Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Estadistas não consultam marqueteiros

A era dos marqueteiros produziu incontáveis espantos: acabou com todos os vincos e rugas, erradicou os cabelos brancos, instituiu a obrigatoriedade do uso do uniforme terno-azul-marinho-camisa-azul-celeste-gravata-vermelho-cheguei, aposentou os óculos de aros grossos, converteu arrogantes vocacionais em poços de humildade, permitiu a gargantas franzinas formularem incongruências com voz de tenor, transformou azarões em favoritos, elegeu perfeitas […]

A era dos marqueteiros produziu incontáveis espantos: acabou com todos os vincos e rugas, erradicou os cabelos brancos, instituiu a obrigatoriedade do uso do uniforme terno-azul-marinho-camisa-azul-celeste-gravata-vermelho-cheguei, aposentou os óculos de aros grossos, converteu arrogantes vocacionais em poços de humildade, permitiu a gargantas franzinas formularem incongruências com voz de tenor, transformou azarões em favoritos, elegeu perfeitas nulidades e promoveu bestas quadradas a gênios da raça. Mas não produziu um único estadista.

O sumiço dessa fina estirpe não pode ser debitado inteiramente na conta do profissionais do marketing político. Mas é impossível imaginar um marqueteiro soprando o que deve ser feito aos ouvidos de um estadista. Gente assim sabe que pesquisas de opinião captam um estado de ânimo condicionado por circunstâncias passageiras ─ e pelo imaginário popular. Sabe que a voz do povo não é ditada pela Divina Providência: é apenas a voz do povo, e não traduz necessariamente o que é melhor para um país.

Como os políticos comuns, profissionais do marketing político pensam na próxima eleição. Estadistas pensam na próxima geração. Em 1938, já que a maioria dos britânicos queria um tratado de paz com a Alemanha, os marqueteiros teriam sugerido a Winston Churchill que fosse mais polido com Adolf Hitler. Nos anos seguintes, sobraçando levantamentos do Instituto Gallup, teriam implorado a Franklin Roosevelt que mantivesse os Estados Unidos fora de uma guerra que, para sete entre dez americanos, era um problema europeu.

Na eleição que se seguiu ao triunfo contra a Alemanha nazista, Churchill também seria aconselhado a livrar-se do charuto, beber menos, esconder que dormia depois do almoço, emagrecer pelo menos 15 quilos, usar fotografias que amputassem a calvície e, sobretudo, parar de denunciar com tanta veemência a política expansionista da União Soviética. Cansados de guerra, os ingleses não queriam sequer ouvir falar em Guerra Fria. Churchill talvez não tivesse perdido a eleição. Mas perderia a chance de voltar nos anos 50, o lugar que lhe coube na História e o respeito que sempre merecerá  de todas as gerações.

A oposição brasileira precisa mais de líderes com visão histórica que de candidatos com chances de vitória. O país que presta está pronto para o combate frontal e sem prazo para terminar. Se o preço a pagar pela chegada ao poder for a rendição sem luta, os democratas preferem a derrota. O que está em jogo não é o Palácio do Planalto, é o futuro. Não se trata de escolher entre nomes, mas entre a liberdade e o autoritarismo. Os oposicionistas decentes devem mirar-se no exemplo do primeiro-ministro britânico. A farsa precisa ser desmascarada. A fraude não resiste ao confronto com a verdade. Quem se opõe a algo ou a alguém tem o dever de denunciar com dureza os crimes e pecados do adversário.

Churchill perdeu as primeiras batalhas. Sabia, quando começou a guerra contra o inimigo primitivo e poderoso, que tinha o apoio declarado de menos que 5% dos ingleses. Mas também sabia que essa minoria logo se tornaria majoritária porque, entre outros trunfos, tinha razão. E a civilização sobreviveu.

Comentários
Deixe um comentário

Olá,

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

  1. Comentado por:

    Cecília

    Augusto, eu te amo!
    Sempre me lembro dos exemplos da história. Espero estar viva para ver a virada. Acompanho tudo desde a redemocratização. Chorei qd a emenda das Diretas não vingou. Rolaram CPIs e CPIs. Decepcionei-me… (era feliz e não sabia) Cadê hoje as CPIs? Acho que Serra devia assumir a posição oposicionista, falar a verdade, falar o que há de errado, ainda que custasse mais e mais votos. Mas usasse o precioso tempo que tem para esclarecer as pessoas.
    O que a gente pode fazer sinceramente?

    Curtir

  2. Comentado por:

    João Campos

    Sensacional!!!
    Vou espalhar entre amigos e parentes o melhor texto do atual momento de defesa da democracia.
    Parabéns outra vez!!!!

    Curtir

  3. Comentado por:

    Ricardo A. Setti

    Grande Augusto, seu texto merecia ser talhado na pedra. Perfeito.
    Como irretocável é seu texto aconselhando o “Zé” Serra a rever o trecho do vídeo em que, num debate na TV, Covas começou a sepultar Maluf na eleição — pedindo aos eleitores que comparassem o caráter de cada candidato, seu currículo, sua história, sua dedicação à democracia.
    Com admiração, o amigo
    SETTI
    Um abraço especialmente afetuoso, meu irmão. É um prazer enorme ter você por perto. Augusto

    Curtir

  4. Comentado por:

    fpenin

    Caro Augusto,
    Você acertou na veia, amigo. Os marqueteiros transformam todos em bois de presépio. Se essa corja já tivesse toda a influência que tem à época de Carlos Lacerda, o implacável político seria transformado em Chico Xavier,com certeza. Um conselho: Serra é melhor em tudo;por que, então, não vestir a roupa de Serra? Que o candidato deixe os disfarces para quem não pode aparecer sem eles.

