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Nada é para sempre

Recursos como o Stories, do Instagram, reproduzem a vida como ela é — deixando para trás o que pertence ao passado

Por Mike Krieger* - 21 set 2018, 07h00

Em abril, minha irmã e eu estávamos com nossos pais. Foi ótimo. Relembramos nossa infância e dividimos planos para o futuro, mas a melhor parte veio logo antes de nos despedirmos, como fazemos todos os anos desde que éramos crianças. Cantamos Parabéns a Você para minha mãe. Naquele momento, vendo minha mãe sorrir enquanto batíamos palmas e cantávamos, fomos transportados de volta para São Paulo, sentados em torno da mesa da cozinha.

Mas não era o caso. Na verdade, minha irmã e eu estávamos em uma videoconferência lá da Califórnia, a mais de 10 000 quilômetros de distância dos nossos pais no Brasil, separados pela linha do Equador, por meia dúzia de países e um pouco de oceano. E ainda assim, de alguma maneira, durante aquela conversa de não mais que trinta minutos, estávamos todos juntos.

Inovação é comumente associada a algo nunca visto ou feito antes, e, em busca dela, muitos enxergam na criação de caminhos que permitam escapar da realidade cotidiana uma oportunidade de chegar lá, seja por novos aparelhos, experiências ou aplicativos. Porém, em sua melhor forma, a tecnologia não precisa ser uma distração do mundo real, mas uma força capaz de torná-lo ainda melhor. Acredito que, no futuro, as empresas mais inovadoras serão aquelas capazes de aplicar a tecnologia para aprimorar as coisas simples do dia a dia e, ao mesmo tempo, nos aproximar do que nos importa e amamos.

Com isso em mente, se eu pudesse dar um simples conselho a aspirantes ao empreendedorismo tecnológico, diria o seguinte: identifique uma experiência off-line entre duas ou mais pessoas — uma experiência importante como cantar Parabéns a Você para sua mãe — e encontre uma maneira de não apenas replicá-la, mas torná-la melhor, mais simples ou possível ao transportá-la para o universo on-line.

Seria preciso criar algo, nas redes, que espelhasse a fluidez da vida

Está claro que no início da internet houve uma corrida para trazer o off-line para o on-line. Hoje, tudo, simplesmente tudo, é possível a qualquer momento e em qualquer lugar com um só clique, ou melhor, com um toque na tela do celular — desde encontrar amigos, contratar pessoas, comprar roupas até falar com a família. Em alguns casos, contudo, tenho a impressão de que a parte da experiência off-line que mais nos importa parece ter se perdido na tradução.

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Um ótimo exemplo é a efemeridade. Muito do que torna nossos relacionamentos pessoais especiais e singulares é o conjunto de momentos específicos, espontâneos e que, conforme diz o senso comum, passam — e é bom que passem. O esquecimento é saudável. Sejamos honestos: aquela escolha de penteado infeliz nos anos 90, aquela noite em que você se sentiu inspirado no karaokê e cantou como nunca. Foram momentos divertidos, inesquecíveis, de guardar no coração. Mas não precisam perdurar para todo o sempre. Seria preciso criar algo, nas redes sociais, que espelhasse a fluidez da vida.

O formato conhecido hoje como Stories, do Instagram, é assim. Ele permite que os usuários publiquem por um período finito fotos, vídeos e mensagens, que desaparecem automaticamente depois de um tempo determinado. É um sucesso porque possibilita que as pessoas se comuniquem sem a pressão da permanência e, impulsionadas pela efemeridade, tenham as ferramentas necessárias para interagir umas com as outras da mesma forma que fariam na vida real. Afinal, não é exatamente assim que a nossa memória funciona? Algumas coisas ficam, enquanto outras caem na beleza do esquecimento.

* O paulistano Michel “Mike” Krieger, radicado nos Estados Unidos, é cofundador do Instagram

Leia mais: A MEMÓRIA

Publicado em VEJA de 26 de setembro de 2018, edição nº 2601 

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