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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Certas épocas são doentes mentais

“Quero crer que certas épocas são doentes mentais. Por exemplo: a nossa”. Assim começa a crônica publicada por Nelson Rodrigues em 5 de abril de 1968 no jornal O Globo, com o título “Os dráculas”.  Há 42 anos, o grande cronista ironizou uma trêfega ideia de dom Helder Câmara: modernizar a missa católica com a […]

Por Augusto Nunes - Atualizado em 21 Feb 2017, 10h45 - Publicado em 22 Sep 2010, 20h20

“Quero crer que certas épocas são doentes mentais. Por exemplo: a nossa”.

Assim começa a crônica publicada por Nelson Rodrigues em 5 de abril de 1968 no jornal O Globo, com o título “Os dráculas”.  Há 42 anos, o grande cronista ironizou uma trêfega ideia de dom Helder Câmara: modernizar a missa católica com a substituição da música sacra por sons mais brasileiros. “Parece ao arcebispo de Olinda e Recife que se pode louvar a Deus, igualmente ou até com vantagens, com a cuíca, o pandeiro, o reco-reco e o tamborim”.

Certas épocas são doentes mentais. Por exemplo: a nossa. Assim pode começar qualquer texto sobre este assombroso início de primavera. Os dráculas de 2010 são bem menos inofensivos que os de Nelson Rodrigues. Querem transformar a imprensa no Grande Satã para louvar a roubalheira, a corrupção, o liberticídio, a impunidade institucionalizada.

Não há nada de espantoso na relação dos organizadores da manifestação que prega o assassinato da verdade. São pelegos arrendados, universitários em idade de aposentadoria, desocupados sem terra e sem cérebro e outras nulidades. O que assombra é o local do evento: as tropas do primitivismo vão declarar guerra à liberdade de imprensa no sindicato dos jornalistas de São Paulo.

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A desoladora indigência intelectual dos dirigentes permite uma segunda suspeita. Como jamais conseguirão assinar uma reportagem em jornais ou revistas que obedeçam a critérios profissionais, aí estaria uma chance de verem seus nomes impressos em publicações sérias. Mas fico com a primeira hipótese. Eles não sabem o que fazem. Como todos os que contribuem para deixar nossa época com cara de doente mental.

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