Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

José Casado: Um verão inesquecível

Publicado no Globo Nunca houve um fim de verão como este. Na chegada das águas de março, assiste-se à perplexidade da elite política brasileira com o inédito e incômodo desafio de provar sua inocência.

Publicado no Globo

Nunca houve um fim de verão como este. Na chegada das águas de março, assiste-se à perplexidade da elite política brasileira com o inédito e incômodo desafio de provar sua inocência.

Neste 1º de março estão sob investigação em tribunais e delegacias de polícia: a presidente Dilma Rousseff e o vice Michel Temer; três ex-presidentes da República (Lula, Fernando Henrique Cardoso e Fernando Collor de Mello); os presidentes do Senado, Renan Calheiros, e da Câmara, Eduardo Cunha, e mais 25% dos senadores e deputados federais.

As acusações têm natureza diversa. Assim, não é recomendável comparar os casos de Dilma e Collor, nem o de Lula e Fernando Henrique. Em telas de Botticelli ou Dali, por exemplo, eles habitariam diferentes círculos, vales e esferas do inferno — da luxúria à fraude, no caos ordenado e bem-humorado de Dante Alighieri em “Divina Comédia”.

Em Brasília, amanhã, o Supremo Tribunal Federal começa a decidir se o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, será processado por corrupção e lavagem de dinheiro subtraído dos cofres da Petrobras, a maior entre companhias estatais e de capital aberto no país.

A tendência é Cunha virar réu e, nesse caso, o Supremo precisará decidir sobre o seu afastamento da presidência da Câmara. Ele é o primeiro na linha de sucessão presidencial, depois do vice-presidente Michel Temer. Se o STF afastar Cunha, haverá eleição imediata do substituto na Câmara, porque “a República não pode ficar banguela na linha sucessória”, lembra o deputado Miro Teixeira (Rede-RJ).

Também amanhã abre-se uma etapa decisiva em Curitiba, 1.400 quilômetros ao sul do Planalto. O juiz federal Sérgio Moro começa a escrever a sentença sobre o caso de Marcelo Odebrecht, acionista e ex-presidente, e de diretores do Grupo Odebrecht, líder entre as empreiteiras de obras públicas. São acusados de corrupção, lavagem de dinheiro e financiamento ilegal de campanhas eleitorais para obter R$ 7 bilhões em contratos com a Petrobras.

No próximo dia 17, completam-se dois anos de investigação sobre as estranhas transações desse condomínio de poder, que partilhava o Orçamento da União, planos de investimentos das empresas estatais e acesso privilegiado às reservas financeiras líquidas dos fundos de pensão e bancos públicos, como o BNDES.

O inquérito levou, até agora, 179 pessoas ao banco dos réus. Dissolveu uma era de delírios político-empresariais. E lançou no limbo uma presidente recém-reeleita. Hoje ela anuncia o centésimo ministro em cinco anos. Na melhor hipótese, seu governo deve atravessar o próximo triênio arrastando correntes entre o Palácio da Alvorada e a Praça dos Três Poderes, em Brasília.

Ironia da história: as 84 sentenças já proferidas, cujas penas somam 825 anos de prisão, foram escritas numa corte da outrora Nossa Senhora da Luz dos Pinhais de Curitiba, vilarejo formado à volta de um pelourinho plantado três séculos e meio atrás pelo sertanista Gabriel de Lara. Era o símbolo de sua autoridade na defesa dos interesses do Erário português sobre a lavra de ouro.

Comentários
Deixe um comentário

Olá,

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

  1. Comentado por:

    sovir

    O que mais acalentaria os brasileiros neste momento seria o encarceramento do molusco bebum e a da esticada, além é claro, do tropeção ladeira a baixo da mulher sapiens.

    Curtir

  2. Comentado por:

    J. BRASIL

    “caos ordenado e bem-humorado de Dante Alighieri em “Divina Comédia”; não tem humor nenhum,mas juízos implacáveis, nessa obra.

    Curtir

  3. Comentado por:

    deaC

    Devemos ter esperanças de dias melhores, em dois anos, o Juiz Sergio Moro, da pacata Curitiba, fez mais pelo Brasil do que aqueles vetustos senhores do STF, em Brasília. Só temos a gradecer ao Juiz Moro.
    #somostodosMORO

    Curtir

  4. Comentado por:

    Carlos

    O segundo parágrafo do seu artigo, diz tudo do que os governos do PT fizeram com o Brasil.

    Curtir

  5. Comentado por:

    Antônio Soares

    Um belíssimo texto. Acrescento apenas: fora “bode véio” e dona doida do planalto.

    Curtir

  6. Comentado por:

    vagabundo

    continua, infelizmente, MUITO DEMORADO, muito enrolado, STF STE aparelhados até a medula, nada parece ter solução, não vão estar NEM AÍ para as manifestações do dia 13, não representam ninguém do país, só representam êles mesmos e seus interesses. Brasil no lixo. E afundando…

    Curtir

  7. Comentado por:

    Abreu

    O grande problema disso tudo, além do que este descrito nessa sinópse da “odisséia política brasileira”, somos nós. Por uma visão distorcida de papéis, pois o juiz está executando(muito bem, diga-se de passagem) o que é pago para fazer (idem); por uma apatia incondicional que se restringe a manifestações sem causa comum, mesmo todos sabendo o que queremos, e não é só fora PT, é fora todo corrupto (inclusive, se o caso, eu e vc!); pela ignorância congênita e aperfeiçoada no dia-a-dia, aquela que nos faz esbravejar opniões baseadas em opniões(papagaios), sem nos preocupar em, verdadeiramente, buscar o conhecimento, que nos faz chegar próximo a uma verdade. Dessa forma continuada, no fim, tudo, eu e vc, seremos apenas uma história de nós mesmos.

    Curtir