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‘História de um covarde’, por João Pereira Coutinho

PUBLICADO NA FOLHA DE 17 DE ABRIL     JOÃO PEREIRA COUTINHO   Ficar ou não ficar, eis a questão. Passaram-se cem anos desde o naufrágio do Titanic. E eu, que escrevo essas linhas no dia 14 de abril e com o mesmo Atlântico Norte que engoliu o navio à minha frente, regresso ao dilema […]

Por Branca Nunes - Atualizado em 31 jul 2020, 09h04 - Publicado em 18 abr 2012, 18h21

PUBLICADO NA FOLHA DE 17 DE ABRIL

 

bruce

Bruce Ismay, a história de um covarde

 

JOÃO PEREIRA COUTINHO

 

Ficar ou não ficar, eis a questão. Passaram-se cem anos desde o naufrágio do Titanic. E eu, que escrevo essas linhas no dia 14 de abril e com o mesmo Atlântico Norte que engoliu o navio à minha frente, regresso ao dilema fatal: teria ficado com os restantes homens, enfrentando estoicamente o fim?

Ou, como uma ratazana amedrontada, teria pulado para o primeiro bote disponível, salvando a minha triste pele?

O magnata Benjamin Guggenheim ficou. História conhecida, provavelmente apócrifa, seguramente inspiradora: vestido a rigor, decidiu que a prioridade deveria ser concedida a mulheres e crianças. Como um cavalheiro, esperou pela morte no bar.

Não foi caso único: no Titanic, seguiam cerca de 2.300 pessoas. Morreram 1.500. Sobreviveram pouco mais de 700. Só 325 eram do sexo masculino. Entre os sobreviventes machos, estava o anti-Guggenheim por excelência: um nome que ficou na história do naufrágio como exemplo de egoísmo e covardia.

Chamava-se Bruce Ismay, era o diretor da companhia inglesa dona do navio e os seus contemporâneos nunca mais lhe perdoaram o gesto: Ismay pulou para um dos últimos botes do Titanic quando ainda havia mulheres e crianças a bordo.

Ele sempre negou esses fatos nos inquéritos posteriores ao naufrágio. Em Londres ou Nova York, a versão de Ismay era repetidamente a mesma: não havia mais ninguém em volta quando ele pulou; e, além disso, o bote já estava em plena descida.

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Mas os números do naufrágio e testemunhos contraditórios sobre a conduta de Ismay a bordo selaram o seu destino. Pois bem: é precisamente esse destino que o escritor Frances Wilson revisita no melhor livro que li sobre o Titanic.

how-to-surviveO título é de uma ironia cruel e merece ser citado na totalidade: “How to Survive the Titanic: The Sinking of J. Bruce Ismay” [Como Sobreviver ao Titanic: O Naufrágio de J. Bruce Ismay]. Nem mais.

Ismay sobreviveu ao naufrágio do barco. Mas o dia 14 de abril de 1912 marcou o início de um outro naufrágio. O naufrágio da sua alma.

A história é digna de Joseph Conrad e, sem surpresas, o livro dedica um capítulo inteiro a “Lord Jim“, a obra-prima de Conrad publicada 12 anos antes da viagem funesta do Titanic. É a história de um marinheiro que foge instintivamente de um navio acidentado para viver uma existência de desonra insuportável.

Mais do que profético, o livro de Conrad transporta a velha lição do mestre: o nosso destino depende, muitas vezes, de forças que não controlamos. Não apenas as forças tangíveis do próprio mar, que esmagam com violência toda a soberba humana. Mas também as forças pessoais -ou, melhor dizendo, as fraquezas pessoais que, em momentos decisivos, nos podem conduzir a um fracasso inapagável.

O personagem Jim do romance de Conrad é um homem que ama o mar e, talvez mais importante, ama a sua própria confiança pessoal. Até o momento em que essa confiança se converte em medo -e fuga.

O afundamento do Titanic foi demorado: duas horas e meia até mergulhar de vez nas profundezas do Atlântico. Mas o afundamento de Bruce Ismay demorou ainda mais: 25 anos de uma “existência póstuma”, escreve Wilson.

Pesadelo nas águas geladas do Atlântico: ilustração mostra a cena caótica do naufrágio e do resgate nos pequenos botes

Pesadelo nas águas geladas do Atlântico: ilustração mostra a cena caótica do naufrágio que durou mais de duas horas e do resgate nos pequenos botes

Os amigos foram desaparecendo. O gosto pela navegação também. As noites converteram-se em purgatórios de insônia. E a família, recusando-se a aceitar a existência de um covarde dentro de casa, determinou que a palavra “Titanic” jamais fosse pronunciada.

A Bruce Ismay restavam-lhe as temporadas solitárias na Irlanda rural. Fisicamente, morreu em 1937. Mas o óbito que interessa aconteceu em 1912. Quando, ironicamente, Ismay sobreviveu.

Ficar ou não ficar: será essa a questão? A cultura popular, a começar pelo maniqueísmo infantil do cinema de James Cameron, não tem dúvidas: entre coragem e covardia, Bruce Ismay optou pela covardia.

Lendo a “existência póstuma” de Ismay, conhecemos o preço desumano dessa opção. Mas também aprendemos que a coragem e a covardia não são matéria de reflexão teórica. São a consequência imprevista de atos imprevistos perante situações imprevistas. Como nos livros de Conrad, somos todos corajosos, somos todos covardes. E esperamos humildemente que o destino nunca se lembre de nos testar

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