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Ação judicial expõe machismo e humilhações na indústria dos videogames

Fruto de dois anos de investigação no gigante Activision, inquérito revela no tratamento degradante das mulheres nos gigantes do ramo

Por Caio Saad Atualizado em 16 ago 2021, 10h17 - Publicado em 15 ago 2021, 08h00

Inventados por homens, para homens (ou meninos, já que a febre começa cedo), os videogames nasceram e cresceram como um reduto masculino, com pouca representação feminina tanto entre jogadores quanto nos estúdios em que são produzidos. Nos últimos tempos tem vindo a público a face mais sombria dessa, digamos, reserva de mercado: o ambiente de discriminação e degradação constante das mulheres que trabalham nos gigantes do ramo. O caso mais gritante é a ação que o Departamento de Emprego e Moradia Justos da Califórnia, encarregado de proteger os cidadãos de atitudes discriminatórias, está movendo contra a Activision Blizzard, dona dos megapopulares World of Warcraft e Call of Duty, por acobertar “uma cultura generalizada de machismo no ambiente de trabalho”. A empresa qualificou as acusações contidas na investigação de dois anos, que levou ao processo, de “vazias e irresponsáveis” — o que motivou uma greve de 1 500 funcionários e protestos em frente aos estúdios na Califórnia.

O inquérito comprova que a Activision “estimulou a cultura sexista”, pagando salários mais baixos e promovendo menos as mulheres em funções semelhantes às dos homens. No trabalho, diz, elas foram submetidas a assédio sexual constante, “incluindo apalpadas, comentários e insinuações”, tudo com pleno conhecimento da direção. Entre as práticas condenáveis mencionadas está o cube crawl, adaptação do pub crawl (maratonas para beber de bar em bar). Na happy hour do escritório, bêbados vão às mesas das funcionárias para importuná-las.

PRESSÃO - Protesto em frente à Blizzard: greve e carta aberta -
PRESSÃO - Protesto em frente à Blizzard: greve e carta aberta – eff Gritchen/MediaNews Group/Getty Images

Demitido sem explicação oficial no ano passado, Alex Afrasiabi, diretor criativo do World of Warcraft, é citado nominalmente no processo por tentar beijar colegas à força durante as convenções anuais, nas quais seu quarto de hotel era chamado de Cosby Suite — com direito a pose de grupo de amigos dentro dele erguendo foto do comediante americano Bill Cosby, processado por assédio e estupro. “Como alguém que foi assediada, sofreu retaliações e viu uma grande amiga sair traumatizada do contato com detentores de altos cargos, não tenho palavras para expressar meu alívio”, declarou Cher Scarlett sobre a ação. A VEJA, uma mulher que atua na franquia Call of Duty e não quis se identificar disse ter sido vítima de abusos sem poder reagir, porque a violência era cometida “pelo superior a quem eu deveria levar a denúncia”.

Em paralelo à greve, mais de 3 000 pessoas que trabalham ou trabalharam na Activision assinaram uma carta aberta expressando apoio à ação judicial. O presidente da empresa, Bobby Kotick, pediu desculpas e anunciou medidas imediatas, entre elas a substituição do presidente da Blizzard, J. Allen Brack, por uma mulher, Jen Oneal. O diretor global de recursos humanos, Jesse Meschuk, também deixa o cargo. A Activision Blizzard é resultado da fusão dos dois gigantes em 2008, que juntaram seus nomes e equipes para formar uma das maiores desenvolvedoras de jogos interativos do mundo. Em 2019, seu faturamento chegou a 8 bilhões de dólares e são seus os dois games mais vendidos em 2020, ambos do título Call of Duty.

COSBY SUITE - Pose: grupo no quarto com nome de comediante condenado -
COSBY SUITE - Pose: grupo no quarto com nome de comediante condenado – ./Reprodução

A indústria dos videogames, que no Brasil movimenta mais de 1 bilhão de dólares por ano, é dominada, em todos os níveis hierárquicos, por homens, a maioria brancos — dos 9 500 funcionários da Activision, apenas 20% são mulheres. O comportamento tóxico nesse ambiente foi exposto pela primeira vez em 2018, no portal especializado Kotaku, que mostrou a cultura machista predominante na Riot Games, desenvolvedora do League of Legends, produto que fez do e-sport um fenômeno. Em 2020, uma onda de acusações dentro da Ubisoft, dona do Assassin’s Creed, resultou em demissões no alto escalão e em um processo na França — medidas que, pelo jeito, não resolveram o problema. Em uma carta aberta de apoio aos colegas da Activision Blizzard, 500 funcionários da Ubisoft espalhados por 32 escritórios na Ásia, Europa e América do Norte afirmam que a empresa segue discriminando as mulheres. Se nada mais conseguir conter a frat boy culture — como é chamado o tratamento inferior de mulheres que se tornou marca registrada dos clubes de universitários nos Estados Unidos — nas empresas de videogame, pode ser que o peso no bolso fale mais alto: nos últimos dias, os campeonatos de e-sports da Activision perderam anúncios e patrocinadores e o valor de mercado da empresa caiu 10 bilhões de dólares.

Publicado em VEJA de 18 de agosto de 2021, edição nº 2751

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