O que pacotes de salgadinhos e bolachas fazem com a microbiota e a saúde intestinal
Revisão reúne evidências de que uma dieta rica em alimentos ultraprocessados pode alterar a composição das bactérias intestinais e aumentar risco de doenças
Batatas chips, biscoitos recheados, pacotes de salgadinhos, cereais açucarados e refeições congeladas fazem parte da rotina de milhões de pessoas. Práticos, baratos e altamente palatáveis, eles também compartilham outra característica: são ultraprocessados. E um número crescente de estudos indica que o consumo frequentes desses produtos pode cobrar um alto preço da saúde intestinal.
Uma revisão científica publicada na revista científica Nutrients reuniu as principais evidências de como essa categoria de alimentos afeta a microbiota intestinal, o conjunto de microrganismos que vivem no intestino e desempenham um papel importante na digestão, na imunidade e no controle da inflamação.
Embora boa parte dos estudos ainda tenha sido realizada em animais ou em laboratório, os pesquisadores afirmam que o conjunto de dados aponta para uma mesma direção: o consumo frequente de ultraprocessados favorece um ambiente inflamatório no intestino.
A análise foi conduzida por pesquisadores da Faculdade de Medicina da Unesp de Botucatu, em parceria com pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Aalborg University, da Dinamarca.
O que acontece com a microbiota
Em condições normais, a microbiota ajuda a digerir fibras, produzir vitaminas, fortalecer a barreira intestinal e regular o sistema imunológico. Um intestino saudável abriga uma grande diversidade de microrganismos benéficos, capazes de produzir substâncias anti-inflamatórias.
O problema é que os ultraprocessados costumam combinar uma série de fatores desfavoráveis para esse ecossistema. Em geral, são ricos em açúcares, gorduras refinadas, sal e diversos aditivos, ao mesmo tempo em que oferecem pouca fibra e poucos compostos bioativos encontrados naturalmente em frutas, legumes e cereais integrais.
Segundo a revisão, esse padrão alimentar reduz a diversidade da microbiota e diminui a quantidade de bactérias consideradas protetoras. Além disso, favorece o crescimento de microrganismos associados à inflamação e a distúrbios metabólicos.
Esse desequilíbrio, conhecido como disbiose, está ligado à produção de substâncias inflamatórias e ao enfraquecimento da barreira intestinal.
Uma das principais preocupações é o aumento da permeabilidade intestinal. Quando a camada de muco e as células que revestem o intestino ficam comprometidas, fragmentos de bactérias e toxinas conseguem atravessar a parede intestinal e alcançar a corrente sanguínea.
Entre essas substâncias está o lipopolissacarídeo (LPS), capaz de ativar o sistema imunológico e estimular a produção de moléculas inflamatórias.
Esse estado de inflamação crônica de baixo grau já foi relacionado a doenças como obesidade, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e esteatose hepática, a famosa “gordura no fígado”. No intestino, também pode favorecer o desenvolvimento ou agravamento das doenças inflamatórias intestinais, como doença de Crohn e retocolite ulcerativa.
“Algumas pessoas ainda desconhecem que é possível modular a microbiota intestinal de acordo com o que se come”, explica Ligia Yukie Sassaki, gastroenterologista e professora da Faculdade de Medicina de Botucatu, uma das autoras do artigo.
“Alguém que come apenas alimentos ultraprocessados possui uma microbiota pró-inflamatória. Se consome mais fibras, a microbiota é mais saudável. Isso ocorre porque a dieta com fibras resulta na produção de substâncias chamadas de ácidos graxos de cadeia curta, que fazem o equilíbrio de todo o funcionamento do organismo”, afirma Sassaki.
Os ingredientes por trás do problema
Não é só o excesso de açúcar, sódio e gordura que preocupa. Uma característica marcante dos ultraprocessados é o uso de aditivos alimentares para melhorar textura, aparência e durabilidade. A revisão destaca que parte do impacto pode estar relacionada aos próprios aditivos usados pela indústria. Entre os ingredientes que vêm despertando maior interesse dos pesquisadores estão:
- Emulsificantes: usados para dar liga e cremosidade a produtos de panificação e recheios, têm mostrado em estudos a capacidade de reduzir bactérias produtoras de compostos benéficos e favorecer o crescimento de bactérias associadas à inflamação da mucosa intestinal;
- Adoçantes artificiais não calóricos, como sacarina, sucralose e aspartame: presentes em versões “diet” e “light” de biscoitos e salgadinhos, já foram associados a alterações na tolerância à glicose;
- Corantes sintéticos, especialmente os chamados corantes azo: muito usados para deixar salgadinhos com cores vibrantes, podem ser metabolizados por bactérias intestinais em substâncias que, em modelos animais, desencadeiam processos inflamatórios no cólon;
- Espessantes e estabilizantes: também têm mostrado potencial de interferir na camada de muco que protege a parede intestinal, dependendo da dose e da suscetibilidade individual;
- Nanopartículas e micropartículas usadas como agentes branqueadores ou antiaglomerantes em pós e recheios: estão sob investigação por seu possível impacto na produção de muco intestinal.
E a fibra adicionada aos ultraprocessados?
Nos últimos anos, virou comum encontrar produtos industrializados com alegações como “fonte de fibras” ou “rico em fibras“.
Só que a fibra adicionada isoladamente a um produto industrializado não tem o mesmo efeito da fibra que vem naturalmente de frutas, verduras e grãos integrais, acompanhada de vitaminas, minerais e outros compostos que atuam em conjunto.
Em muitos casos, esse tipo de rótulo funciona mais como estratégia de marketing do que como benefício real à saúde intestinal, podendo mascarar um produto que, no conjunto, ainda é rico em açúcar, gordura e sódio.
Além disso, uma dieta rica em ultraprocessados pode reduzir justamente as bactérias responsáveis por fermentar essas fibras, limitando seus possíveis efeitos positivos.
Existe relação com doença de Crohn?
As evidências são mais consistentes para a doença de Crohn do que para a retocolite ulcerativa. Segundo a revisão, alguns estudos de grande porte sugerem que consumir mais de cinco porções diárias de ultraprocessados ou obter mais de 20% das calorias desses alimentos está associado a alterações importantes na microbiota.
Uma das pesquisas citadas observou que, para cada aumento de 10% das calorias provenientes de ultraprocessados, o risco de desenvolver doença de Crohn aumentava em 19%.
Outro estudo, com mais de 245 mil participantes nos Estados Unidos, encontrou associação entre maior consumo de alimentos como pães ultraprocessados, cereais matinais industrializados e refeições congeladas e um risco mais elevado da doença.
Ainda assim, os autores destacam que nem todos os estudos chegaram às mesmas conclusões e que fatores como genética, tabagismo, uso de medicamentos, estresse e outros hábitos de vida também influenciam o desenvolvimento dessas doenças.
O que protege a microbiota?
A boa notícia é que o padrão alimentar parece exercer um efeito importante sobre o ecossistema intestinal. Dietas ricas em alimentos frescos e minimamente processados, especialmente a dieta mediterrânea, estão associadas a uma maior diversidade da microbiota.
Os pesquisadores concluem que reduzir o consumo de ultraprocessados e priorizar frutas, verduras, legumes, grãos integrais e outras fontes naturais de fibras continua sendo uma das estratégias mais promissoras para preservar a saúde da microbiota e, possivelmente, diminuir o risco de doenças inflamatórias intestinais.






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