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Editora Abril

27/05/2013

às 17:14 \ Política & Cia

ROBERTO CIVITA (1936 – 2013), em entrevista em vídeo: um pouco da história de VEJA segundo o seu criador

Em 2007, às vésperas do aniversário de 40 anos de VEJA, Roberto Civita, em entrevista em vídeo, falou da missão editorial da revista e dos bastidores de capas e reportagens históricas. Confiram.

 

A PRIMEIRA CAPA DE VEJA

 

O CONFRONTO COM A DITADURA

 

UM ARTIGO NA CAPA DE VEJA

 

A CHANTAGEM DO AMIGO DE COLLOR

 

A COBERTURA DO CASO COLLOR

 

O PODER E A IMPOTÊNCIA DA IMPRENSA

 

A MORTE DE VICTOR CIVITA 

 

LEIAM TAMBÉM:

MORRE ROBERTO CIVITA, O CRIADOR DE “VEJA”

ROBERTO CIVITA: “Quanto mais independente do governo, maior será a contribuição da imprensa”

26/05/2013

às 23:34 \ Política & Cia

MORRE ROBERTO CIVITA, O CRIADOR DE “VEJA”

Ele dedicou 55 de seus 76 anos à paixão de editar revistas, nunca se afastou do compromisso com o leitor e com o Brasil e fez da Abril um dos maiores grupos de comunicação da América Latina

Roberto Civita durante a entrega do prêmioJovens Inspiradores de 2012 (Foto: Ivan Pacheco)

Do site de VEJA

Roberto Civita, diretor editorial e presidente do Conselho de Administração do Grupo Abril, morreu neste domingo, às 21h41, no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, devido à falência de múltiplos órgãos, depois de três meses internado para a correção de um aneurisma abdominal.

Civita deixa a mulher Maria Antonia, os filhos do primeiro casamento Giancarlo, Roberta e Victor, além de seis netos e enteados. O velório acontece nesta segunda-feira, 27 de maio, a partir das 11h, no Crematório Horto da Paz, em Itapecerica da Serra, São Paulo.

Memória

“Gosto de ser editor e o que eu sei fazer é revista”, dizia Roberto Civita. Mesmo depois de 1990, quando a morte de Victor Civita o levou a assumir o comando da Abril e chefiar o processo de diversificação do grupo fundado pelo pai, ele nunca se afastou da atividade que o seduziu definitivamente na década de 60, quando começou a por em prática os conhecimentos assimilados anos antes, na sua segunda temporada nos Estados Unidos.

Nascido em Milão, Roberto Civita morou em Nova York de 1939 a 1949, quando veio para São Paulo. O bom desempenho no Colégio Graded garantiu-lhe uma bolsa de estudos nos EUA, onde percorreu, ao longo da década de 50, caminhos que o levariam à descoberta da vocação profissional e à volta definitiva ao Brasil.

Depois de interromper o curso de Física Nuclear na Universidade Rice, no Texas, para diplomar-se em jornalismo e economia na Universidade da Pensilvânia, Roberto Civita realizou um estágio na editora Time Inc, que controlava as revistas Time, Life e Sports Illustrated, entre outras. Durante um ano e meio, familiarizou-se com todos os setores da empresa, da redação à contabilidade.

Em 1958, quando Victor Civita perguntou ao filho que acabara de voltar ao Brasil o que pretendia fazer, ouviu a resposta que apressaria a entrada da Abril no universo jornalístico: “Quero fazer uma revista de informação semanal, como a Time, uma revista de negócios como a Fortune e uma revista como Playboy”, respondeu.

“VEJA existe para contar a verdade”

O pai prometeu preparar a empresa para o passo audacioso, consumado em 11 de setembro de 1968, quando chegou às bancas a primeira edição de VEJA.

Roberto Civita participou intensamente das experiências pioneiras que resultaram no lançamento de Realidade, Exame, Quatro Rodas ou Playboy. Mas nada o deixava mais emocionado que recordar a trajetória descrita pela primeira revista semanal de informação do Brasil. Foi ele quem a criou. E foi ele o primeiro e único editor de VEJA, hoje a maior publicação do gênero fora dos Estados Unidos.

“Ninguém é mais importante que o leitor, e ele merece saber o que está acontecendo”, lembrava aos recém-chegados. “VEJA existe para contar a verdade. A fórmula é muito simples. Difícil é aplicá-la o tempo todo”.

Sobretudo em ambientes hostis à liberdade de expressão, aprendeu Roberto Civita três meses depois do parto da revista. Em 13 de dezembro de 1968, a decretação do Ato Institucional n° 5 transformou o que era um governo autoritário numa ditadura militar sem disfarces. A capa da edição que noticiou o endurecimento do regime exibiu uma foto do marechal-presidente Arthur da Costa e Silva sentado, sozinho, no plenário do Congresso que o AI-5 havia fechado.

Os chefes militares não gostaram da imagem, e ordenaram a apreensão de todos os exemplares. A essa violência seguiu-se a instauração da censura prévia, que só em meados da década seguinte deixaria de tolher os passos de VEJA.

Risonho, cordial, otimista, Roberto Civita sempre acreditou que nenhuma atividade vale a pena se não for praticada com prazer. “Você está se divertindo?”, perguntava insistentemente aos profissionais com quem convivia. Mantinha-se otimista mesmo quando contemplava a face sombria do país.

Para ele, o Brasil só conseguiria atacar com eficácia seus muitos problemas se antes aperfeiçoasse o sistema educacional, modernizasse o capitalismo nativo, removesse os entraves à livre iniciativa e consolidasse o estado democrático de direito. “O que VEJA defende, em essência, é o cumprimento da Constituição e das leis”, repetia. Também essa fórmula parece simples. Difícil é colocá-la em prática.

Foi o que o editor de VEJA sempre soube fazer.

(LEIA MAIS SOBRE ROBERTO CIVITA)

20/10/2012

às 18:10 \ Bytes de Memória

Histórias secretas de Playboy (4): o dia em que Pelé foi, pessoalmente, recolher todas as fotos de Xuxa nua

Xuxa abraçando Pelé nos bons tempos: namoro foi de 1981 a 1986

Campeões de Audiência(Amigos, com a reedição deste post damos continuidade à série que, brincando, chamamos de “Campeões de Audiência” porque se trata de reapresentar aos muitos leitores novos do blog, em dias diferentes, os posts mais acessados desde o início desta coluna, a 13 de setembro de 2010.

Refiro-me aos posts mais acessados, e não aos mais comentados. O post abaixo foi publicado originalmente no dia 27 de novembro de 2010).

