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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

“Seis meses dormindo”, um texto de Fernando Reinach

TEXTO PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA QUINTA-FEIRA Fernando Reinach Quando me contaram que os ursos entram numa caverna no início do inverno e dormem por seis meses, eu tinha 5 anos. E me lembro que fiquei impressionado. Eles se mexem, fazem xixi? “A caverna é muito escura, ninguém sabe.” Nos últimos 50 anos, muito se descobriu […]

Por Augusto Nunes Atualizado em 31 jul 2020, 12h04 - Publicado em 6 Maio 2011, 16h37

TEXTO PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA QUINTA-FEIRA

Fernando Reinach

Quando me contaram que os ursos entram numa caverna no início do inverno e dormem por seis meses, eu tinha 5 anos. E me lembro que fiquei impressionado. Eles se mexem, fazem xixi? “A caverna é muito escura, ninguém sabe.” Nos últimos 50 anos, muito se descobriu sobre o processo de hibernação, mas a grande maioria dos estudos foi feita com animais pequenos, capazes de hibernar no laboratório. Minha curiosidade só foi satisfeita agora.

Por todo o Alasca, ursos pretos, Ursus americanus, comportam-se como o Zé Colmeia: roubam cestas de piquenique e assustam turistas, vagando pelos acampamentos à procura de comida. Eles são chamados de “nuisance animals” e são rotineiramente capturados e transportados para áreas remotas.

Seis deles foram levados para o Instituto de Biologia Ártica em Fairbanks, no Alasca, e colocados em uma área cercada. No outono, foram anestesiados e, com uma pequena cirurgia, monitores cardíacos e de atividade muscular foram implantados sob a pele. Para permitir que eles hibernassem, foram colocadas caixas de madeira nas quais eles podiam se abrigar.

Essas cavernas artificiais tinham antenas capazes de captar os sinais de rádio dos monitores e transmitir os dados para os cientistas. Possuíam câmeras de infravermelho capazes de medir a temperatura corporal dos animais e filmar seus movimentos.

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Não satisfeitos, os cientistas colocaram nas caixas um equipamento capaz de medir a quantidade de oxigênio consumida pelos animais e a de gás carbônico liberada, o que permite saber o que acontece com seu metabolismo. Aí foi só esperar o inverno chegar, os animais se aninharem nas suas caixas e iniciarem a hibernação. Foram seis meses de sono cuidadosamente monitorados.

Mobilidade. Primeiro, os cientistas confirmaram o que já se imaginava. Durante a hibernação, que pode durar de cinco a sete meses, entre novembro e abril, os ursos não se alimentam, não bebem água, não urinam e não evacuam. Mas eles não dormem totalmente imóveis. Nos primeiros meses, eles se movimentam duas vezes por dia, mudando de posição e algumas vezes levantando e deitando novamente.

Esses movimentos vão rareando e, no meio da hibernação, por volta de fevereiro, eles se movem somente a cada dois dias. Nos últimos dois meses, seus movimentos se tornam mais frequentes, até que eles acordam e saem da caverna.

O ato de acordar ocorre somente quanto a temperatura do ar volta a ser de 0°C. Durante o inverno, a temperatura oscila entre -20°C e -40°C, sendo 10°C mais alta no interior das caixas. A temperatura do corpo do animal se reduz de 38°C para 30°C – uma queda bem menor que a observada em animais menores, mas que acompanha os movimentos do animal.

No início do inverno, ela cai lentamente, ao longo de dois meses, e depois aumenta gradativamente. O interessante é que a temperatura não fica constante ao longo de cada semana. Ao longo de toda a hibernação, a temperatura oscila 2ºC a 3°C, com uma periodicidade de 1,6 a 7,3 dias, subindo e baixando em cada um desses ciclos. O consumo de oxigênio, que baixa em média 75%, também oscila junto com a temperatura, mas não parece acompanhar os movimentos do corpo do animal.

Quando o animal desperta, ao final da hibernação, sua temperatura corporal já está de volta aos 38°C, mas demora ainda de duas a três semanas para seu metabolismo voltar ao normal.

Mas o mais interessante é o que ocorre com a respiração e os batimentos cardíacos. Na fase mais profunda da hibernação, os batimentos cardíacos param por até 20 segundos, em seguida batem cinco ou seis vezes, em um ritmo quase normal, durante cinco segundos, e novamente param de bater por 20 segundos. Durante o tempo em que o coração está batendo, o animal dá uma respirada, inalando e exalando ar pelas narinas. Logo após, ele para de respirar e o coração para de bater por outros 20 segundos. Um médico que examinasse o animal durante esses 20 segundos diria que ele está morto, sem respirar e sem batimentos cardíacos.

É assim que os ursos vivem durante os seis meses que passam dormindo. Demorou 50 anos, mas minha curiosidade foi satisfeita. Agora não estou aguentando esperar que meu filho me pergunte o que ocorre com os ursos durante o inverno. “A caverna é muito escura, ninguém sabia, mas uns cientistas no Alasca…”

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