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‘Molière’, ‘Love, Love, Love’ e a geração bocó de gadgets e redes sociais

Duas peças teatrais levam à reflexão: estariam os jovens de hoje fadados a apenas espernear no Facebook; ou destinados a fazer algo maior no mundo real?

Duas peças em cartaz em São Paulo levam a pensar sobre as últimas duas gerações, a qual pertenço, que cresceram ou crescem já em um mundo ultraconectado pela internet e pelas redes sociais. Uma fala de um tempo antigo, na França, mas cujo cenário parece assustadoramente atual. Já a outra exibe a saga de uma família em três momentos: em 1967, nos anos 90 e finalmente nos dias de hoje.

Reflita sobre o mundo atual pela ótica das duas produções:

‘Molière’

A história mostra a disputa entre o ás da comédia francesa Molière (1622-1673) e o dramaturgo trágico Jean Racine (1639-1699) pela preferência do rei Luís XIV (1638-1715) e, logo, do público. Assemelha-se aqui em muito a um conflito que ocorre na internet desde os idos da década de 1980. Seria essa estupenda tecnologia um artifício para instigar risos na plateia ou uma ferramenta seríssima que viraria tema de poesias de Racine?

Na peça, de texto primoroso (tirando um ou outro acréscimo de piadas dispensáveis no estilo antigo de Zorra Total, em especial algumas saídas da boca de Luís XIV), o Molière de Matheus Nachtergaele (um desbunde no papel) defende o valor das gargalhadas. Provavelmente ele hoje se divertiria no YouTube com Anões em Chamas, Porta dos Fundos, Kéfera e tais. Já Racine condenaria essas “bobagens” e provavelmente só veria valor em algo cult como o podcast Serial (se não conhece, vale dar um Google).

Enquanto os dois lados se digladiam — como há batalhas entre “hahahas” e “emoticons tristes e chorosos” associados a correntes do tipo “quantas curtidas merece essa iniciativa seríssima” no Facebook — surge, na surdina, um terceiro agente: o arcebispo de Paris, Monsenhor Péréfixe (na pele, o incrível Renato Borghi). Ele instiga a polarização entre os rivais com o intuito de impulsionar o império de Luís XIV a ir para a guerra. Sua meta, contudo, se revela ainda mais assombrosa: acabar com toda forma de arte para que o povo se concentre em ambiciosas metas bélicas.

Quem é Luís XIV na internet? Os que disseminam ódio pelo Twitter, os radicais lulistas ou bolsonaristas, os criminosos da bizarra onda de white power que tem tomado redes sociais, todos aqueles que querer instituir a batalha campal e assim abafar tudo de melhor que a internet teria a oferecer.

No teatro, o desfecho é lindíssimo, de chorar e rir ao mesmo tempo, culminando num diálogo de tirar o fôlego entre a comédia do mestre Molière com o dramalhão do pupilo Racine. Ambos, no fim da vida, unidos para fazer com que o fanático arcebispo parisiense desaparecesse da História (com “H”). Séculos depois, certamente muitos lembram de Molière e Racine. Eles transformaram a humanidade. Já Péréfixe…

Pergunto-me: como será com esta era das redes sociais, da internet, dos smartphones? Serão seus criadores recordados como artistas responsáveis por desenhar um novo tipo de civilização, frutífera, pacífica, divertida e, quando preciso for, trágica? Ou entrarão para a História como construtores do caos, de vícios modernos e da disseminação em escala global do ódio extremo?

‘Love, Love, Love’

Já a montagem do texto do inglês Mike Bartlett é mais direta, exige menor empenho interpretativo. Começa nos anos 60, com o encontro de uma feminista, “sou mulher” (…não menina, esclareceria à filha adulta com ambições de adolescente, nos dias de hoje), culta, inteligente, articulada, forte, com seu amado, este um hippie de ares poéticos e libertários. Frutos de uma geração que batalhou nas ruas, conquistou direitos, se rebelou contra dinossauros conservadores e assim criou um novo mundo.

Um novo mundo oferecido de bandeja a seus filhos, agora num pulo para a década de 1990. Rebentos, uma menina e um menino, que teriam a chance de se apoiar no conquistado pelos pais (inclusive, na fortuna que ambos construíram) para voar ainda mais alto.

Só que aí a história chega a hoje, a era dos millennials. O que viraram os filhos? Dois derrotados que, na verdade, nem tentaram chegar a lugar algum. Típicos exemplos ruins de uma geração que fala muito (MUITO) no Facebook, no Twitter, no Instagram, no WhatsApp. Que se revolta em posts e fotinhas com cartazes de “respeite seja lá qual for o movimento de modinha do momento”. Mas que, na prática, não sai do celular para se rebelar de fato, para tomar as ruas, para construir e remodelar seu mundo — do qual tanto se queixam.

No fim, acabam no Linkedin, procurando empregos para os quais não se empenharam em conquistar. E quando esses losers entendem que as horas gastas GRITANDO no Facebook de nada adiantaram para comprar uma casa, ou criar seus filhos, ou atingir o ápice na carreira com a qual sonharam ou… enfim, ou virar um ser humano ilustre como foram seus pais… o que fazem? Culpam os pais exploradores e conquistadores pelas próprias derrotas.

Não só culpam. Voltam para o guarda-chuva paterno/materno clamando por salvação.

A alusão às novas tecnologias é óbvia em Love, Love, Love. Em dado momento, o filho do casal hippie dos anos 80 se revela um bocó hipnotizado por um joguinho qualquer (Candy Crush?) em seu smartphone. Absorto num universo paralelo em que embarca ao colocar os fones de ouvido. Na vida real, contudo, não passa de um mané que nada aproveitou ou construiu.

Pergunto-me: será que os jovens de hoje serão lembrados como exemplos de uma geração de losers que não saem do iPhone, tremem e suam se não verificam uma notificação do Snapchat e só conseguem conquistar alguém via Tinder? E que talvez crie uma nova era no qual o que haverá de mais emocionante será visto em realidades virtuais.

Ou esses mesmos jovens conseguirão usar as novas ferramentas do século XXI mais a favor de suas conquistas e menos como um ópio para largar tudo para trás? Assim poderão surgir grandes artistas (quiçá, no YouTube), empreendedores, negociantes que levem para o mundo real os anseios tão debatidos no Twitter.

Molière está em cartaz no Teatro do Sesi-SP. Love, Love, Love no Teatro Vivo. A esperança é que obras críticas como essas (e que surgem aos montes também no cinema, em livros e no Netflix) levem esta geração a uma profunda reflexão sobre se ela quer se ater ao virtual ou se terá força também para deixar sua marca no que há de real e tangível.

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