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Assustador: novos programas do Google escrevem e-mails e fazem ligações

As inovações exibidas no evento Google I/O indicam que podemos estar próximos de sermos substituídos, em quase tudo, pelas máquinas. O que restará para nós?

Tem sido estupendo o avanço das tecnologias de inteligência artificial (IA). Algumas inovações do gênero deixaram de custar milhões de dólares, pertencendo apenas à realidade de universidades e instituições governamentais, para sair por algumas centenas de reais e ganhar a rotina das pessoas. Assim surgiram assistentes virtuais, como a Siri (iPhone), ou os carros autônomos, ou os bots que dispensam humanos de tarefas repetitivas de trabalhos como o de telemarketing, e os algoritmos que organizam da timeline do Facebook às buscas no Google.

Alguns robôs já são tão familiares que, de forma sútil, quase sem serem notados, começaram a conviver conosco como mais uns seres vivos inteligentes neste planeta. Como debati em um vídeo recente do programa semanal A Origem dos Bytes, a IA pode livrar as pessoas de funções enfadonhas, que exigem dos braços, não do cérebro. Porém, começa a ficar perigoso quando deixamos que ela nos substitua em coisas que, em teoria, deveriam caber apenas a seres humanos.

Duas novidades do Google acendem o sinal de alerta. Já virou rotineiro a IA nos auxiliar a achar a palavra ideal, ou nos corrigir na gramática, quando escrevemos no WhatsApp – isso mesmo que ela erre muito; difícil entender como o iPhone não consegue diferenciar quando se usa um “é” (com acento) e não um “e”. Contudo, o Google foi além.

Ele apresentou nesta semana, em seu evento anual Google I/O, no qual lança suas principais novidades do ano, uma ferramenta que pretende escrever e-mails para você. Já viu o filme Ela, ou Her, no inglês (como ficou mais conhecido)? Aquele em que Joaquin Phoenix se apaixona por uma IA que não passa de uma voz em seu celular. O Google tem transformado seu Assistente (o similar da Siri) nessa voz apaixonante. Sem, ao que parece, se preocupar tanto com as consequências negativas tão exploradas no brilhante filme de Spike Jonze.

Agora, a IA poderá escrever praticamente um e-mail inteiro para você. A ideia é que, ao entrar no Gmail, ela já te diga algo como: “pelo o que captei do seu comportamento atual, acho que quer mandar um e-mail para sua melhor amiga, para contar de um garoto com quem saiu ontem; isso mesmo?”. Aí você pode dizer “sim”. No que abre uma mensagem direcionada ao e-mail da melhor amiga.

Aí talvez, como é em Her, a assistente virtual já te sugira começar o e-mail com um “Oi, fulana, como vai você e sua filha?” (a IA sabe, ao rastrear outros e-mails, que a amiga tem uma filha e faz tempo que sua dona não perguntava da mesma). No que pode ser que a IA depois redija toda a mensagem sozinha, contando como foi frustrante o date de um dia antes (o robô sabe disso por ter acompanhado cada detalhe pela câmera do celular). Algo nessa linha.

Por enquanto, claro, a novidade do Google ainda tá no nível mais básico desse cenário. Mas ficou óbvio qual é a meta-final da empresa.

Por outro lado, no mesmo evento o Google exibiu algumas novidades que indicam o bom uso da IA. Como a ferramenta que organiza milhares de fotos jogadas na nuvem. Isso não precisava mesmo ser executado por uma pessoa.

Assim como uma inovação que ainda tá meio que em cima do muro nesse balanço de “faz bem ou mal ao nosso espírito humano?” (tende ao segundo). Seria um aprimoramento do Assistente que possibilitaria que ele fizesse ligações telefônicas (ou áudios de WhatsApp) no lugar de seu dono. De início, a ideia é que seja usado para coisas bem mecanizadas, como marcar uma hora no cabeleireiro (confira como funciona nesse vídeo do site americano CNET; é assustador). Até aí, ok.

Só que e quando esse mesmo sistema passar a ser utilizado, sei lá, para dar uns conselhos para um amigo que tomou um pé na bunda? Ou para dispensar um pai (ou mãe) de ajudar o filho nos estudos? Ou mesmo como forma fácil de terminar o relacionamento com um parceiro amoroso com quem se está faz anos?

O mundo de Her parece cada vez mais próximo. E O Google é um dos que puxa esse bonde. Além das inovações acima, já apresentou, por exemplo, uma IA que pinta quadros, como hábeis artistas – mas ainda não consegue criar uma escola de pintura do zero… ufa.

Por que isso é tão aterrorizante?

Será que os desenvolvedores do Google sabem de fato o que é se relacionar com outras pessoas, não robôs? Seriam eles hábeis na arte da conquista (ao vivo, não pelo Tinder) para conseguir construir algo como uma assistente nos moldes da voz de Scarlett Johansson em Her? Ou seria o total oposto disso? As evidências indicam que o povo que faz essas inovações do Google entende muito bem de robôs, mas pouquíssimo de seres humanos.

Já há estudos de como a presença abusiva desses assistentes virtuais pode levar pessoas a terem memórias menos capazes (bastaria dar um google em busca de algo), relacionamentos reais piores, redução nas habilidades cognitivas e emotivas etc. Se muitos (a maioria?) realmente acharem que é uma boa ideia passar para os robôs funções como a da arte, da escrita, da comunicação, de tocar relacionamentos amorosos para frente, de escrever um e-mail para um melhor amigo ou de fazer uma ligação para a mãe… a questão que ficará é “O que sobra para os humanos?”.

Talvez, e só talvez, sobre jogar videogame. Ou, quem sabe, fazer sexo (se esse também não virar virtual) com alguém depois que uma IA já definiu que ambos os envolvidos combinam, teriam interesses parecidos e poderiam casar… nem precisa ir pro bar conversar, o robô já ditou tudo!

Acabaríamos assim em um conto de Philip K. Dick. Reféns da máquina e sem nem mesmo saber como reagir a ela. Estaríamos fadados a fincar a bunda no sofá, coordenados por IAs para servi-las como elas querem que sejam servidas? Tenho esperança de que nós, humanos, possamos ser mais que isso. E que insistiremos em escrever nossos próprios e-mails para nossos chefes, amigos, filhos, mães etc.

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