De repente, ali estava ele: o sorriso planetariamente conhecido, o topete típico, inimitável, metido dentro de um estranho traje entre o terno e um conjunto esportivo, com calças e uma espécie de paletó ou casaco sem gola e do mesmo material: couro macio azul. No mais, uma camiseta cinza-clara também sem gola, sapatos pretos reluzentes, um relógio vistoso no pulso esquerdo.

O Rei, o Atleta do Século, o mago, o mito. O homem mais famoso do mundo, Pelé, acabara de chegar a uma sala no 6º andar da na época sede da Editora Abril, na Avenida Marginal do Tietê, em São Paulo, naquela tarde de um dia de um determinado mês, provavelmente maio, de 1985.

Celebridades eram rotina naquele edifício, mas Pelé causou grande alvoroço

Naquele edifício era comuníssimo, fazia parte do dia-a-dia o entra-e-sai de celebridades de todos os calibres — governantes, inclusive presidentes, líderes políticos, ídolos do esporte, estrelas da TV e da música popular, modelos de sucesso –, para realizar visitas de cortesia, conceder entrevistas, tirar fotos ou almoçar com jornalistas ou diretores da empresa no restaurante do chamado Roof, um espaço ajardinado situado na cobertura que incluía um heliporto.

Mesmo assim, tratava-se de Pelé, s sua chegada provocou grande alvoroço. Corre-corre na chegada, gritinhos, pedidos de autógrafo, uma atmosfera que incluiu até as secretárias, algumas venerandas, do Sexto Andar — o andar abaixo do da redação de VEJA e onde se instalava a diretoria, e cuja numeração ordinal designava, na gíria interna da Abril, o poder na empresa. “O Sexto Andar vai gostar desta capa”, dizia-se. “O Sexto Andar ainda não decidiu pelo lançamento da revista tal”. E por aí vai.

Reprodução de parte do pôster da edição de 10º aniversário de "Plabyoy": última foto da estrela nua na revista

A missão do Rei: recolher todas as fotos de Xuxa nua

Pelé abrira espaço na sua movimentadíssima agenda para uma missão de caráter pessoal: recolher, ele mesmo, todos os cromos (slides) e negativos de todas as fotos em que Maria da Graça Meneghel, a Xuxa, namorada do Rei desde 1981, aparecia nua nas páginas de Playboy. Xuxa, àquela altura, ultrapassara de longe a categoria de estrelinha em busca de popularidade, que exibia o corpo no Carnaval e surgia seminua ou despida em revistas, e se consolidava havia dois anos na TV como a apresentadora de programas infantis que se tornaria a “Rainha dos Baixinhos”.

Preocupada com sua nova imagem, Xuxa, que posara nua em cinco oportunidades para uma concorrente de Playboy de circulação menor, a extinta Ele & Ela, da Bloch Editores, não queria deixar rastros dessa fase de sua vida. Pelo que entendi da conversa, as fotos da revista dos Bloch já haviam retornado a suas mãos, já que ela era a grande atração da também já extinta Rede Manchete de Televisão, do mesmo grupo. (Xuxa iria se transferir no ano seguinte, 1986, para a Globo, onde trabalha até hoje. No mesmo ano terminaria seu longo caso com Pelé).

A apresentadora ainda tomaria medidas polêmicas nessa refeitura de imagem, que incluíram a apreensão, graças a uma medida judicial, de todas as cópias em vídeo e DVD do filme Amor Estranho Amor (1982), do respeitado cineasta Walter Hugo Khouri, no qual sua personagem não apenas aparecia nua como introduzia um menino de 12 anos no mundo sexo.

Os advogados de Xuxa argumentaram, com sucesso, que o contrato para o filme não previa versão para vídeo ou DVD. Xuxa viu-se muito criticada uma vez que, não mais sendo reprisado no cinema, e raríssimas vezes na TV — hoje em dia, certamente não na Globo –, o filme praticamente desapareceu da cultura brasileira.

 

Xuxa e Pelé durante coquetel oferecido à colônia brasileira em Nova York, no dia 27 de setembro de 1982

Apagar o passado de símbolo sexual

A reunião na Editora Abril ia na mesma linha de apagar o passado da estrela como símbolo sexual. E Xuxa jogara pesado: enviara ninguém menos do que Pelé como seu emissário. A reunião fora acertada entre Pelé e o diretor de Redação na época, o quase legendário Mário Escobar de Andrade, que comandou direta ou indiretamente a revista desde pouco tempo após o lançamento, em 1975, até falecer de forma prematura em 1991, quando, sem deixar de supervisionar Playboy, vinha acumulando outras funções.

Eu era redator-chefe da revista por ocasião da reunião com o Rei – só muito tempo mais tarde, em 1994, depois de trabalhar em diferentes veículos, inclusive fora da Abril, seria convidado a tornar-me diretor de Redaçãod de Playboy. Naquele 1985, como redator-chefe, supervisava o trabalho de editores e repórteres, cuidava das reportagens, entrevistas, matérias de serviço e de todo o texto, da primeira à última palavra, mas nada tinha a ver com a contratação das garotas de capa nem com os ensaios de mulheres nuas, atribuição de outros colegas e do diretor de Redação.

Mesmo assim Mário, por alguma razão, me quis presente à reunião, talvez como testemunha. As redações das revistas mensais da Abril não mais cabiam no edifício da Marginal do Tietê, e a maioria delas, inclusive a de Playboy, localizava-se num prédio no bairro paulistano do Brooklyn. De lá viemos para o encontro. À nossa espera estava o dr. Edgard de Silvio Faria, um dos diretores da Abril, cujas funções incluíam a área jurídica.

Depois de atravessar com paciência o torvelinho de assédio a que estava inteiramente acostumado há décadas, o Rei chegou à sala sem assessores ou advogados, acompanhado apenas de seu irmão, Jair Arantes de Nascimento, o Zoca, dois anos mais novo, que funcionava como uma espécie de assessor pessoal. Feitas as apresentações, todos se sentaram e, após alguns minutos de small talk, Mário foi à luta.

Na reunião, o irmão de Pelé pingava adoçante no cafezinho do Rei

Sempre cativante e diplomático, como de seu feitio, Mário de Andrade começou elogiando Pelé pelo que representava para o Brasil e por sua simplicidade a despeito da fama, agradecendo o fato de ter vindo pessoalmente à Abril. Disse que a devolução das fotos era uma deferência especial a ele, Pelé, e também uma consideração para com Xuxa.

