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Ministérios de Bolsonaro: estão mais para 1984, não 1964

A formulação das pastas bolsonaristas parece inspirada na famosa distopia de George Orwell

Há uma comparação superficialíssima do governo Bolsonaro com o do regime militar que se instituiu a partir do golpe de 1964. Esse paralelismo não se concretiza na prática. Os militares de 64 eram nacionalistas e promoviam a repressão violenta para a contenção de ideologias que nos tempos de Guerra Fria dividiam o planeta. Mas eles não atuavam – ao menos às claras – de forma eugenista, em privilégio de um tipo de ser humano, o “bem nascido” (como o branco, de elite, homem), contra tudo que fosse diferente desse mesmo tipo. É nesse aspecto que o governo Bolsonaro em muito se distancia do de 1964.

Desta vez, o cunho da nova presidência é, como bem definiu análise do biólogo e médico Siddhartha Mukherjee (autor, dentre outros, do best-seller “O Gene”, que em muito aborda fenômenos tenebrosos como o nazismo), eugenista. Em reflexo também de uma nova onda da sociedade brasileira, assim certa vez desenhada por Ney Matogrosso: “O Brasil está mais careta hoje do que era”.

Por efeito desse tocante, os ministérios bolsonaristas também não lembram os de 1964. Para entendê-los, proponho recorrer à ficção. No caso, à obra-prima “1984“, de George Orwell (abordada neste espaço em situações anteriores).

“1984” foi o livro que originou o termo Big Brother (o Grande Irmão). Na novela, o Grande Irmão seria o líder supremo de uma Inglaterra dominada por uma versão do socialismo deveras parecida com a linhagem política exibida por bolsonaristas. A organização da sociedade totalitária, dividida em castas, se dá em quatro ministérios. A sacada do Grande Irmão foi chamar as pastas exatamente do oposto daquilo que elas realmente fazem.

Assim, o Ministério da Verdade é incumbido de apagar registros históricos com o intuito de reescrever notícias, eventos etc., da forma que lhe convém, apelando à ficção. Algo como Bolsonaro e seus ministros querem realizar com o regime militar – para eles, não existiu – ou com fatos históricos como o período escravocrata brasileiro – sobre o qual Jair Bolsonaro teve o disparate de afirmar, sem nenhuma evidência (talvez ele formule alguma num futuro Ministério da Verdade, né?), “O português nem pisava na África. Foram os próprios negros que entregavam os escravos”.

Já o Ministério da Fartura de “1984” se encarrega de fingir que existe riqueza para todos, enquanto na real apenas 2% da população se beneficia do sistema de castas – enquanto a prole (a grande maioria) passa fome. Há ainda o Ministério do Amor, sob o qual se promovem prisões, torturas e execuções de opositores – aí lembra Bolsonaro ameaçando rivais de cadeia, exílio ou fuzilamento. Por fim, acrescenta-se o Ministério da Paz. Adivinhe o que esse faz? Guerra, é claro.

Os ministérios bolsonaristas – assim como as atitudes do próprio Bolsonaro – parecem saídos diretamente de “1984”.

Na pasta de Direitos Humanos, colocou-se uma senhora que quer privilegiar um único tipo de ser humano, o hétero e “terrivelmente cristão” (como ela própria se define), que aceita sua imposição simbólica de “menino veste azul, menina veste rosa”. Como ela diz, os “príncipes” e “princesas”, no que ainda dá a devida conotação elitista ao público-alvo das falas da ministra.

Já para a Casa Civil, responsável pela articulação política, escalou-se um indivíduo envolvido em diversos casos de corrupção e que, em vez de promover articulação, expulsa / exonera quem não concorda com ele. O superministério da Economia coube a um nome que por enquanto tem apresentado apenas soluções que beneficiam os mais ricos da sociedade – e nada fala em formas de reduzir a desigualdade econômica que assola o país. Nas Relações Exteriores, um homem nada diplomata, pelo contrário, dotado de um perfil tipicamente inquisidor temido por qualquer diplomata de fato.

O viés “1984” se torna ainda mais transparente em algumas das outras pastas. Em Educação, um apoiador do obscurantismo nas escolas – e não seria de se espantar que em alguns anos se tentasse proibir o ensino darwinista, em favor do criacionismo, por exemplo. No ministério no qual foi despejada a Cultura, um indivíduo que admite que, de cultura, só sabe “tocar berimbau”. No Meio Ambiente, um ruralista, condenado por crime ambiental e temido por… ambientalistas.

Precisa desenhar ainda mais? Na era Bolsonaro, como na distopia orwelliana amada pelos fãs de ficção científica, a vários dos ministérios compete realizar o extremo oposto daquilo que deveria lhes caber.

Resta ver se bolsonaristas, talvez motivados pelas conversas estranhas com representantes estadunidenses – e que em muito ecoam a célebre frase “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”, by Juracy Magalhães –, também não acabarão por criar um Ministério da Paz, ou então um do Amor.

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