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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

A psicóloga Valdeli Vieira fala sobre estresse em crianças e adolescentes

Segundo a especialista, os jovens não estão conseguindo desenvolver estruturas psíquicas que vão permitir a regulação das emoções

Por Branca Nunes, Cristyan Costa - Atualizado em 22 fev 2020, 14h30 - Publicado em 22 fev 2020, 12h44

Agendas lotadas de atividades, muitas horas diante da TV, estresse pela volta às aulas. Esses foram alguns dos assuntos abordados com a psicóloga Valdeli Vieira no programa Perguntar não Ofende, da rádio Jovem Pan. Fundadora do Espaço Potencial, clínica especializada no atendimento de crianças e adolescentes, ela fala da importância da convivência e da conversa entre pais e filhos. Confira trechos da entrevista:

“A agenda cheia tem a função de manter a criança permanentemente ocupada e isso acaba interferindo em outros aspectos da vida fundamentais ao desenvolvimento. A criança precisa ter o tempo do descanso, do brincar – que é o grande estabilizador da vida nesta idade –, e o ‘tempo do nada’, em que ela fica em silêncio elaborando as emoções do dia, entendendo o que aconteceu, pensando sobre o que aprendeu. Estando em movimento o tempo todo, essas atividades tão necessárias ao desenvolvimento sócio-emocional e cognitivo são deixadas de lado”.

“Temos identificado muitos casos de estresse em crianças. Elas não estão conseguindo desenvolver estruturas psíquicas que vão permitir a regulação das emoções, do controle dos impulsos e a tolerância a frustrações”.

“A questão é: as crianças precisam aprender um monte de atividades ou os pais querem que elas estejam ocupadas? Percebo que os pais querem manter os filhos ocupados porque não estão disponíveis. Quanto mais a criança está ocupada, menos ela demanda. Oferecer uma série de atividades acalma os pais. Eles dizem a si mesmos: eu não estou disponível, mas olha tudo o que estou proporcionando para o meu filho. Isso acalma a culpa”.

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“Muitas vezes se confunde estresse com ansiedade. A ansiedade, enquanto sintoma, é um sentimento mais difuso, ligado a uma preocupação, um medo. O estresse, pelo contrário, é uma resposta adaptativa do organismo a uma determinada situação. A volta às aulas pode gerar estresse tanto em crianças que têm uma relação positiva com o ambiente escolar como naquelas que tiveram dificuldades no ano anterior e estão com medo que aquilo se repita. Isso faz parte do desenvolvimento. O que nos preocupa é quando esse estresse atinge níveis mais graves, que geram crises de choro, alterações no sono e outros sintomas físicos”.

“Quando pergunto para alguns pais o que conversam com seus filhos, muitos respondem que perguntam o que ele aprendeu na escola, que nota tirou. Isso não é uma conversa, é uma exigência de desempenho, um questionamento. E a criança e o adolescente se fecham. Quanto mais momentos de convivência os pais conseguirem ter com seus filhos, mais os vínculos se fortalecem. E um vínculo forte oferece um suporte para a criança falar do que ela está vivendo”.

“A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda que até os dois anos a criança não seja colocada diante de uma tela para uso recreativo. Dos dois aos cinco anos, é recomendado no máximo uma hora por dia. E, a partir dessa idade, por volta de duas horas. Penso que esse primeiro contato deveria ser postergado, porque isso tem a função de silenciar a criança”.

“Será que os adolescentes não ficam muito tempo na frente de uma tela porque os pais também ficam? Nas famílias que convivem, que jantam juntos, conversam, o adolescente não fica tanto na frente da telinha, porque tem outras coisas para fazer que também são muito legais”.

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“Estamos vivendo um momento muito difícil em termos de saúde mental. Muita pressão, demandas, exigências. Essa ideia de que quanto mais ocupados estamos, mais importantes e competentes somos, pode ser enganosa. As vezes você é muito ocupado simplesmente porque não consegue organizar seu dia. Os adultos também estão exaustos e ficar na frente de uma tela é uma forma de se anestesiar. É quase a mesma relação que se tem com a droga”.

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