Nesse meio tempo, me impressionou o relacionamento de Pelé com o irmão que tentou, sem êxito, ser jogador de futebol profissional pelo mesmo time do Santos. Zoca agia como uma espécie de mordomo de Pelé, que por sua vez se comportava em relação ao irmão como patrão. Se o garçom da Abril servia um café a Pelé, Zoca apressava-se, a um sinal do Atleta do Século, a pingar adoçante na xícara. Confesso que fiquei um tanto chocado com o servilismo de Zoca, e com a naturalidade com que Pelé o encarava. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

21/04/2012

às 21:52 \ Política & Cia

Ética jornalística: uma reflexão permanente

Por EURÍPEDES ALCÂNTARA, Diretor de Redação de VEJA

 

“A ética do jornalista não pode variar conforme a ética da fonte que está lhe dando informações. Entrevistar o papa não nos faz santos. Ter um corrupto como informante não nos corrompe.”

 

VEJA nunca permitiu que suas páginas fossem usadas para outro fim que não a busca do interesse público.

Sempre que uma denúncia é publicada, alguém ganha e alguém perde. Um ministro cai e outro ministro sobe. Um grupo político é prejudicado e outro grupo político é beneficiado. São consequências normais da divulgação de fatos verdadeiros.

Em nosso trabalho cotidiano, essas circunstâncias são tão naturais para nós que nos dispensamos de discuti-las.

Mas temos de concordar que as pessoas não diretamente envolvidas em nosso trabalho possam, de boa-fé, não entender completamente a natureza do bom jornalismo que praticamos em VEJA.

Refleti sobre nossos critérios, nossas relações com as fontes de informação, enfim, nossa missão jornalística. O resultado é o texto abaixo.

 

“O jornalismo é feito com fontes de informação. O jornalista não é pago para saber. É pago para descobrir. Por essa razão, as relações do jornalista com suas fontes merecem uma reflexão permanente.”

O jornalismo é feito com fontes de informação.

O jornalista não é pago para saber. É pago para descobrir. Por essa razão, as relações do jornalista com suas fontes merecem uma reflexão permanente.

Os profissionais de VEJA seguem as regras escritas da Editora Abril, cujo Código de Conduta estabelece: “O jornalista da Abril não tem relação de trabalho com, nem presta serviço, ainda que eventual, para qualquer pessoa, empresa ou entidade que seja, ou possa a vir a ser, fonte de informação. A Abril jamais paga entrevistados por informação de nenhuma espécie, de forma direta ou indireta. Sempre que possível, o jornalista deve pagar por almoços e jantares com fontes ou seus representantes. Cabe ao profissional e a sua chefia imediata definir as situações em que a aplicação desta regra pode afetar o relacionamento com a fonte.”

Posturas Éticas – Guia para Jornalistas e Produtores de Conteúdo do Grupo Abril – Complemento do Código de Conduta.”

Em complemento ao Código de Conduta da Abril, a redação de VEJA em seu Plano Editorial anual reafirma que a “independência” é o maior valor de um jornalista da revista.

Por independência, diz o Plano Editorial, entende-se que o repórter não aceita nenhuma barganha editorial com as fontes em troca de informações.

Em nosso cotidiano, embora seja uma regra não escrita, sempre avaliamos as informações que recebemos das fontes tendo como único metro o interesse público que se confunde com o interesse jornalístico.

Isso significa que as inúmeras informações pitorescas ou de caráter pessoal, comportamental ou sexual de autoridades e governantes que nos chegam na forma de fotos, vídeos e gravações nunca são usadas por serem ofensivas e nada ajudarem na compreensão dos fatos públicos.

 

“O ensinamento para o bom jornalismo é claro: maus cidadãos podem, em muitos casos, ser portadores de boas informações.”

Os jornalistas de VEJA estabelecem com suas fontes uma relação em que fica claro desde o primeiro momento que não se trata de uma relação de troca.

A fonte não terá nenhum outro privilégio por fornecer informações, a não ser a manutenção do sigilo, caso isso seja do interesse dela.

As fontes nunca são desinteressadas das reportagens com as quais colaboram fornecendo informações. Um corrupto que passa informações quer se vingar de outro corrupto ou espera atrapalhar o negócio do concorrente com o governo.

Nos dois casos, o jornalista precisa ter noção exata do interesse da fonte e usar a informação quando e somente se a vinda dela à luz servir mais ao interesse público do que ao do próprio informante.

Um assassino que revela na cadeia um plano para assassinar o presidente da República é possuidor de uma informação de interesse público – e pelo mecanismo da delação premiada ele pode ter sua pena atenuada ao dar uma informação que impeça um crime ainda pior do que o cometido por ele. Portanto, temos aqui uma situação em que a informação é de qualidade e o informante não, por ser um assassino.

O ensinamento para o bom jornalismo é claro: maus cidadãos podem, em muitos casos, ser portadores de boas informações.

 

“Uma informação de qualidade é verificável, relevante, tem interesse público e coíbe a ação de corruptos.”

O repórter que se preza não despreza uma fonte de informação sobre casos de corrupção com base apenas no fato de que o informante é corrupto.

Mas como se cativa e se mantém um informante desse tipo sem acenar com alguma vantagem para ele?

O jornalista, consciente dos interesses subalternos do informante, deve tentar obter dele o que for relevante para o interesse público – e publicar.

O mais provável é que o informante se sentirá gratificado por ter conseguido o objetivo de ver a informação tornada pública e o jornalista também terá cumprido sua missão de trazer à luz fatos que, de outra forma, nunca sofreriam o efeito detergente dos raios solares.

Ao jornalista cabe distinguir:

A) se a informação é verificável;

B) se a informação é relevante e de interesse público;

C) se a vinda da informação a público ajudará a diminuir o escopo de ações dos corruptos, entre eles o próprio informante.

Cumpridas as três condições acima, a informação merece ser levada a sério, a despeito, repita-se, da estatura moral do informante.

O bom jornalista não se deixa paralisar estabelecendo como critério só ter como fontes pessoas que passem pelo crivo ético mais elevado.

Isso não deve ser confundido de jeito nenhum com a ideia de que vale tudo.

O critério de VEJA é claro. As informações precisam ser qualificadas, independentemente da estatura moral do informante. Pessoas de estatura moral questionável podem deter informações de altíssimo padrão de qualidade jornalística.

Digamos que a informação trate de uma negociação de pagamento de propina. Quem tem mais condições de contar o que aconteceu? Quem estava lá ou quem não estava lá? A resposta é clara: quem estava lá, ou seja, um dos envolvidos.

Evidentemente, o critério acima não vale para fontes que queiram dar opiniões. Não abrimos espaço para pessoas de baixo padrão moral dar opiniões.

