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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

A placa

Carnaval é multicultural, democrático, do povo de todas as origens que forma o extraordinário mosaico brasileiro

Por Heraldo Palmeira Atualizado em 30 jul 2020, 20h34 - Publicado em 17 fev 2018, 11h14

Heraldo Palmeira

Já estamos acostumados à falta de boas notícias. Aprendemos a dar de ombros à tristeza cotidiana, diuturna, interminável, anos a fio! Mas temos um fevereiro todos os anos, uma tradução nacional irrepreensível.

O importante é ser fevereiro
E ter Carnaval
Pra gente sambar

O palco estava ali, bem diante da janela privilegiada. Bastava chegar no peitoril no final de tarde e olhar para baixo, ver se já era hora de descer. Vantagem de estar no epicentro de um dos polos da folia de rua da cidade que revitalizou seu Carnaval. Dias seguidos, diversos shows numa mesma noite.

O marqueteiro de ocasião lhe incluiu “Multicultural” no nome, como se isso fosse alguma novidade, como se qualquer Carnaval já não fosse, desde sempre, multicultural, democrático, do povo de todas as origens que forma o extraordinário mosaico brasileiro. Ah, tempos chatos dessa insistência em definir demais as coisas que já estão definidas por aclamação! É preciso relevar, quem não é do ramo é capaz de passar uma vida fora do tom.

Por volta das onze da manhã, começava a tal passagem de som, que aqui é um negócio quase pré-histórico, mesmo se tratando do país que produz uma das melhores músicas do mundo. Esse é um quesito curioso da produção cultural e da indústria do entretenimento nacional que me chama a atenção: o processo, mesmo chato e demorado, quase sempre resulta num som ruim na hora do espetáculo.

Convivo há muitos anos com a produção de discos musicais e de eventos, e obter qualidade sonora não é tarefa simples. Na verdade, a despeito dos equipamentos de ótimo nível, ainda são poucos os operadores de som que dispõem de formação técnica adequada. A maioria chegou ali de forma empírica.

Vivemos a ditadura do volume alto demais e da hegemonia dos sons graves. O subwoofer, certamente imaginado para “dar peso” e aveludar o som, virou hegemônico em todos os lugares e descaracteriza qualquer música tocada. É seu péssimo uso que causa aquela sensação desconfortável de bate-estaca cheia de uma mistura insolúvel de “pês”, “enes”, “efes”, “us”, “erres” e “esses”, aquela coisa parecida com um fungado distorcido, como se houvesse algo frouxo trepidando o tempo inteiro.

Claro, os técnicos de som empíricos se apresentam soberanos, costumam ostentar aquele ar solene de operadores do sistema solar. E fazem cara de desprezo ─ com pitadas de nojo ─ se algum simples mortal ousar reclamar ou sugerir alguma coisa. Natural que careçam de horas a fio para a tal passagem de som e terminem não conseguindo timbrar corretamente os instrumentos, muito menos uma mixagem aceitável no conjunto sonoro final. Tentativa e erro que quase sempre resulta em erro.

Felizmente, naquele trecho de rua os empíricos foram minoria. Supremo conforto, o repertório refinado também não permitiu nenhum desses lixos musicais em voga. Cantamos e dançamos grandes músicas brasileiras de todos os tempos e até um repertório inteirinho só de Beatles num dos shows ─ uma pequena viagem de submarino amarelo. Ora, somos multiculturais desde sempre!

Foi bom demais ver e participar de um resgate histórico. Repetimos o que era comum na nossa juventude: gente de todas as idades, muitas famílias com suas crianças, concentrávamos em determinados pontos do bairro e circulávamos em pequenos blocos. Agora, todos rumando para diante do palco.

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Bares tradicionais (verdadeiras confrarias), preços honestos, mesas no meio da rua. O tempo repaginado por amigos de longa data, filhos e seus agregados amorosos, filhos desses filhos, como alas usufruindo em harmonia a herança da nossa antiga folia… A prata nos cabelos era bem mais do que fantasia.

Perdi a conta dos sorrisos, dos acenos, dos gracejos, dos brindes entusiasmados, dos abraços apertados de reencontro, das boas conversas aos gritos, das gargalhadas. A sensação potente de misturar saudade, emoção, esperança e alegria. De tempo parado no ar, como se os passos do frevo não saíssem do lugar. Como se todas aquelas noites fossem uma só, apenas com um pequeno intervalo de dia claro para um breve descanso. Como se estivéssemos em mais um capítulo de um mesmo Carnaval interminável. Como se os anos, tantos, não tivessem passado tão rápido.

Fantasias improvisadas, engraçadas, descaradas, ricas de descompromisso estético, enfeitando o desejo de festejar, de ser feliz, de se acabar na alegria e nada mais.

Amores antigos, novos, feitos, refeitos, revigorados, descartados. Olhares mantendo segredos e saudades. Olhares de lince, de lança, provocantes, paralisantes, como ímãs atraindo corpos na dança. Todos os amores possíveis, sem qualquer dificuldade, sem discurso, apenas sendo, seguindo como um rio em seu curso.

Beijos roubados, trocados, ensaiados, desejados, adiados. Um sonho derramado para dentro da alma, como se não houvesse amanhã e depois de amanhã. A contagem regressiva da noite da terça-feira, a madrugada chegando, o acorde final, o silêncio da música. O até breve e uma cerveja combinada para depois como senha de esperança na vida, no futuro, na alegria que virá envelhecida pelo tempo de um ano que correrá até o próximo fevereiro. O peso da Quarta-feira de Cinzas.

Sopraram cinzas no meu coração
Tocou silêncio em todos clarins
Caiu a máscara da ilusão
Dos Pierrots e arlequins

O movimento triste das ruas se esvaziando, o pelotão da limpeza urbana, garçons fechando contas, abraços de quem quer ficar, carícias trôpegas de cansaço, o torpor em câmara lenta. A esquina dobrada deixando para trás aquele meio quarteirão e seu córner que agora são somente memória, saudade que dói em dor quase física. Águas passadas de mais um Carnaval lavando a alma, parando no olho. Difícil saber se é brilho ou lágrima.

Foi um rio que passou em minha vida
E meu coração se deixou levar

Lembrei da placa que havia pendurada numa parede da casa antiga: “Que Deus abençoe esta bagunça”. Sim, que Deus abençoe esta bagunça que nos organiza em fevereiro. Ainda bem que existe um fevereiro todos os anos. É a boa notícia que sempre chega, mesmo que a gente passe o ano inteiro dormindo nos retalhos de cetim da vida que vamos perdendo a cada dia.

O movimento lento do elevador subindo para mais perto do céu, deixando as estrelas soberanas um tiquinho mais próximas de mim. Uma última vista da janela privilegiada antes de apagar as luzes da sala, a quase manhã prestes a desmanchar a magia daquelas noites que agora não sei direito onde estão.

Vão adormecer comigo aqueles olhos intensos com que assisti encantado a tudo. E a promessa íntima de que estarei aqui de novo no ano que vem ─ e em todos os anos antes da minha Quarta-feira de Cinzas. Agora, peço licença para reverenciar o silêncio de surdos e tamborins. E o meu cansaço.

Trechos de:
O importante é ser fevereiro (Nilo Amaro-Wando)
Turbilhão (David Raw-Victor Simão)
Foi um rio que passou em minha vida (Paulinho da Viola)

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