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Muita inocência

EDITORIAL PUBLICADO NA FOLHA DESTA SEGUNDA-FEIRA Já não é pouco desplante ─ num desmentido da imagem gerencial que cerca a presidente Dilma Rousseff ─ o hábito generalizado de lotear cargos técnicos entre partidos que compõem a base do governo. O observador já conformado com o fisiologismo da política brasileira poderia, entretanto, esperar que esse loteamento tivesse, […]

Por Augusto Nunes Atualizado em 31 jul 2020, 09h31 - Publicado em 14 fev 2012, 12h47

EDITORIAL PUBLICADO NA FOLHA DESTA SEGUNDA-FEIRA

Já não é pouco desplante ─ num desmentido da imagem gerencial que cerca a presidente Dilma Rousseff ─ o hábito generalizado de lotear cargos técnicos entre partidos que compõem a base do governo. O observador já conformado com o fisiologismo da política brasileira poderia, entretanto, esperar que esse loteamento tivesse, ao menos, um mínimo de critério.

Com a demissão do presidente da Casa da Moeda, Luiz Felipe Denucci Martins, por suspeitas de contratos irregulares com fornecedores, produziu-se um fato raro, até mesmo nos anais pouco edificantes da vida partidária nacional. Desmoralizou-se o apadrinhamento. O PTB, suposto autor da indicação de Denucci para a vaga, jura não ter papel algum no episódio.

O padrinho teria sido o próprio ministro da Fazenda, Guido Mantega, que se exime da acusação. Nada mais teria feito a não ser aceitar, de um deputado petebista, o currículo do candidato. Eis que a fisiologia, assim, torna-se argumento em defesa do ministro ─ cuja responsabilidade ao nomear Denucci, entretanto, continua indeclinável.

Há pouco a dizer quanto aos efeitos do caso sobre a imagem do PTB. Continuará a mesma, marcada por décadas de oportunismo, tenha ou não sido sua a indicação do ex-presidente da Casa da Moeda. Quanto aos efeitos sobre a imagem do ministro Mantega, o mínimo que se pode dizer é que foram negativos. Mesmo sem nenhum envolvimento pessoal nas irregularidades da Casa da Moeda, resta o fato de que sabia das suspeitas sobre seu subordinado. Sabia e pouco fez  ─ até o momento em que se tornou iminente a revelação do caso em reportagem da Folha.

Convocado às pressas a Brasília, num fim de semana, Denucci foi então demitido. A decisão lhe foi transmitida por funcionário do terceiro escalão. Conste todavia, para todos os efeitos, que Mantega o demitiu. Demitiu e nada disse. Foi preciso que a presidente determinasse ao ministro que viessem algumas explicações ─ como aquela, inconsistente, de que acusações contra Denucci já haviam sido feitas, investigadas e arquivadas em 2010. Sim, mas não as que emergiram em seguida, das quais o ministro estava ciente desde agosto de 2011.

Terá desprezado tais denúncias por sua proveniência suspeita ─ a saber, o próprio PTB? Ou seria o caso de dizer, precisamente, que a proveniência era insuspeita? Na troca de versões entre o ministro e o PTB, ambos declaram inocência. Que seja; fica, no entanto, a questão da responsabilidade.

Não se trata de um cargo menor, a ser entregue ao primeiro protegido que apareça. O posto não é apenas técnico, mas tem contratos de vulto a celebrar e acompanhar de muito perto. Pelo menos quando se ventilam suspeitas que, por desinteresse ou conivência, nenhuma autoridade tem o direito de minimizar.

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