No processo de coleta de opiniões, procuramos as mais qualificadas autoridades mundiais para entrevistar, onde quer que estejam.

Se uma fonte moralmente discutível testemunhou um fato importante, quer contar o que presenciou e se o que ela narra é verificável por outros meios, consideramos que ela pode ter uma informação que vale a pena ser levada em conta.

Se essa mesma fonte quiser dar uma opinião a respeito daqueles mesmos fatos, não aceitamos. A qualidade da informação pode independer da qualidade da fonte. Já a opinião é indissociável de quem a emite. A qualidade de quem opina afeta a qualidade da opinião.

 

“A ética do jornalista não pode variar conforme a ética da fonte que está lhe dando informações. Entrevistar o papa não nos faz santos. Ter um corrupto como informante não nos corrompe.”

Esse ponto merece uma análise mais detida.

Como o jornalista deve diferenciar sua relação quando uma fonte é, digamos, um economista respeitado e outra fonte é um criminoso?

O jornalista deve ter em mente que ambos podem ser detentores de informações da melhor qualidade.

O criminoso pode ter sido testemunha de um crime e seu depoimento pode ajudar a desbaratar uma quadrilha perigosa. Não se pode desprezar o que ele tem a dizer. É preciso ouvir, analisar, pesar, checar, contextualizar.

Um economista respeitado, caricaturando, pode estar teoricamente equivocado sobre algum fenômeno ou pode estar a serviço de algum especial interesse econômico ou comercial.

Enfim, ambos valem pelo teor, qualidade e grau de interesse da informação verdadeira de que são detentores.

É preciso atentar para o fato de que, mesmo que a fonte seja um assassino esperando a execução de uma sentença de morte (exemplo verídico transformando no livro O Jornalista e o Assassino pela americana Janet Malcolm), ela merece ser tratada com respeito.

Se a fonte não tem ética, isso é problema dela.

A ética do jornalista não pode variar conforme a ética da fonte que está lhe dando informações.

Entrevistar o papa não nos faz santos. Ter um corrupto como informante não nos corrompe.

Quando o jornalista lida com uma fonte que tem uma informação verdadeira, verificável e relevante, ele precisa ter consciência dos interesses particulares do informante. Deve avaliar se o interesse público maior supera mesmo o subproduto indesejável de satisfazer o interesse menor e subalterno da fonte.

Se o resultado for positivo, a informação se candidata a ser publicada.

Por isso, o jornalista não pode ser amigo de fontes. Não pode aceitar presentes, convites para viagens ou quaisquer outros agrados.

VEJA nunca publicou conteúdos de gravações obtidas ilegalmente, portanto o que segue aqui tem o objetivo apenas de refletir sobre certos limites.

Quem se favorece conscientemente do produto de furtos, roubos ou outros crimes é potencialmente cúmplice do autor. Por essa razão, o jornalista que eventualmente receber uma gravação obtida ilegalmente e usá-la em uma reportagem pode estar se expondo aos rigores da lei.

Desse modo, ele só deve dar esse passo arriscado quando o custo para a sociedade de desprezar o conteúdo da gravação for muito grande. Se o preço pessoal de evitar um crime ou uma sequência de crimes dando publicidade a gravações ilegais for incorrer em uma transgressão menor, o jornalista tem o dever de considerar correr esse risco.

Em VEJA, casos assim jamais são decididos individualmente por um jornalista, mas pela direção da revista.

O trabalho jornalístico envolve vários riscos. Como qualquer trabalho. Do cirurgião, do advogado. Do engenheiro. Se ele tomar todos os cuidados, os riscos serão minimizados, mas jamais eliminados.

A primeira preocupação de VEJA ao ter acesso a uma informação é entender como a informação foi obtida.

Se a publicação do produto do crime tiver relevância para evitar crimes piores, e mesmo que isso ajude a vender revistas, não se incorre em falha ética.

Se um jornalista furtar da pasta de uma pessoa, por exemplo, um plano para explodir a represa de Itaipu e se com a publicação do plano ele evitar o ataque terrorista – e ainda vender mais revistas –, a implicação ética lhe será altamente favorável.

 

“O bom jornalismo é uma atividade de informação mediada. O jornalista não é um mero repassador de declarações. Ele tem o poder discricionário de não publicar uma acusação ou uma ofensa grave.”

As informações obtidas com a garantia de manter o sigilo da fonte trazem desafios adicionais ao jornalista.

As informações obtidas de fontes anônimas, que não podem ou não querem se identificar, devem ser usadas preferencialmente como confirmação de dados ou relatos já obtidos de outras fontes. Mas é um erro desprezá-las.

Muitas vezes um informante testemunhou fatos relevantes e a única condição que coloca para narrá-los é a manutenção do sigilo sobre sua identidade. A regra básica para errar menos com o uso de fontes anônimas é ter em mente que o leitor pouco ou nada saberá sobre quem deu a informação, portanto o jornalista tem de saber tudo sobre a fonte.

VEJA muitas vezes não tem meios de confirmar com outras fontes as informações passadas por uma fonte que pediu OFF.

Digamos que uma discussão entre duas pessoas seja contada em OFF por um dos participantes.

VEJA não vai publicá-la se a outra pessoa não confirmar? Talvez sim, talvez não. Depende do conteúdo do diálogo passado.

A lição é a de que o bom jornalismo é uma atividade de informação mediada. O jornalista não é um mero repassador de declarações. Ele tem o poder discricionário de não publicar uma acusação ou uma ofensa grave.

Se o custo de não publicar for prejudicial ao interesse público, o jornalista deve pesar os riscos e corrê-los se necessário.

Uma fita contendo revelações importantes (depois de devidamente periciada e contextualizada) tem valor extraordinariamente maior do que uma frase acusatória, seja em OFF ou em ON.

VEJA sempre pericia os diálogos gravados que publicou e guarda esses registros. VEJA já publicou diálogos que lhe foram entregues degravados sem ter tido acesso ao conteúdo original – mas o fez com absoluta segurança da origem do material.

Existe uma diferença grande entre uma acusação em OFF e uma fita. A fita, muitas vezes, envolve um diálogo de duas pessoas acusando uma terceira – que pode ser inocente. E ela acaba sendo envolvida num escândalo involuntariamente. Isso raramente acontece na acusação, ainda que em OFF.

Por isso, todo o cuidado é pouco com esse tipo de informação.

O documento (depois de periciado e contextualizado) tem valor exponencialmente maior do que uma informação oral, desde que o conteúdo de ambos seja equivalente em relevância.

Mas às vezes um documento mente e a informação falada tem mais valor.

