uma desculpa qualquer, para desfrutar do dia de folga na casa de algum amigo que lhe garantisse comida, pouso e companhias agradáveis. Em vez disso, foi fazer em seu último sábado o que fez durante 35 dos 57 anos de vida: conduzir um dos bondinhos que desde o fim do século 19 sobem e descem as ladeiras de Santa Tereza, no coração da cidade.

Se tivesse um caráter em frangalhos como Júlio Lopes, Nelson teria sido o primeiro a cair fora quando o mecanismo do freio entrou em colapso. O comportamento do secretário de Transportes retrata uma figura capaz de escapulir do navio na iminência do naufrágio antes que os ratos do porão desconfiem do perigo. O motorneiro morreu tentando diminuir as proporções do desastre, pedindo aos gritos que os passageiros saltassem para a salvação. Se estivesse entre eles, Júlio Lopes não hesitaria em atropelar bebês de colo, idosos entrevados ou mulheres grávidas para prolongar a boa vida. Como o capitão Edward J. Smith, Nelson permaneceu em seu posto até o fim. O bondinho n° 10 era o seu Titanic.

Se não fosse desprovido da generosidade esbanjada pelo motorneiro ─ um dos cinco mortos no acidente que provocou ferimentos, fraturas e lesões graves em outros 57 passageiros ─, Júlio Lopes teria encaminhado um pedido de perdão às vítimas assim que soube da tragédia. Foi ele quem impôs a penúria crônica ao transporte sobre trilhos de Santa Tereza. Foi ele quem fechou a torneira de verbas para serviços de manutenção. Em vez de pedir demissão imediatamente, o secretário tentou culpar pelo desastre o motorneiro conhecido pela prudência. (Num vídeo gravado em fevereiro por um cinegrafista amador, Nelson aparece jogando areia nos trilhos, para aumentar o atrito com as rodas e encurtar o tempo da freada.)

Se não fosse desprovido da bravura esbanjada pelo condutor, já no sábado Cabral teria demitido Júlio Lopes por inépcia e comparecido ao enterro de Nelson. Em vez disso, entregou o caso à assessoria de imprensa e perdeu a voz por quatro dias. Se soubesse o que é compaixão, teria recriminado publicamente o secretário que, ao culpar o morto, merecia ser punido por tentativa de assassinato moral. Em vez disso, endossou a discurseira malandra de Júlio Lopes: infelizmente, recitou a dupla, há muitas prioridades a atender.

No ranking das urgências administrativas, os bondinhos de Santa Tereza aparecem alguns anos-luz distantes de monumentos ao desperdício como a reforma do Maracanã, que já promete engolir mais de R$ 1 bilhão. Estão centenas de posições abaixo dos contratos sem licitação forjados para tirar do papel as “obras de mobilidade urbana” requeridas pela Copa da Roubalheira e pela Olimpíada da Ladroagem. Vêm muito depois do metrô da Barra que a turma prometeu para Pan de 2007. Os bondinhos são bem menos prioritários que o teleférico do morro do Alemão, escala obrigatória nas visitas de Dilma Rousseff ao Rio de Janeiro.

Neste fim de semana, a missa de 7° dia reuniu dezenas de amigos de Nelson Correa da Silva. De novo, eles exigiram que o governador batize a estação do Largo da Carioca com o nome do motorneiro morto e demita Júlio Lopes. A primeira reivindicação talvez seja atendida. A segunda é mais complicada. O secretário sabe muita coisa. Conhece, por exemplo, os motivos que levam o governo estadual a torrar boladas multimilionárias nas obras encomendadas à construtora Delta, do amigo Fernando Cavendish, e negar aos bondinhos o pouco dinheiro que bastaria para livrar condutor e passageiros da insegurança e da morte.

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  1. Comentado por:

    GEROLDO ZANON

    O BRASIL não é aquela coisa que o LULA pintava em suas viagens com sua amante ROSIMERY é uma desgraça ele ainda criticava o FHC só que o FHC não envergonhava o BRASIL

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  2. Comentado por:

    Dulce Regina

    ANA LU-2.10 H- estou com voce. Já falei aqui que o governador, prefeito na venceram as eleições com 100%. Também não votei nelles. Os senadores do Rio ( que são péssimos ), não foram parar lá com o meu voto ). Os candidatos a vereador e deputado federal e estadual que venceram no Rio, não foram com meu voto, isso incluo tb a minha família que é bem grande. Não sei por que mas, cismo com as URNAS ELETRÔNICAS. Sei não…

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  3. Comentado por:

    Fred Barreto

    Prezado Augusto Nunes,
    Peço a sua ajuda para a divulgação do nosso manifesto:
    Abaixo-assinado O bonde que queremos para Santa Teresa – Rio de Janeiro
    Para: Governador do Estado do Rio de Janeiro
    Para quem mora e visita Santa Teresa, o bonde é o meio de transporte público que melhor se adequa ao traçado das ruas do bairro. A circulação intensa de ônibus gera acidentes frequentes, danifica as estruturas das casas, estraga o calçamento histórico e polui o ar, prejudicando a qualidade de vida de todos, e deve ser reduzida ao máximo. Por isso, queremos que o sistema de bondes de Santa Teresa volte a funcionar no mais curto prazo.
    O BONDE QUE QUEREMOS PARA SANTA TERESA
    1. É o principal meio de transporte do bairro. Um serviço público, destinado prioritariamente ao transporte dos moradores de Santa Teresa, que deve ter capacidade para atender às suas diversas comunidades.
    2. Funciona das 05 horas às 24 horas, com intervalo máximo de 10 minutos, em cada uma de suas linhas, no horário de pico.
    3. Tem duas estações de embarque na cidade – a Estação Nelson Correa da Silva (Carioca) e Francisco Muratori – e pontos finais no Silvestre e no Largo das Neves.
    4. É subsidiado pelo poder público, de modo a manter sua tarifa simbólica, e integrado aos demais transportes da cidade pelo bilhete único.
    5. É avaliado periodicamente pelos usuários e tem gestão transparente e participativa, que envolva as lideranças das diferentes associações de moradores do bairro e técnicos por elas indicados.
    6. Tem acesso facilitado para idosos, crianças e pessoas com deficiência, através de soluções tecnológicas adaptadas que não comprometam o Item 8.
    7. Tem todo o sistema recuperado, mantido e fiscalizado: bondes, estações, vias aéreas, trilhos, subestação de energia, Museu do Bonde, carro especial com finalidade cultural (bonde palco) e de utilidade pública e oficinas de manutenção e aprendizagem.
    8. Preserva o modelo estético e técnico dos veículos, com aperfeiçoamento tecnológico dos seus itens de segurança, e as características firmadas no tombamento registrado no processo nº E-03/31 269/83 e a Resolução nº 047, de 25 de março de 1988, publicada no DOE de 8/4/1988.
    9. Aproveita a experiência dos funcionários antigos na nova fase de operação e no treinamento dos novos quadros.
    10. Voltará a funcionar no menor prazo possível suficiente para o cumprimento de todos os pontos anteriores. Pode ser reativado em fases, por trecho, de acordo com as obras e as reformas necessárias. O prazo máximo para a reativação total do sistema deve ser de dois anos, a partir da data de interrupção (27/8/2011).
    Se você concorda com as propostas do Manifesto e deseja participar, é fácil!
    Você pode acessar o Referendo Virtual e votar:
    http://www.peticaopublica.com.br/PeticaoVer.aspx?pi=P2012N21566

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