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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Gente que mata floresta não pode. E gente que mata gente?

Concentrados na luta contra ministros da Cultura e desmatadores da Amazônia, os intelectuais e artistas do Rio não deram um pio sobre a guerra nos morros

Por Augusto Nunes Atualizado em 24 set 2017, 12h00 - Publicado em 20 set 2017, 21h11

A tropa de artistas e intelectuais aquartelada no Rio de Janeiro não costuma perder chances de entrar em combate contra inimigos de baixa periculosidade. Usando como armas assembleias ao ar livre, manifestos, discursos que começam com o obrigatório “Primeiramente, fora Temer” ou vídeos em que oficiais graduados recitam palavras de ordem, o pelotão de famosos já mandou chumbo na extinção do Ministério da Cultura, no escolhido para comandar o ministério ressuscitado, em dissidentes que ousam criticar a Lei Rouanet e em quem tenta, na calada da noite, decepar da Floresta Amazônica uma área do tamanho do Espírito Santo.

Concentrados nesses alvos prioritários, os fuzileiros da internet mantêm excluídas da agenda de batalhas a vencer alguns problemas que, embora atormentem milhões de moradores do Rio, não inspiraram até agora um único e escasso abaixo-assinado. Por exemplo: nenhum escritor, roteirista, cantor, cineasta, ator ou poeta deu um pio sobre a guerra travada por quadrilhas que disputam o controle do tráfico de drogas nas favelas (“comunidades”, corrigem os generais inteleques). As cenas exibidas no vídeo abaixo se tornaram rotineiras no território sem lei amputado do mapa do Brasil pelo sumiço do Estado.

Empunhando armas de última geração, soldados rasos do narcotráfico celebram o desfecho vitorioso de mais um tiroteio ─ e a ampliação dos domínios do bando. O que tem a dizer sobre isso a infantaria que coleciona atos de bravura em ações na Cinelândia? Seus comandantes acham que as Forças Armadas devem recolher-se à caserna ou lançar-se à ofensiva destinada a socorrer milhões de inocentes condenados ao convívio diuturno com o medo e a morte? Apoiam operações da PM ou seguem defendendo a criação de uma “polícia desmilitarizada”?

O exército de celebridades já deixou claro que gente que mata floresta tem de ficar longe da Amazônia. Falta dizer o que deve ser feito para livrar os morros cariocas de gente que mata gente.

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