Exemplo: como forma de mostrar seu distanciamento de uma denúncia de corrupção, o ministro envia um memorando cobrando de seu assessor informações sobre a irregularidade. Esse documento pode ser apresentado pela autoridade como prova de sua inocência. Uma apuração mais aprofundada pode provar que aquele documento não passava de uma armação.

Ou seja, cada caso é um caso.

 

“A regra para lidar com gravações ilegais que registraram atividades de cidadãos ou empresas privadas em seus negócios particulares é: descartar sem ouvir ou assistir – ou, alternativamente, entregá-las às autoridades.”

A fita (periciada, contextualizada) tem muito valor. A perícia ajuda a mostrar se a fita chegou à redação em condições de ser usada como prova. Às vezes, as gravações são inaudíveis ou indecifráveis – ou a fita pode ter sido adulterada com o propósito de mudar o sentido das falas.

Nesses casos, ela vai para o lixo.

É crucial enfatizar um ponto da mais alta importância.

O que se discute aqui é a publicação de informações que dizem respeito à atuação de autoridades e suas relações com terceiros quando tratam de questões que envolvem dinheiro ou outros bens públicos. A regra para lidar com gravações ilegais que registraram atividades de cidadãos ou empresas privadas em seus negócios particulares é: descartar sem ouvir ou assistir – ou, alternativamente, entregá-las às autoridades.

 

“As informações são tratadas em VEJA como portas que se abrem para a obtenção de novas informações. Todas elas são checadas.”

 

Nenhuma reportagem de VEJA – com a exceção óbvia da entrevista das Páginas Amarelas – é feita com base em apenas uma única fonte de informação.

As informações são tratadas em VEJA como portas que se abrem para a obtenção de novas informações.

Todas elas são checadas, contextualizadas e comparadas, de modo que os eventuais erros que possam ocorrer sejam aqueles que conseguiram escapar de nossos rigorosos mecanismos de filtragem – e nunca resultado de má-fé.

São Paulo, 20 de abril de 2012

07/04/2012

às 18:02 \ Tema Livre

Vídeo e fotos-colírio: vejam J. R. Duran fotografando a jovem atriz global Marina Ruy Barbosa

Mago das lentes, o mais conhecido fotógrafo de mulheres bonitas do país, grande fotógrafo de moda, jornalista, escritor, aventureiro e piloto de helicóptero amador, J. R. Duran é um homem de bem com a vida e tem um estilo bem-humorado de trabalhar.

As fotos abaixo, da jovem atriz global Marina Ruy Barbosa (não é parente do escritor de novelas Benedito Ruy Barbosa), foram feitas para reportagem da edição de abril da revista Nova, da Editora Abril — inclusive a capa.

Depois das fotos, veja um vídeo rapidinho feito pelo próprio time de Duran sobre a feitura das fotos. Duran sai de seu posto, passa em frente à câmera de vídeo e volta para as lentes. Como sempre — ouça suas exclamações — estimulando e brincando com a modelo. Que, segundo ele, “promete”.

Pouca gente está mais autorizada do que J. R. Duran para fazer esse prognóstico. (Lembre-se: veja o vídeo após as fotos).

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A capa da edição de abril de "Nova"

19/02/2012

às 19:28 \ Bytes de Memória

Histórias secretas de “Playboy” (1): o dia em que Maitê Proença foi regra 3 de Vera Fischer

Post publicado originalmente no dia 11 de outubro de 2010

(Os leitores não têm a menor obrigação de saber, mas a uma certa altura de minha longa carreira no chamado jornalismo hard – cuidando especialmente de temas políticos e relações internacionais – e no desempenho de cargos editorias executivos, coube-me ser diretor de Redação da revista Playboy, entre 1994 e 1999.

Um período muito rico, que, felizmente, deu resultados muito positivos para a Editora Abril e rendeu muitas histórias que nunca contei. Começarei a fazer isto agora, no blog).

Lidar com deusa não é brincadeira.

Campeões de Audiência

Eu que o diga quando ousei tentar contratar Vera Fischer para ser a estrela de capa da edição de 21º aniversário de Playboy, em 1996. A edição, como sempre, sairia no mês de agosto. E deveríamos enviá-la à Gráfica da Editora Abril, pronta, “fechada”, no jargão jornalístico, no máximo na primeira semana de julho, como costumava acontecer com as revistas mensais.

Tínhamos o desafio representado pela edição de aniversário do ano anterior, dos 20 anos redondos, com Adriane Galisteu na capa – felizmente na minha gestão. Vendera 1 milhão de exemplares nas bancas, a que se juntavam 180 mil assinantes. Estourara também em páginas de publicidade. Não era propriamente necessário superar ou mesmo igualar o recorde. Só que não podíamos fazer feio.

Assim sendo, comecei a me preocupar com a edição de agosto já em janeiro, sempre secundado, nesse sofrimento, por uma grande profissional que era meu fiel braço direito  no terreno das contratações e dos ensaios de nu – a editora de Fotografia, Ariani Carneiro. Na primeira reunião sobre a edição de aniversário, decidimos por um nome: a estrelíssima Vera Fischer. Ah, que complicação, ainda me lembro bem.

A DEUSA EM INFERNO ASTRAL – Com altos e baixos pessoais, Vera continuava atraindo holofotes mas, por alguma razão que desconhecíamos, vivia uma fase de inferno astral. Frequentara uma única vez a capa da revista, catorze anos antes, em fevereiro de 1982. Agora, mostrava-se arredia, inacessível, até hostil, não queria conversa com ninguém.

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Vera na edição de fevereiro de 1982 em Playboy

Juro que não era nada fácil ser diretor de Playboy. Havia, claro, muitas compensações, mas ao prazer e ao desafio de todo mês produzir um forte pacote de jornalismo, humor, ficção e serviços para o leitor juntava-se a permanente aflição de precisar preencher uma capa ainda em branco com uma mulher bonita e, sempre que possível, famosa.

Cada uma delas demandava extensas negociações, ofertas e contra-ofertas financeiras, exame e reexame de minutas de contratos – e o tempo correndo, correndo.

Pois bem, voltando a Vera. Como estava difícil sequer começar uma negociação, abrimos, como de praxe, outra frente – sempre em sigilo, para não melindrar as partes envolvidas, um problemaço quando eventualmente acontecia. Ariani passou a conversar, naquele mesmo janeiro, com Maitê Proença. Eu troquei faxes com ela, cuja cópia ainda guardo. (Estávamos na fase pré-email).

A bela Maitê já estivera na capa de Playboy em fevereiro de 1987, e a respectiva edição seguia constando entre as mais vendidas em bancas da história da revista, com 626,1 mil exemplares. Ainda ostentando a mesma beleza clássica ao se aproximar dos 40 anos, sem grandes considerações a víamos como uma boa alternativa.

