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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Cuidado com o cão do vice

A República Federativa do Brasil tem uma longa história de vices que assumiram. Aliás, o primeiro vice, Floriano Peixoto, foi também o primeiro a assumir

Por Deonísio da Silva 12 ago 2018, 11h22

Deonísio da Silva

O vice é decorativo? No Brasil, não. No Brasil, o vice assume. O atual presidente, por exemplo, é um vice que assumiu. Portanto, eleitores, cuidado com a escolha do vice. 

Cave canem (cuidado com o cão) informava a inscrição do mosaico em que aparecia um cão acorrentado, Muitas residências romanas tinham esta “decoração”. Quando o dono não estava em casa, o vice, digo, o cão, era solto.

A República Federativa do Brasil – alguns candidatos a presidente tropeçam na designação e ainda substituem “Federativa” por “dos Estados Unidos” – tem uma longa história de vices que assumiram. Aliás, o primeiro vice, o marechal Floriano Peixoto, foi também o primeiro a assumir.

Fiquemos apenas nos “tempos modernos” de nossa República. Cerca de trinta anos depois da renúncia  de Jânio Quadros, substituído pelo vice, João Goulart, assumia outro vice. Sucedia ao presidente deposto, Fernando Collor de Mello, seu vice Itamar Franco.

E Collor tinha entrado no lugar de quem? De outro vice que assumira: José Sarney, vice de Tancredo Neves, dupla levada ao poder por eleição indireta, como faz a Igreja há mais de dois milênios.

O Brasil atravessara três décadas sem eleição direta para presidente da República. Cito a Igreja porque a Santa Madre defende esta forma de poder, mas não a aplica em suas instituições. Tampouco aprecia vices. Não tem vice-padre, vice-bispo, vice-cardeal e muito menos vice-papa.

Collor deposto, assumiu seu vice. Este pensou que um de seus ministros, Fernando Henrique Cardoso, que ele ajudara a eleger com o Plano Real, cumpriria a Constituição e Itamar voltaria, não mais como vice, mas como titular.

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O que fez o presidente ajudado? Alterou a Constituição, introduzindo a reeleição e assim ficou mais quatro anos. Hoje, FHC, como é mais conhecido, tem assento na Academia Brasileira de Letras ao lado de um vice que assumiu, José Sarney, e ao lado de seu próprio vice, Marco Maciel, um dos raros casos de vice que não assumiu. 

Coisas da democracia brasileira. Mas o que é que a democracia tem para nos encantar tanto? O que é que a baiana tem, Dorival Caymmi já nos explicou, em lições imortais, ministradas, entre outros, por ele e por Carmen Miranda: “Tem torço de seda, tem!/ Tem brincos de ouro, tem!/ Corrente de ouro, tem! / Tem pano-da-Costa, tem!”.

Vestida a caráter – no Brasil meridional, dir-se-ia pilchada – a baiana apresenta-se de “bata rendada”, “pulseira de ouro”, “saia engomada” e “sandália enfeitada”.  

Mas de nada serviriam todos esses adereços, não fossem duas qualidades essenciais de sua baianice: “Tem graça como ninguém,/ Como ela requebra bem!”. O pano-da-costa, listrado ou em cores vivas, feito à mão, era assim chamado porque o Brasil o importava das costas da África. O torço é mais conhecido como turbante.

A democracia é plantinha frágil em nosso jardim republicano. Não nasceu, foi transplantada da Europa e dos EUA. Para que pegasse entre nós, foi necessário impô-la à força da espada do marechal Deodoro da Fonseca, um monarquista muito amigo do imperador Dom Pedro II, a quem depôs, liderando um golpe de Estado.  

O que é bom para o Estado, não é necessariamente bom para o cidadão. A democracia, à semelhança da baiana, também tem “graça como ninguém” e “requebra bem”, itens que as réguas não medem, para evitar equívocos.

Afinal, por duas polegadas a mais, já passaram outra baiana pra trás. E sempre restará a questão vista de outro modo: Marta Rocha tinha duas polegadas a mais ou a americana Miriam Stevenson tinha duas polegadas a menos?

As polegadas foram substituídas por dígitos, que agora medem a preferência dos eleitores se a eleição fosse hoje. Quem vencer, verá. E quem perder, também. Pois na democracia, segundo afirmam seus defensores, ninguém perde.

*Deonísio da Silva
Diretor do Instituto da Palavra & Professor
Titular Visitante da Universidade Estácio de Sá
http://portal.estacio.br/instituto-da-palavra

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