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#14 O AMBIENTALISMO: A ideologia verde

A preocupação cada vez maior com as mudanças climáticas terá o dom de evitar que o mundo caia na armadilha do nacionalismo

Por Leandro Nomura - 21 Sep 2018, 07h00
MANCHA – Fotos como esta, de vítimas do mercúrio de Minamata, no Japão (1973), mexeram com as consciências Ichikawa Takeshi/.

A humanidade vive de sustos, e de choque em choque avançamos a caminho da civilização. Em poucas áreas do conhecimento houve tantos saltos movidos a espanto, nos últimos cinquenta anos, quanto no campo das ideias que alimentaram o ambientalismo — movimento que nasceu como um sopro, cresceu como vendaval e virou ideologia. Tudo começou com um livro — A Primavera Silenciosa, de Rachel Carson, misto de reportagem investigativa e manifesto político, de 1962 — que escancarou o uso de pesticidas na agricultura, atalho para o envenenamento de aves. As 328 páginas de Rachel foram a faísca inaugural de tudo o que viria a seguir. “Poucas vezes um livro alterou tanto o curso da história”, segundo avaliação do senador americano democrata Ernest Gruening, falecido em 1974.

Depois dele brotaram os desastres que, como manchas indeléveis, construíram uma nova consciência: o mercúrio na Baía de Minamata, no Japão, revelado algum tempo depois do evento, em 1971, por uma série de fotografias; o vazamento químico de Bhopal, na Índia, em 1984; o acidente nuclear de Chernobil, em 1986; e o óleo derramado do Exxon Valdez, à margem do Alasca, em 1989. A lista é longa.

Não há candidatura a qualquer coisa, hoje em dia, nem mesmo a síndico de prédio, que possa abrir mão das preocupações com o meio ambiente. Já não existe mais espaço para comportamento negligente, dada a avalanche de estatísticas reunidas. De acordo com o mais recente relatório do IPCC (sigla em inglês para Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), de 2014, o uso exagerado de combustíveis fósseis contribuiu para que a temperatura média global subisse 0,85 grau entre 1880 e 2012. Se a elevação de menos de um grau provocou intensificação de furacões e derretimento expressivo de calotas polares, imagine-se o que poderia ocorrer com um calor ainda mais intenso. “A última vez que a Terra estava 2 graus mais quente foi há cerca de 115 000 anos, e o nível do mar encontrava-se então entre 4 e 6 metros mais alto”, diz o americano Thomas Lovejoy, professor da Universidade George Mason (EUA).

São dados incontestáveis, e mesmo os mais céticos não podem jogá-los para debaixo do tapete. O estatístico dinamarquês Bjorn Lomborg, o mais prestigiado entre os cientistas céticos com relação ao aquecimento global, diz não existir dúvida de que a emissão de CO2 é a principal responsável pelo aumento da temperatura. Todavia, ele não acredita que o Acordo de Paris (assinado em 2015 e destinado a limitar a emissão dos gases que provocam o efeito estufa, de modo a restringir o aquecimento global a, no máximo, 2 graus até 2100) seja a melhor forma de combater o problema.

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Lomborg sustenta que, caso todos os países cumpram tudo o que foi acertado na capital francesa há três anos, o impacto na redução do PIB mundial chegaria a 1,5 trilhão de dólares por ano em 2030, já que a economia do planeta cresceria menos e a energia usada seria mais cara. Por outro lado, os ganhos com a queda do chamado “custo social do carbono”, que é o preço dos danos causados por tonelada de CO2 liberada na atmosfera, seriam mínimos. “Cada dólar gasto no Acordo de Paris produzirá 3,5 centavos de dólar em benefícios climáticos”, calcula Lomborg. A solução alter­nativa? “Investir 100 bilhões de dólares anuais, seis vezes mais do que agora, em pesquisas de desenvolvimento de fontes de energia renováveis”, diz ele. Dessa forma, cada dólar gasto daria 11 centavos de retorno.

É uma equação complicada, uma conta que não fecha. Mas ao menos o futuro do ambientalismo carrega uma promessa: é a melhor ferramenta que existe para manter vivo o globalismo, no avesso do nacionalismo que fecha fronteiras. Diz Yuval Noah Harari em seu livro recém-lançado, 21 Lições para o Século 21: “Sempre que considerações ambientais de longo prazo exigem algum sacrifício, nacionalistas podem ser tentados a pôr interesses nacionais em primeiro plano. Não é coincidência que o ceticismo quanto à mudança climática tende a ser exclusivo da direita nacionalista. Raramente veem-se socialistas ou a esquerda proclamar que a mudança climática é um embuste chinês”.

Publicado em VEJA de 26 de setembro de 2018, edição nº 2601

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