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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

‘Sem anestesia’, um texto do Oliver

VLADY OLIVER Uma bala, quando atravessa o crânio, costuma fazer mais estragos quando entra lateralmente, na região do ouvido, do que quando entra frontalmente, afetando apenas um dos lóbulos. Na segunda hipótese, a chance de alguém sobreviver com menos sequelas é maior, embora também diminuta. Sei disso porque acompanhei o calvário do irmão adolescente de […]

Por Augusto Nunes Atualizado em 31 jul 2020, 04h30 - Publicado em 7 fev 2014, 19h38

VLADY OLIVER

Uma bala, quando atravessa o crânio, costuma fazer mais estragos quando entra lateralmente, na região do ouvido, do que quando entra frontalmente, afetando apenas um dos lóbulos. Na segunda hipótese, a chance de alguém sobreviver com menos sequelas é maior, embora também diminuta. Sei disso porque acompanhei o calvário do irmão adolescente de minha mulher, em sua luta pela vida depois de alvejado por traficantes de drogas em Porto Seguro, na Bahia, por conta de uma dívida feita por familiares que eram viciados. Ele foi morto para servir de exemplo para quem realmente devia. A equipe cirúrgica estancou a pressão intracraniana, retirou o máximo de fragmentos de osso que se alojaram no cérebro ─ e esperamos todos pelo pior.

Normalmente, um cérebro jovem e sadio consegue dar uma sobrevida ao seu portador que significa uma esperança, mas aí atua uma segunda bateria de condições adversas que uma pessoa precisa superar, se quiser sobreviver. Hospitais públicos no meio do nada deixam seus pacientes sujeitos à infecções oportunistas que, em alguns casos podem ser fatais, como foi no caso de meu cunhado quase sobrinho. Duas semanas depois de um coma interminável, exausto por lutar contra tantas intempéries no caminho, ele finalmente encontrou seu último suspiro, vitimado por uma infecção generalizada, muito comum em casos como esse. Foi um enterro simples, cercado de indignação e resignação. A polícia local jamais encontrou os autores do crime, que atuam a dois quarteirões de onde morava o garoto. Melhor não mexer com quem paga a propina em dia, certo?

Por que este desabafo? Porque a TV russa já mostrou o morteiro que atingiu em cheio o cinegrafista da Band e, provavelmente, o autor do disparo segundos após ter acendido o artefato. E os camelos de sempre não sabem quem disparou o morteiro; a polícia ou os terroristas que atendem pela alcunha de Black Blocs. Prendam o Caetano. Ele deve saber quem foi que efetuou o disparo fatal, se não foi ele mesmo com sua língua e sua retórica de idiota. Pagando com a vida pela jumência alheia, o assassinato de meu cunhado não teve a repercussão deste lamentável episódio de provocação e enfrentamento no Rio de Janeiro.

Mas era um brasileiro, tanto quanto o cinegrafista abatido em serviço. Nem tinha idade para ter passagem pela polícia. Seu mundo ainda se limitava a empinar pipas. Jamais imaginaria o que o futuro lhe reservara. Minhas orações à família do bravo radialista. Que ele resista ao Brasil que estamos cultivando com essa anestesia e essa indiferença, quase desprezo, pela vida.

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