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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

J. R. Guzzo: ‘A marcha da insensatez’

Publicado na revista Exame J. R. GUZZO Vai terminando o verão do descontentamento. como terminará o outono que se abre aí à frente? Há mais de 20 anos, desde os tempos de anarquia do infeliz governo de Fernando Collor, o Brasil não vivia um período tão longo de desencanto com o dia a dia, desgosto […]

Por Augusto Nunes - Atualizado em 11 fev 2017, 13h18 - Publicado em 11 abr 2015, 20h32

Publicado na revista Exame

J. R. GUZZO

Vai terminando o verão do descontentamento. como terminará o outono que se abre aí à frente? Há mais de 20 anos, desde os tempos de anarquia do infeliz governo de Fernando Collor, o Brasil não vivia um período tão longo de desencanto com o dia a dia, desgosto pela autoridade de quem está na Presidência da República e desprezo pelo que é percebido, cada vez mais, como sua pura e simples incapacidade de governar.

Num espaço de alguns poucos dias, o país assistiu às maiores demonstrações públicas de condenação a um governo já registradas na memória nacional, à pior queda em sua avaliação nas pesquisas de opinião e à extravagante demissão de um ministro de Estado que resolveu, por conta própria, declarar guerra à Câmara dos Deputados.

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Pouco antes, na mesma cadência de uma desgraça a cada dia útil, ou o equivalente a isso, a presidente Dilma Rousseff tinha sido esmagada numa disputa irracional pela presidência da Câmara; seu adversário era o candidato desejado não pela oposição, mas pelo principal partido de apoio ao governo. O Senado Federal lhe enviou de volta o texto de uma mensagem de medida provisória que fazia parte das prioridades econômicas do Palácio do Planalto.

O monumental escândalo de corrupção da Petrobras produz tensão contínua no noticiário cotidiano. Os dados econômicos, um após o outro, são uma sequência de derrotas. O ano mal completou três meses e já está certo que haverá recuo da economia em 2015, depois do “crescimento zero” de 2014. A inflação dá sinais ruins, o dólar não para de subir e o “pleno emprego” foi para o espaço. Há outras coisas, ainda; mas não é preciso ficar pendurando mais roupa nesse varal para constatar que o barômetro do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff tem registrado mau tempo fixo desde o dia da posse, e mesmo antes, logo após sua vitória nas eleições de outubro último.

É um fenômeno, sem dúvida – ninguém se lembra de algum outro caso de presidente, governo e partido que tenham entrado em decadência instantânea após ganhar uma reeleição. Mas também não se trata de nenhum enigma. Está tudo dando errado, agora, porque tudo foi feito em favor do erro nos quatro últimos anos de governo. Na verdade, nada deu certo desde que Dilma assumiu a Presidência em janeiro de 2011; alguém é capaz de citar três coisas realmente boas, ou duas – vá lá, uma só -, que possam ser claramente atribuídas à atual gerência do Brasil?

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Esteve sempre muito claro, e foi dito diversas vezes, que durante esse tempo todo o governo praticamente não parou de gerir o país com desejos em vez de realidades, recusou-se a aceitar fatos econômicos elementares e transformou superstições ideológicas em política de Estado. Abandonou áreas inteiras da administração pública a aglomerados “de esquerda” que se imaginam capazes de acabar, no curtíssimo prazo, com o capitalismo neste país. Desde o primeiro dia foi preguiçoso para pensar, hostil à troca de ideias e amador na execução de suas obrigações. Com o século 21 já em sua segunda década, pensa como se vivesse em 1950. Não ouve ninguém. Não tem culpa de nada.

A desordem diária que o Brasil vive hoje, na política, na economia e nos atos do governo, é o resultado inevitável dessa marcha rumo à insensatez. A presidente e seu entorno, ao que parece, não estão percebendo o que acontece no mundo das realidades – e isso, obviamente, não prenuncia nada de bom para o outono, ou para o inverno, ou para qualquer estação que venha adiante. Dilma nem sequer admite que possa haver alguma coisa realmente errada com seu governo; no máximo, e com muita hesitação, sugere que talvez tenha havido algum engano quanto à dosagem das medidas tomadas ao longo de seu governo.

Não está vendo nem a árvore nem a floresta. Como esperar uma mudança firme de rumo, capaz de devolver ao governo a capacidade de governar, se a presidente não consegue ver onde está, muito menos para onde está indo? Não há, por enquanto, nenhuma resposta à disposição do público em geral.

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