Rumo à casa de Vera, no Rio

De repente, abre-se uma brecha na frente Vera Fischer. Depois de dezenas de contatos, telefonemas e sondagens, um agente, também advogado, com quem costumávamos tratar aqui e ali, aparece em nome de Vera. Vamos negociar.

Aí seguiu-se um sem-número de faxes para lá, faxes para cá. Nas mensagens, focadas sobretudo em cifras, acabamos chegando a um acordo: Vera receberia um bom xis à vista, tão logo estivesse concluído o ensaio, e seria premiada com o sucesso com xis centavos de real por cada exemplar vendido acima de um determinado limite.

Essa forma de contrato agradava à área financeira da Editora Abril porque dividia os riscos – e, claro, o êxito – com a contratada. Prudentes, precavidos, contudo, mantínhamos vivos os contatos com Maitê, a cargo da paciente, educada e competente Ariani. O sinal amarelo de alarme fora ligado: já estávamos quase no fina de abril.

Fechado o acordo por fax, combinamos uma conversa pessoal com Vera, em sua casa, no Rio. Para lá seguimos de São Paulo, no mesmo vôo, Ariani, o agente e eu. Juntos, pegamos o mesmo táxi. A deusa morava numa bela casa de dois andares no Joá, com uma vista espetacular para o mar, as montanhas verdejantes e a linha de edifícios de São Conrado, bem ao longe.

Ela tinha olhos belos, mas tristes

Para dizer a verdade, não fiquei bem impressionado ao chegar. A casa carecia de cuidados, de alguma maneira, imaginei, refletindo o mood então atribuído à dona. Pintura descascada, piscina semi-abandonada, um velho sofá, molhado por uma goteira, na garagem que abrigava um Volkswagen Golf, importado e novinho, verde.

Ao entrarmos pelo grande portão da frente, pudemos perceber uma escada que levava da cozinha ao quintal. Sob o vão, ao lado de um tanque de lavar roupa, aglomeravam-se garrafas de plástico e vidro vazias. No ar, um certo ar de abandono.

Sentamo-nos num sofá na sala espaçosa e envidraçada, recebidos pelo único empregado doméstico presente, um rapaz que também cuidava de Gabriel, o irrequieto e cabeludo filho da atriz com o ator Felipe Camargo, então com três anos.

De repente, ela. Cabelos dourados, olhos azul turquesa, pouca maquiagem, calça comprida, uma blusa rosa, de crochê, e sandálias. Parecia um tanto apressada, impaciente. Surpreendi-me com seus olhos, muito tristes, apagados, apesar de belos. De todo modo, ali, ao vivo, na iluminada sala de estar de sua casa, estava sem duvida uma bela mulher. Não pude, contudo, deixar de notar que suas mãos não correspondiam à juventude exuberante da então mais que quarentona Vera: menos tratadas do que eu poderia supor, menos delicadas do que imaginava, e salpicada de manchas marrom-claras.

Adiantei-me em agradecer por nos receber e passei ao discurso que ensaiara, elogiando seu trabalho profissional, seus dotes, dizendo de nossa admiração pelo que ela havia conquistado. Vera parecia alheia àquelas palavras e me cortou, brusca:

– Tudo bem, tudo bem, mas quero deixar bem clara uma coisa: já fiz essa história de participação em teatro, me dei mal e nem quero ouvir falar no assunto.

O advogado, hipnotizado pelos seios sem sutiã

Quase emudeci, mas toquei em frente. Disse que teatro era uma coisa, revista, outra. Argumentei com a solidez e a credibilidade da Abril. Naturalmente sem mencionar cifras, citei exemplos de estrelas que haviam declarado grande satisfação com o esquema de participação.

Ariani, esperta e experiente, deu um jeito de mudar a conversa. Onde Vera gostaria de ser fotografada, em que país? Tinha idéia de algum tema que lhe agradasse? – sua primeira vez em Playboy havia sido um ensaio em que ela, a despeito da lourice, protagonizava uma espécie de deusa grega.

Quanto ao agente e advogado, mantinha-se alheio à peremptória reação de Vera ao tipo de contrato que eu próprio negociara longamente com ele. Parecia hipnotizado por um detalhe: a deusa estava sem sutiã, e suas protuberâncias bronzeadas estufavam a blusa de crochê.

A conversa, inevitavelmente, voltou à questão da participação. Vera mantinha-se intransigente, não queria saber de um contrato assim. Vi que tudo fora por água abaixo quando ela, em terminado momento, afirmou:

– Bem, de qualquer maneira vou pensar no assunto e, é claro, preciso consultar meu advogado.

Vontade de esganar

Estarrecido – até então julgava, por todas as razões do mundo, que nosso companheiro de viagem representasse Vera legalmente –, encaminhei o diálogo para o fim. Despedimo-nos de forma civilizada, combinamos futuros contatos. Percebi, porém, que para a edição de agosto seria impossível estampar a deusa na capa.

Voltamos, os três, em silêncio para a Zona Sul do Rio. No táxi, eu espumava de raiva contida. Meu impulso interior ordenava esganar o advogado. Só que silenciei, engoli o gigantesco sapo, diante da carteira de estrelas que ele representava. Quem sabe mais adiante eu o colocaria contra a parede, exigindo uma explicação para o vexame. Agora, não.

As maravilhas de ser diretor de Playboy, lembram-se?

Nosso companheiro de viagem marcara compromissos no Rio, de modo que desembarcou do táxi em Copacabana enquanto Ariani e eu rumamos para Aeroporto Santos Dumont. Imediatamente pedi a Ariani:

– Por favor, dê um telefonema pra Maitê e tente marcar um encontro para acertar o contrato.

Do próprio carro, por celular, ela deu sorte e falou com Maitê na hora. Marcou-se a reunião para dias depois.

E Maitê assina um contrato

A 8 de maio de 1996, em seu apartamento num edifício ao lado do hotel Copacabana Palace, no Rio, Maitê Proença, a regra 3 de alto luxo que mantínhamos de sobreaviso, assinou contrato para estrelar a capa do 21º aniversário de Playboy.

Maitê na edição de agosto de 1996 em Playboy

O ensaio, assinado pelo magnífico fotógrafo Bob Wolfenson, teve como palco o interior da Sicilia, no Sul da Itália, em junho. Sobre isso falarei num post futuro.Durante muito tempo imaginei que Maitê nunca soube que nossa primeira opção havia sido por Vera Fischer. Hoje, analisando o quanto custou financeiramente aquele ensaio e as exigências posteriores da atriz – Ariani viajou pelo menos meia dúzia de vezes para o Rio com provas do ensaio, para o exame rigoroso e detalhado de Maitê – acho que, sim, de alguma maneira ela ficou  ao par.

