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#46 A MORTE: Quase eternos

O caminho que nos levará a vencer o tempo está traçado, e tudo indica que viveremos cada vez mais. Resta saber se valerá a pena tanta longevidade

Por Natalia Cuminale - 21 Sep 2018, 07h00
ESSE BEBÊ FARÁ 1 000 anos? – Para o biólogo inglês Aubrey de Grey, o ser humano que terá idade milenar já nasceu David Pinkerton/Getty Images

Ao longo dos milênios, a morte teve várias vidas. Já foi espetáculo público e recato privado. Já se morreu em casa, com o cadáver exposto no centro da sala, e hoje se morre no hospital, com cerimônias de caixão fechado. Morreu-se de modos muito distintos, mas nada nos preparou para a experiência da francesa Jeanne Louise Calment — que simplesmente não morria nunca. Foi a mulher mais longeva da história da humanidade. Viveu por 122 anos e 164 dias. Nasceu em 1875. Faleceu em 1997. O tempo lhe permitiu testemunhar, entre a adolescência e a vida adulta, as obras de construção da Torre Eiffel e as duas guerras mundiais. Jeanne Louise fumou a vida inteira — deixou o hábito apenas aos 117 anos, e somente porque tinha dificuldade de levar o cigarro até a boca, com a visão quase perdida, em decorrência de catarata. Era ma­gra, mas nunca se preocupou com a alimentação, bastava que a comida e o vinho fossem bons.

Jeanne Louise representou uma das maiores incógnitas para a moderna medicina. Como viver mais e melhor, considerando-se que ela chegou razoavelmente bem ao fim de seus dias? Até pouco tempo atrás não existia consenso científico de que seria possível encontrar caminhos para frear os efeitos do tempo. No máximo se admitiam as possibilidades de melhorar a qualidade de vida dos idosos. Em 1973, tornou-se popular um dos primeiros produtos comercializados como elixir da juventude — um multivitamínico sintetizado pela geriatra romena Ana Aslan (1897-1988). Dava-se como certo que o argentino Juan Domingo Perón havia acabado de viajar à Romênia para testar o método. O que ele buscava, segundo noticiou a imprensa, a sério, era “experimentar, entre outros sintomas, um desejo de viver e trabalhar, maior poder de concentração, de visão e melhoria da memória”. Soa risível, nos dias de hoje, uma “bala de prata” como a que se oferecia a Perón. Mas não está errado dizer que o caminho que nos fará vencer a velhice já está sendo trilhado.

A longevidade está associada a uma sinfonia de recursos científicos. O desenvolvimento de vacinas capazes de prevenir doenças infecciosas teve um impacto extraordinário no prolongamento da vida. A ocorrência das enfermidades diminuiu, restringindo, portanto, a circulação de vírus entre nós. Surgiram os antibióticos, as melhorias nas condições sanitárias e de alimentação. O impacto na expectativa de vida foi brutal.

Na Renascença, vida longa, mas longa mesmo, era chegar aos 30 anos. No século XIX, chegar aos 35 anos era incomum. Um século e meio depois, a expectativa de vida dobrou: hoje é de 72 anos. Aqui não é diferente. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad) mostram que o número de idosos no Brasil, a partir de 60 anos, acaba de superar a marca de 30 milhões de pessoas. O país será o sexto no mundo com maior número de pessoas da terceira idade até 2025. Cinco décadas atrás, o brasileiro vivia, em média, até os 57,6 anos. Para 2060, projeta-se que chegará aos 81,2 anos. Nos EUA saltará de 68,7 anos para 85. Há no mundo pelo menos 500 000 pessoas com mais de 100 anos — contingente que deve dobrar na próxima década. E, surpresa, o biólogo inglês Aubrey de Grey acredita já ter nascido o humano que chegará aos 1 000 anos. Sim, 1 000.

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A busca da longevidade está no DNA humano. A medicina trabalha para desvendar o relógio biológico, processo que torna a vida finita. O que significa compreender a programação genética do ciclo celular. As células têm um tempo de vida. Conforme envelhecemos, perdemos a capacidade de controlar como nossos genes são regulados. A senescência, ou envelhecimento biológico, refere-se à deterioração geral das funções fisiológicas, que leva ao aumento da suscetibilidade a doenças e, por fim, à morte.

A BUSCA PELA PERMANÊNCIA – Fonte da Juventude, tela atribuída ao italiano Giacomo Jaquerio (1375-1453) Castello Della Manta/FAI/.

Recentemente, pesquisadores do Instituto de Biologia Evolutiva, da Universidade Pompeu Fabra, na Espanha, identificaram um novo método que tornou possível detectar 25 mutações localizadas em genes associados à cicatrização de feridas e coagulação sanguínea. Os resultados serão a base para desenvolver alvos terapêuticos certeiros para o tratamento de doenças relacionadas à idade. Em um futuro um pouco mais distante, a terapia genética permitirá barrar a passagem do tempo substituindo as células naturalmente velhas por jovens. Em junho de 2011, De Grey disse a VEJA: “É patético ver o envelhecimento como natural. Não há nada de bom em ficar velho, e é preciso usar as armas ao nosso dispor para combater a senilidade”.

Uma frente paralela ao estudo dos genes é o uso da nanotecnologia na medicina. Microscópicos, os nanorrobôs ou as nanopartículas possibilitarão intervenções diretas no corpo humano. Em novembro de 2017, a agência americana de registro e controle de medicamentos, a FDA, aprovou o primeiro comprimido com chip capaz de informar aos médicos se e quando o paciente tomou a medicação. A tecnologia permitirá que a medicina aja antes mesmo de uma doença aparecer. “Ao adotarmos estratégias de prevenção e controle das doenças crônicas antes de elas se complicarem, viveremos mais e melhor”, diz Wilson Jacob Filho, geriatra e professor titular da disciplina na Universidade de São Paulo.

Mas valerá mesmo a pena viver tanto, sejam os 122 anos de Jeanne Louise, sejam os 1 000 anos de que fala Aubrey de Grey? Diz o geneticista Salmo Raskin: “Se me perguntassem qual seria um limite razoável há cinquenta anos, eu diria que chegar aos 70 anos estaria excelente. Hoje já passou dos 120”.

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Que chegaremos lá com dignidade e qualidade, ainda não pode ser tratado como certeza absoluta. Não terá graça alguma — na verdade, seria um estorvo — envelhecer como os struldbrugs, personagens com o dom da imortalidade criados em 1726 pelo irlandês Jonathan Swift no clássico da literatura As Viagens de Gulliver. Pessoas minúsculas, de 15 centímetros de altura, e pertencentes ao reino de Luggnagg, elas foram isoladas aos 80 anos de idade em um lugar chamado “hospital dos imortais pobres”. São imortais biológicos, mas já morreram para a vida civil e para o convívio social. Um struldbrug é o avesso do que a medicina do metabolismo humano está conquistando em um ritmo cada vez mais intenso.

Publicado em VEJA de 26 de setembro de 2018, edição nº 2601

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