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Sim ao suplemento…

...e não ao anabolizante. Muitos ainda confundem esses compostos. Um é uma forma saudável de complementar a dieta. O outro custa caro, e pode matar

“Pode até estar bom, mas sempre pode melhorar.” Pensar dessa maneira é sempre benéfico quando se trata da busca pela melhora do desempenho nas atividades físicas e nos esportes e do desejo de um corpo ideal? Até que ponto devemos perseguir esses objetivos? São essas as questões que vamos discutir ao longo deste texto.

Na era das redes sociais, quando o que vale é parecer perfeito, acabamos muitas vezes iludindo não só aos outros, mas principalmente a nós mesmos. E para a nossa saúde fica também o prejuízo, que pode se tornar muito grave ou até irreversível quando decidimos, por exemplo, usar substâncias anabolizantes.

Os anabolizantes são drogas utilizadas com o objetivo de obter ganho de massa e força muscular. Existem as drogas anabolizantes que são esteroides e as não esteroides. Os esteroides são hormônios sintéticos que imitam a testosterona, e os não esteroides são a insulina e o hormônio do crescimento — o GH.

Trata-se de medicamentos lícitos, vendidos em farmácia sob prescrição médica e com retenção da receita.

A indicação médica do uso de substâncias anabolizantes esteroides ou não esteroides é recomendada para o tratamento de doenças. A insulina é utilizada para o tratamento do diabetes mellitus e o hormônio do crescimento (GH), em crianças com atraso no crescimento por deficiência desse hormônio e em adultos que possuem a deficiência na sua produção.

Já os esteroides são indicados para o ganho de massa e força muscular a pacientes com deficiência ou insuficiência do hormônio testosterona ou doenças consumptivas, ou seja, debilitantes — entre elas HIV, câncer, osteoporose, sarcopenia e queimaduras graves. No entanto, as pessoas fazem uso indiscriminado dessas substâncias para fins estéticos e melhora da performance, exagerando na dose e utilizando produtos de origem duvidosa e muitas vezes adquiridos no “mercado negro”.

De acordo com estudos recentes, as pessoas estão usando anabolizantes cada vez mais cedo. Eles fazem parte da vida de jovens ainda em idade escolar. Um problema de saúde pública que ganha aspectos ainda mais preocupantes quando sabemos que aproximadamente 80% desses anabolizantes têm origem clandestina e, consequentemente, questionável. São homens e mulheres arriscando diariamente a vida — e isso vale para qualquer idade.

“Mas, doutor, eu sou (ou quero ser) atleta profissional, preciso de mais massa muscular e melhor desempenho físico.” Aqui respondo: existem alternativas saudáveis e eficazes. Tudo passa pela procura de um profissional sério. O corpo humano é uma estrutura complexa que, muitas vezes, precisa de ajuda para funcionar melhor. Para isso foram desenvolvidos diversos suplementos alimentares e há exames capazes, hoje em dia, de detectar com exatidão a necessidade de cada paciente. Considerando as questões já mencionadas, podemos concluir que “sempre” existe um caminho mais “fácil” e “sedutor” cheio de armadilhas e perigos na busca do imediatismo.

Uma questão extremamente importante que deve ser trazida à baila é a diferença entre anabolizante e suplemento. Uma coisa não tem nada a ver com a outra.

Suplemento não é anabolizante. Não é “bomba”! Suplementos são uma forma de entregar o nutriente que não pelo alimento. São muito utilizados por atletas profissionais e amadores. Seu uso também é indicado a crianças, idosos, pessoas com deficiência de vitaminas, como maneira de complementar a dieta e fornecer nutrientes que estão faltando ou não podem ser consumidos em quantidades suficientes por determinada pessoa.