    Curtir

  5. Comentado por:

    fpenin

    Augusto,
    O teu espaço virou uma área de debates (salutares) e de esclarecimento, assumindo grande importância no aperfeiçoamento político dos que te leem.À pergunta do teu colaborador Paulo Aldebarã,uma resposta é inevitàvel: Aécio está escondidinho, conjugando o verbo reflexivo OMITIR-SE. Não se comprometeu,até agora. Estou errado ?

    Curtir

  6. Comentado por:

    marcos paula

    Brilhante raciocínio Augusto. Mande cópia para o Serra ler.

    Curtir

  7. Comentado por:

    Alvaro

    BASTAVA O TÍTULO: Estadistas não consultam marqueteiros. Estadistas estudam o passado, ouvem o presente e miram o futuro, bem a frente. Tudo bem que aqueles que recebem os bolsas-tudo só votam no pai dos pobres – são 20% dos brasileiros. Os banqueiros e os politicos cambalacheiros tambem, eles, que são em torno de 10% dos brasileiros, querem manter o status quo, institucionalizando o roubo.. Mas a classe média, o Brasil que trabalha e produz, esta ávida por ver e ouvir um político em campanha. A classe média e o Brasil que pensa e teme pela democracia em risco, está esperando o líder dar um murro na mesa e dizer: basta de mentira e embromação, cambada de cambalacheiros. Quem colocou o Brasil nos trilhos foi Fernando Henrique Cardoso, (fomos nós), que deixou a infraestrutura como vacina contra todo tipo de loucura e populismo. Lei de responsabilidade fiscal como fechadura dos cofres públicos para os aventureiros e irresponsáveis. Privatização de tudo que era ineficiência e cabide de empregos. Controle da inflação, o pior e mais perverso dos impostos para os pobres. Programas sociais vinculados a contraparostidas em relação a educação dos filhos das classes menos favorecidas (Bolsa Escola). Alinhamento internacional com a sensatez e a democracia. Serra pode falar em tom intimista para a classe média sobre habitação e juros estratosféricos no cheque especial e cartao de crédito, sobre a farsa do incentivo ao crédito consignado para pensionistas e aposentados. Sobre empreendedorismo, BNDS, Banco do Nordeste, Caixa Economica Federal. Sobre esporte e cultura e ciência e tecnologia para tirar o jovem da droga e do marasmo que favorece a criminalidade. Mas se o candidato do PSDB, nos seus discursos, ficar distribuindo livros para eleitores, ambulâncias para políticos e lentes para portadores de catarata, e se nao disser que Dilma é o proximo e perigoso capítulo da farsa do irresponsavel chefe dela, ele vai ter que voltar à sua infância para mercar na barraca de feira do seu honrado e virtuoso pai, verduras e frutas, agora com agrotóxico produzido pelos marqueteiros de plantão. Serra, volte a ser Serra.Leia Serra e Mario Covas, e Ulisses e FHC. Reveja a metodologia e a coragem de Roberto Jefferson denunciando a turma do mensalão. Libere a “frango político” que está dentro de vc. Senão a vuvuzela ambulante vai eleger a jabulane da guerrilha e a democracia no Brasil vai parar no pré- sal.

    Curtir

  8. Comentado por:

    Valentina de Botas

    Bom dia, Augusto!
    Os indignados estamos sequiosos de figuras públicas cujas convicções estejam a salvo de permutas baratas de altíssimo custo para a nação. Serra, náufrago também ao deixar-se seduzir pelo canto de sereia de marqueteiros, é um homem probo. Mas nele ficou clara a falta do que identificamos de sobra no colunista e que turvou-lhe o discernimento: fidelidade aos princípios. Assim, é natural sugerir que você se candidate a algum cargo público, como vejo em não poucos comentários. Além do carisma, você parece ter as qualidades que o Brasil decente quer nos governantes. Isso já o levou a declarar mais de uma vez que seu lugar é aqui. Você deve saber o que diz, afinal, é marca do excelente profissional tanto a argúcia para traduzir a realidade do país quanto para situar-se nela. Churchill, Tancredo, JK e Roosevelt – os estadistas que inspiram os parâmetros do post – também souberam discernir as ações e o lugar corretos que lhes couberam por missão histórica e convicção. Tarefa impossível para políticos apenas probos, e indesejável para os que nem isso são, esse discernimento é tudo quanto basta. Édipo, antes de furar os olhos que não viam, negou-se a ouvir Tirésias, o cego que enxergava o futuro sem ver o presente. Seduzido pela formosura de Cassandra, Apolo concedeu à princesa troiana o dom da profecia. Mas, quando a moça recusou-se a transar com o deus, ele a amaldiçoou com a angustiante descrença no que a coitada profetizasse. Assim, Agamenon negou-se a ouvi-la. Os gregos sempre davam um jeito de esculhambar os dons divinos em humanos. Nos dois casos, sobrevieram os desastres conhecidos. Porta-vozes do discernimento na peculiar narrativa trágica grega, os “videntes” personificavam a sensatez persistente dos convictos e não a teimosia inflexível dos arrogantes, a paciência ativa dos que examinam “a espuma só depois que as ondas param de bater” e não o mero blefe dos negociantes de consciências, a ponderação resoluta dos homens honrados e não a pusilânime chantagem dos farsantes. Assim agem os estadistas, pois, compreendendo claramente o presente e conhecendo bem o passado, não preveem o futuro – determinam-no com a lucidez que falta a seus contemporâneos. A mesma lucidez deste post, magnífico exercício de discernimento de um profissional que, erigindo-se como estadista no jornalismo, também determinou-lhe o futuro. Um beijo, Valentina.
    Um beijo, Valentina.

    Curtir