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Confidências do presidente João Figueiredo numa noite das arábias

Publicado em 26 de maio de 2009 Capítulo 1 DUAS FRASES E CINCO PALAVRAS ─ Bom dia, presidente ─ começou minha primeira conversa com um chefe de governo brasileiro. ─ Bom dia ─ encerrou-a João Figueiredo, último dos cinco generais-presidentes do regime militar. Duas frases, cinco palavras e uma vírgula não autorizam ninguém a achar […]

Por Augusto Nunes Atualizado em 31 jul 2020, 13h03 - Publicado em 25 jan 2011, 16h49

Publicado em 26 de maio de 2009

Da esquerda para a direita: Paulo Maluf, Elio Gaspari, Cesar Civita, Victor Civita, João Figueiredo e o colunista

Capítulo 1

DUAS FRASES E CINCO PALAVRAS

─ Bom dia, presidente ─ começou minha primeira conversa com um chefe de governo brasileiro.

─ Bom dia ─ encerrou-a João Figueiredo, último dos cinco generais-presidentes do regime militar.

Duas frases, cinco palavras e uma vírgula não autorizam ninguém a achar que houve um diálogo, muito menos uma conversa. Aquilo não passou de uma banalíssima troca de cumprimentos. Não tive tempo de dizer como me chamava e o que fazia, nem de perguntar-lhe se estava bem. Mas eu não precisava contar à minha família que a coisa foi tão indigente. Diria apenas que tinha conversado com o presidente, só isso, e não estaria mentindo. Resolvida a questão doméstica, fiquei olhando o homem baixo e atarracado, suando sob o terno e a gravata que oficiais da cavalaria jamais aprenderão a combinar, que avançava escoltado por meia dúzia de seguranças pelo atalho aberto na pequena multidão reunida para recepcioná-lo no 7° andar do prédio da Editora Abril na Marginal do Tietê.

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Um dia ainda pego esse cara de jeito, consolei-me. Peguei mesmo, mas só sete anos mais tarde, quando Figueiredo já era ex-presidente e tinha tempo de sobra até para conversar horas a fio com um jornalista que nem conhecia. Naquele começo de tarde em que dialogamos por cinco segundos, eu não poderia adivinhar que viajaria a seu lado numa noite das arábias. Tratei de convencer-me de que não fora uma desconsideração. No lugar dele eu faria o mesmo. Também teria preferido juntar-me à roda onde estavam o fundador da Abril, Victor Civita, o editor Roberto Civita, o diretor de redação de Veja, José Roberto Guzzo, o diretor-adjunto Elio Gaspari, o governador Paulo Maluf e mais duas ou três figuras da primeira divisão. Eu era só o editor de Política. Quem ocupa esse cargo joga na segundona.

Ainda bem que nenhum deles vai estar no Guarujá amanhã, confortei-me em completo silêncio, planejando os preparativos para o encontro com o ex-presidente Jânio Quadros no dia seguinte. Que maio, aquele. Um presidente e um ex- em 48 horas. Se não houve tempo para uma conversa que merecesse tal nome no dia 27, a do dia 28, com Jânio, duraria uma tarde inteira. De passagem, iria mostrar ao velho campeão como é que se bebe.

Pelo menos a conversa posso ouvir, decidi com a cabeça de volta ao prédio da Abril. Pedi a Pedro Martinelli que me fotografasse ao lado de Figueiredo, minha mãe iria ficar orgulhosa. Abri caminho na selva de braços, dorsos, cabeças, pernas e consegui estacionar a um metro do presidente. Pedrão fez a foto. Só uma, a que ilustra esta narrativa. E que seria usada contra mim, como ocorreria com a imagem transformada por Jânio no golpe de misericórdia que encerrou o duelo desigual. A foto do dia 28 viraria prova de que só eu bebi. A do dia 27 me deixou com cara de papagaio de pirata.

Não ouvi grande coisa, ninguém faz revelações espetaculares numa roda. Mas fiz dois ou três registros que poderiam ser úteis. Figueiredo fumava mais que marido traído de filme francês e vivia sob a tensão permanente que aflige um espião argentino. Quando o tema do momento aguçava o desconforto, a perna esquerda balançava como um pêndulo que perdeu a compostura. Ele parecia insatisfeito com o emprego. Estava mesmo, confirmaria sete anos depois.

Não guardo lembranças do almoço, nem lembro a que distância fiquei da mesa principal. Achei que nunca mais toparia com Figueiredo depois da entrevista ao jornalista Alexandre Garcia em que, com o governo no fim, pediu ao país que o esquecesse. Parecia sincero. Mas resolveu esquecer o pedido em 12 de março de 1987, uma quinta-feira. Começou a falar às 8 da noite. Só parou às duas da madrugada.

Quando o falatório terminou, descobri que poucas vezes tivera tanta sorte naquela virada para uma sexta-feira 13. É o que se verá no segundo e último capítulo da história.

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