De todo modo, valeu a pena. Fotos do ensaio figuram em revistas e livros de fotografia até hoje. E Playboy vendeu quase meio milhão de exemplares nas bancas.

De minha parte, fiquei feliz e aliviado. Até me lembrar de que, em setembro, havia outra capa a ser feita.

 

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15/12/2010

às 18:25 \ Tema Livre

Vídeo: Xuxa explica porque retirou do mercado filme em VHS em que aparece nua

Amigos do blog, lembram do post em que contei, pela primeira vez, a reunião que Pelé teve com representantes da Editora Abril para recolher todas as fotos em que Xuxa, sua então namorada, aparecia nua para a revista Playboy?

Ali eu conto que Xuxa, àquela altura da carreira, fazia sucesso como apresentadora de TV e queria mudar sua imagem de estrelinha que aparecia seminua no Carnaval e nua em ensaios fotográficos. E lembro que ela ainda tomaria medidas polêmicas nessa refeitura de imagem, que incluíram a apreensão, graças a uma medida judicial, de todas as cópias em vídeo e DVD do filme Amor Estranho Amor (1982), do respeitado cineasta Walter Hugo Khouri, no qual sua personagem não apenas aparecia nua como introduzia um menino de 12 anos no mundo sexo.

Os advogados de Xuxa argumentaram, com sucesso, que o contrato para o filme não previa versão para vídeo ou DVD.

Veja as explicações de Xuxa a respeito no vídeo abaixo — uma entrevista que ela concedeu em 1990 a Amaury Jr.

08/11/2010

às 10:12 \ Bytes de Memória

Histórias secretas de “Playboy” (3): o dia em que contratei a filha de Fidel Castro para posar nua (1ª parte)

Alina em seus tempos de modelo em Havana, em 1988

Alina Fernández Revuelta, a filha de Fidel, em sua época de modelo em Cuba, em 1988

(Os leitores não têm a menor obrigação de saber, mas a uma certa altura de minha longa carreira no chamado jornalismo hard – cuidando especialmente de temas políticos e relações internacionais – e no desempenho de cargos editorias executivos, coube-me ser diretor de Redação da revista Playboy, entre 1994 e 1999. Um período muito rico, que, felizmente, deu resultados muito positivos para a Editora Abril e rendeu muitas histórias que nunca contei, até começar com o blog. Duas histórias já foram publicadas. Esta é a terceira. Uma versão condensada, com pouco mais de metade da extensão desta, foi publicada pelo número 2 — setembr passado — da revista Alfa).

Quando o Boeing 767-200 prefixo PP-VNP da Varig desceu o trem de pouso à chegada no aeroporto de Barajas, em Madri, na manhãzinha daquele 9 de março de 1998, uma segunda-feira, confesso estava apreensivo. Não por medo de aterrissagens. É que, em questão de horas, eu tentaria fechar uma negociação que, para quem na época era diretor de Redação de Playboy, poderia ser histórica, fazendo a revista estourar nas bancas e repercutir na grande mídia brasileira e internacional: tratava-se de levar para a capa e seu principal ensaio fotográfico, nua, ninguém menos do que a única filha – ele tem outros sete filhos – do ditador cubano Fidel Castro, Alina Fernández Revuelta.

Adriane Galisteu na capa da edição do 20º aniversário, em 1995

Adriane Galisteu: capa da edição do 20º aniversário, em 1995

Não é que faltasse sucesso para Playboy, felizmente. A revista ostentava havia 20 anos a condição de maior publicação masculina do país. Além disso, com apoio forte da Editora Abril, times excelentes nas áreas de marketing, circulação e publicidade e uma equipe espetacular na redação, a gestão que iniciei em Playboy no final de 1994 vinha numa curva ascendente de vendas e de faturamento.

Àquela altura, tínhamos alcançado quatro das dez edições mais vendidas na história da revista desde a sua fundação, ainda com o título de Homem, em agosto de 1975 – chegaríamos a nove das dez campeãs, quando deixei Playboy, no final de 1999. A edição do 20º aniversário, ostentando na capa Adriane Galisteu e contendo um forte pacote jornalístico, em agosto de 1995, batera todos os recordes brasileiros em bancas – mesmo alguns memoráveis, mas não inteiramente comprovados, como os da falecida O Cruzeiro –, beliscando o milhão de exemplares.

LEGIÃO ESTRANGEIRA, CONGO EM GUERRA E VIAGENS COM FHC — Orgulhávamo-nos das realizações jornalísticas da revista, cujos editores e repórteres se desdobravam em todas as áreas, no Brasil e no exterior. Num perfil a cargo do escritor Fernando Morais, por exemplo, o ex-presidente Fernando Collor, na solidão da Casa da Dinda, acusou seu vice e substituto, Itamar Franco, de “traição”. Outros poderosos da vez estavam presentes em nossas reportagens e entrevistas: Antonio Carlos Magalhães, César Maia, Tasso Jereissati ou o presidente da Argentina, Carlos Menen.

Fomos ao Congo (então Zaire) em guerra civil, a Hong Kong depois de passar do domínio britânico para a soberania chinesa, ao Iraque para ver como vivia, amava e se divertia a juventude sob a ditadura sanguinária de Saddam Hussein. Viajamos na comitiva do presidente Fernando Henrique Cardoso para revelar os bastidores de suas missões internacionais, contamos o drama de um brasileiro no corredor da morte em uma penitenciária da Flórida, nos Estados Unidos, reportamos o difícil trabalho dos 1.200 soldados brasileiros em missão de paz na conflagrada Angola e nos aventuramos nos confins do Djibuti, no Chifre da África, para narrar a história e as ações da mitológica Legião Estrangeira francesa. E por aí vai.

Outras áreas de interesse também nos davam satisfação pelos resultados. O ministro da Educação, Paulo Renato, considerava o hoje extinto Ranking Playboy das Melhores Faculdades do Brasil “o melhor instrumento de avaliação do ensino superior brasileiro” antes da instituição do Provão pelo MEC, em 1996. Nossos concursos de contos incluíam no júri escritores do porte de Nélida Piñon, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, Lígia Fagundes Telles e Ivan Angelo. No capítulo charme, indispensável para a revista na época, havíamos, entre muitas atrações, contado as maravilhas do Principado de Mônaco, descrito os segredos e histórias do célebre Harry’s Bar, de Veneza, visto e reportado por dentro os desfiles da alta moda em Paris, com suas supermodelos maravilhosas, bem como o vidão dos multimilionários em St. Barthélemy, no Caribe.