A recomendação da utilização de suplementos, por exemplo, a atletas profissionais ou não se deve à praticidade da entrega desse nutriente antes, durante ou depois da prática de atividade física. Existem ainda os suplementos ergogênicos, que melhoram a performance dos atletas, como cafeína, beta-alanina, creatina, suco da beterraba (nitrato) e bicarbonato de sódio. Um dos suplementos alimentares mais conhecidos e discutidos atualmente é o whey protein. Muitos não sabem, mas ele nada mais é do que um suplemento de proteína derivado do soro do leite e aminoácidos. É tradicionalmente utilizado por quem pratica esporte, mas de uns tempos para cá passou a ser adotado por quem busca uma melhor forma física e mais qualidade de vida. O whey protein pode ser útil para a maioria das pessoas. Como pessoas a partir dos 30 anos, por exemplo. Nessa fase, iniciamos uma perda muscular progressiva de 3% a 8% a cada década. Estudos indicam que uma maior ingestão de aminoácidos reduz essa perda de massa magra progressiva.

“O uso de anabolizantes para fins estéticos ou melhora de performance é totalmente contraindicado”

Durante muitos anos, os suplementos, inclusive o whey, foram vistos erroneamente como uma “bomba”, usada apenas para ganho de massa muscular. Pouca gente conhecia os verdadeiros e vastos benefícios dessa substância. Falava-se frequentemente a respeito dos problemas que ele poderia causar, como sobrecarregar o funcionamento dos rins ou do fígado.

Na verdade, homens e mulheres, quando iniciam uma atividade física, não raro procuram o caminho mais curto, buscando a melhor roupa de treino, o melhor suplemento, melhor “tudo”. Esquecem, porém, que treinabilidade e condicionamento levam tempo. O uso dessas substâncias às vezes tem indicação, mas não no início da atividade física, e sim depois que as pessoas já estiverem treinadas e condicionadas. Aí, sim, o emprego dessas substâncias pode trazer um benefício. E, claro, elas devem ser consumidas com critério e supervisão de um profissional da saúde, como médico ou nutricionista.

No entanto, mesmo condicionados e treinados, fazendo uso de suplementos, alguns atletas em diferentes modalidades esportivas pretendem utilizar substâncias anabolizantes, entendendo que isso poderia proporcionar uma melhora da performance. Além de ser tido como conduta antiesportiva, o consumo de drogas ou qualquer outro tipo de substância que melhore de forma artificial o rendimento de um atleta durante uma competição e que traga efeitos prejudiciais é considerado doping.

Aquele atleta que utiliza doping leva certa vantagem (desleal) em relação aos que não o fazem, por isso o procedimento é considerado antiético e é proibido pelo esporte.

Ademais, o uso de anabolizantes para fins estéticos ou de ganho de performance é totalmente contraindicado.

Outro ponto negativo para a saúde daquele que faz uso de anabolizantes são os efeitos colaterais para o coração, o fígado e o cérebro. Aumento da pressão arterial, piora do colesterol, risco de embolias e infarto, câncer de fígado, hepatite, ginecomastia (aumento das mamas), acne e calvície são algumas das complicações mais frequentes em decorrência do uso indevido dessas substâncias, haja vista que o uso médico dessas drogas é feito de forma controlada.

Nas mulheres, além dos efeitos colaterais citados acima, encontramos o aumento do clitóris, rouquidão, infertilidade, problema nas mamas. Sem contar ainda as alterações da mente, tanto em homens como em mulheres, como agressividade, irritabilidade, ansiedade, dependência, risco de suicídio e transtorno dismórfico corporal (vigorexia), além do evento morte. Afora os malefícios para a saúde física e mental, no caso dos atletas há a punição pelo órgão esportivo competente, podendo inclusive ser banido o atleta que utilize substâncias impróprias e/ou o profissional que prescreva o seu uso.

* Eduardo Rauen é médico nutrólogo e do esporte do Hospital Albert Einstein e da Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte e diretor técnico do Instituto Rauen, Medicina, Saúde e Bem-Estar

Publicado em VEJA de 19 de junho de 2019, edição nº 2639

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