Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Sim, brasileiros inovam

Há uma mania (persistente) de dizer que brasileiro não inova, não empreende, não tem criatividade. Inclusive, desmistifiquei essa ideia em texto que escrevi para o site da Intrínseca – editora, aliás, que publicou um livro meu justamente sobre um dos brasileiros que inovaram, Michel (Mike) Krieger, fundador da rede social Instagram. Ele não é exceção, […]

Uma das bandanas criadas pelo designer brasileiro: nela, mensagens criptografadas podem ser lidas por dispositivos de manifestantes (Roy Rochlin/Divulgação)

Uma das bandanas criadas pelo designer brasileiro: nela, mensagens criptografadas podem ser lidas por dispositivos de manifestantes (Roy Rochlin/Divulgação)

Há uma mania (persistente) de dizer que brasileiro não inova, não empreende, não tem criatividade. Inclusive, desmistifiquei essa ideia em texto que escrevi para o site da Intrínseca – editora, aliás, que publicou um livro meu justamente sobre um dos brasileiros que inovaram, Michel (Mike) Krieger, fundador da rede social Instagram. Ele não é exceção, como podem pensar alguns. É muito comum se deparar com nossos conterrâneos no Vale do Silício e em universidades de ponta. Teve, por exemplo, Eduardo Saverin, um dos criadores do Facebook. Ou Rico Malvar, cientista-chefe da Microsoft, casa também do curitibano Alex Kipman, inventor do Kinect, popular – e disruptivo – aparelho de detecção de movimento e voz. A lista se estende. Um bom exemplo atual, de um nascente inovador brasileiro, é o designer paulista Pedro Oliveira, de 30 anos. O resultado de sua tese de mestrado na New York University se trata de um pioneiro trabalho sobre o uso de novas tecnologias, como wearables (os aparelhos “vestíveis”, a exemplo de relógios e óculos computadorizados), em meio a protestos de rua.

“Novas tecnologias, como redes sociais, mudaram totalmente como nos manifestamos”, disse-me Oliveira. “Agora é possível ganhar visibilidade com um protesto, como foi com a Primavera Árabe, mesmo quando o governo, e as formas tradicionais de mídia, estão controladas ou censuradas”, completa. O designer estudou casos de turbas que se movimentaram em Hong Kong, nos Estados Unidos (como no caso do movimento Occupy Wall Street, contra a desigualdade social), no Oriente Médio, no Brasil. “A ideia não é me posicionar de um lado, ou de outro, da discussão. Mas, sim, levantar a questão de qual pode ser o papel das inovações nesses contextos”, completou Oliveira.

Por exemplo, motivado pela situação de ativistas iranianos que foram presos por terem concedido entrevistas a jornalistas ocidentais durante as duvidosas eleições de 2009 do país, ele criou uma smart bandana. Trata-se de um tecido no qual mensagens podem ser criptografadas para serem lidas por aparelhos específicos, como smartphones dotados do aplicativo apropriado. Seria uma alternativa para passar informações em meio a uma manifestação, sem chamar atenção de autoridades repressoras.

Outra de suas ideias é uma pulseira capaz de criar uma rede local de conexão entre outros dispositivos, independente de sistemas de 3G ou wifi. Com isso, o manifestante pode se comunicar e enviar mensagens de alerta a colegas, mesmo quando formas tradicionais de comunicação, como redes sociais, são impedidas de funcionar. E o aparelho sai barato, cerca de 5 dólares, segundo Oliveira.

No site do projeto (confira aqui), em inglês, consegue-se ver todos os frutos da pesquisa do brasileiro. “Nos meus estudos, percebi que se falava muito do uso de tecnologias avançadas pelo lado repressor, como por policiais e militares chineses ou do Oriente Médio. Contudo, pouco se discutia como quem protesta pode responder a essas inovações”, afirma o designer. Agora, ele planeja contatar movimentos conhecidos de protesto para tentar tornar práticas suas ideias.

Pedro Oliveira é um bom exemplo. Entretanto, ao mesmo tempo é um exemplo que deixa ainda mais exposta uma clara fragilidade brasileira. É reclamação comum entre esses inovadores de que faltou a eles oportunidade, como apoio financeiro e centros capacitados de pesquisa, para trabalharem no Brasil. Por isso, se veem compelidos a sair do país para poderem se desenvolver. Um cenário cada vez mais agravado em consequência da atual crise econômica e política pela qual passa o país.

Em outras palavras, é errado dizer que brasileiro não é criativo, nem empreende. Só que se prova correto afirmar que falta o mesmo espírito inovador para o Brasil, que não acolhe adequadamente os mais inovadores.

Para acompanhar este blog, siga VEJA no Twitter e no Facebook.

Também compartilharei as atualizações pelo meu Twitter: @FilipeVilicic.

Comentários
Deixe um comentário

Olá, ( log out )

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

  1. Comentado por:

    marcos

    Hum, ativistas fashion. Tenho certeza de que os aparatos de comunicação serão utilizados por terroristas fashion também.

    Curtir

  2. Comentado por:

    Fernando

    Filipe, se o Brasil não os acolhe, então, na média, o Brasil inova pouco. Trata-se de exceções. É claro que num país de 200 milhões de pessoas e não inteiramente miserável, vai sair coisa boa. É estatisticamente impossível. Entretanto, no centro da curva, somos medíocres.

    Curtir