FUGA ROCAMBOLESCA DE CUBA — Nada disso, porém, me removia a apreensão quando as turbinas do Boeing silenciaram e começou o desembarque em Madri, sob uma temperatura ainda fria do final de inverno. O sucesso alcançado, de acordo com os melhores manuais, não é suficiente para uma publicação: havia que continuar surpreendendo, informando e entretendo o leitor para sobreviver com saúde, sobretudo numa fase em que a internet já produzia estragos em jornais e revistas impressos.

Alina, a “filha rebelde” de Fidel, fruto de um affaire de uma mulher casada e rica, Natalia “Naty” Revuelta, com o líder barbudo nos primórdios da luta contra a ditadura de Fulgencio Batista em Cuba, reunia sem dúvida condições para ser uma surpresa espetacular na capa de Playboy. Ela conseguira capturar manchetes do mundo todo ao fugir de forma rocambolesca da ilha em dezembro de 1993, rumo a Madri, com passaporte espanhol falso e um disfarce que incluía a imitação de um sotaque, roupas espalhafatosas e uma peruca encimada por um boné.

Alina em 1988, cinco anos antes de fugir de Cuba

Alina em 1988, cinco anos antes de fugir de Cuba

No ano seguinte, de novo ganharia destaque na mídia ao protestar publicamente contra a presença de Fidel na Assembléia Geral da ONU, em Nova York. Posteriormente se conheceriam mais detalhes sobre a complicada, difícil e kafkiana história de Alina, para quem até os 10 anos de idade parecia tão certo como o nascer diário do sol o fato de seu pai ser o dr. Orlando Fernández Ferrer, o médico gentil e carinhoso com o qual a mãe se casara e tivera, antes dela, outra filha, Natalie.

Um dia, de uma só vez, a menina ficou sabendo que o dr. Orlando, proibido pela revolução triunfante de manter clínica particular, fora embora para Miami com a irmã Natalie, e que seu pai de verdade era o barbudo grandão que mandava em Cuba, visitava a mãe com frequência em horas estranhas e agia como uma espécie de tio ou padrinho. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

08/11/2010

às 10:02 \ Bytes de Memória

Histórias secretas de “Playboy” (3): o dia em que contratei a filha de Fidel Castro para posar nua (2ª parte)

Ana, Alina e Ariani (Foto: arquivo pessoal Ana Maria Moreno)

Ana, Alina e Ariani (Foto: arquivo pessoal Ana Maria Moreno)

(Caro leitor, este post é continuação do anterior, que você pode ler aqui. Sem isso, a história da contratação da filha de Fidel Castro para posar nua para Playboy não vai fazer sentido. Obrigado.)

DE MACACÃO, EMPURRANDO UM CARRO ENGUIÇADO — Naquele 8 de julho de 1998, minhas duas emissárias de confiança em Playboy seriam recebidas por Alina Fernández Revuelta, a filha de Fidel Castro, no decadente apartamento que ocupava na central calle Bárbara de Braganza: móveis gastos, paredes com manchas, decoração modesta. A dona da casa não impressionou as visitantes: chegou atrasada ao encontro e vestia uma espécie de jardineira ou macacão cheio de manchas.

Explicou que tinha ajudado a empurrar o automóvel enguiçado de um amigo. Como sempre, todavia, demonstrou simpatia e amabilidade. Enquanto Jaime, seu companheiro de então, preparava uma refeição constituída de várias e apetitosas pequenas porções, Alina exibia para as duas brasileiras lembranças de quando ele viajava pela Marinha Mercante. Em certo momento, Jaime contou à dupla de Playboy que a passada anorexia da mulher deixara sequelas: ela não gostava de comer diante de outras pessoas, tanto que mal tocou nos pratos servidos.

O contrato, no entanto, não seria assinado ainda dessa vez. Alina queria um pequeno reajuste no preço, na tentativa de livrar-se de parte dos impostos. De volta ao hotel, Ana Maria me telefonou. Dei o OK por conta própria, certo da aprovação posterior do diretor Nicolino Spina, o que efetivamente ocorreu. A ética me impede de mencionar cifras precisas, mas havíamos atingido um volume de dinheiro suficiente para a compra de um apartamento de três dormitórios num bairro nobre de São Paulo.

A CELEBRAÇÃO, NUM RESTAURANTE MEXICANO — O documento, em versão final saída da própria impressora da interessada, enfim receberia a firma de Alina Fernández Revuelta no dia seguinte, 9 de julho de 1998. Ela se aprontara apropriadamente para a ocasião, com um vestido fino, bons sapatos, maquiagem e jóias. E se abriu com Ana, com quem estabeleceu desde o início grande empatia, dando conta de que mudara em boa parte as intenções desde a conversa comigo, em março:

– Estou cansada de ajudar a todo mundo. Agora preciso pensar em mim e em minha filha.

E expressou o desejo de que o ensaio fosse feito em Madri mesmo. Não queria viajar. Foi mostrar o que lhe parecia uma locação adequada – um apartamento pertencente a um amigo, sem nada de especial, a anos-luz do bom gosto e do luxo que usávamos para fotos em ambientes fechados. Ana e Ariani desconversaram.

Aproveitaram, porém, para fotografar Alina com suas câmeras, material que levariam ao fotógrafo que escolhêssemos. Um pouco como celebração, o grupo decidiu almoçar num restaurante mexicano, Entre Suspiro y Suspiro, de um restaurateur amigo do casal que, tal qual o Alkalde de meu jantar de meses atrás, existe até hoje. Jaime ofertou a Ana e a Ariani, cada uma, uma caixa de caramelos da mesma e magnífica La Pajarita que eu já provara.

O implacável verão de Madri vivia o auge, com um calor de 40 graus à sombra. Ana me telefonou novamente, exultante, contando que a novela terminara. A dupla de Playboy tinha vôo marcado para a noite do dia subsequente, e almoçou num restaurante da Plaza Mayor antes de voltar ao Brasil. Estava para acontecer a grande aventura. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

15/10/2010

às 12:42 \ Livros & Filmes

“Nunca me faltou inspiração”, afirma Vargas Llosa na segunda parte da entrevista a Ricardo Setti

O escritor peruano Mario Vargas Llosa, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 2010, fala sobre seu novo livro O Sonho do Celta, sua viagem ao Congo como parte do trabalho de escrevê-lo, o horror que presenciou lá, seus próximos projetos e a experiência de atuar no teatro.

Confira a primeira parte da conversa aqui.

 

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