Silêncio cúmplice

Outro atentado mostra que a violência partidária está ganhando terreno, enquanto políticos e autoridades obedecem a um mutismo condenável

Por Gabriel Castro - 4 maio 2018, 06h00

Na madrugada do sábado 28, um homem ainda não identificado atirou contra militantes acampados perto da Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, onde o ex-­presidente Lula está preso. O sindicalista Jeferson Lima de Menezes, de 38 anos, levou um tiro de raspão no pescoço, ficou três dias na UTI e só recebeu alta na terça-feira. Uma advogada também se feriu ao ser atingida por estilhaços. Vídeos feitos por câmeras de segurança da rua mostram o atirador disparando contra o acampamento enquanto corre na direção contrária. Os alvos relataram que, antes do ataque, houve uma troca de impropérios entre eles e o atirador. Na sexta-feira 27, o empresário Carlos Alberto Bettoni, de 56 anos, que havia sido espancado por militantes petistas diante do Instituto Lula, em São Paulo, teve alta depois de ficar 25 dias internado com traumatismo craniano.

Os dois episódios — os tiros em Curitiba e o espancamento em São Paulo — integram uma lista cada vez mais comum de casos em que o acirramento das rivalidades políticas termina em cenas de violência. Antes disso, no fim de março, um ônibus que integrava a caravana de Lula pelos estados do Sul do país foi alvo de dois tiros quando passava pelo interior do Paraná. Na terça-feira 1º, a polícia local anunciou que o ataque foi realmente planejado, mas ainda não identificou o autor, ou os autores. Além da violência radical, há outro aspecto altamente negativo nesses episódios: a leveza excessiva com que as autoridades têm reagido. Sérgio Praça, professor da Fundação Getulio Vargas e colunista do site de VEJA, diz que o papel dos políticos é decisivo num ambiente de radicalização: “A gente não pode se basear no pressuposto de que as pessoas têm vontade e tempo para discutir política nem na ideia de que elas são movidas apenas pela racionalidade. Isso tem de partir dos políticos”.

AGRESSÃO - O empresário Carlos Bettoni, espancado: 25 dias no hospital

AGRESSÃO - O empresário Carlos Bettoni, espancado: 25 dias no hospital Miguel Schincariol/AFP

Nos Estados Unidos, acadêmicos têm debatido intensamente as causas do abismo cada vez maior entre democratas e republicanos. Em 2014, uma pesquisa identificou um fenômeno batizado, em tradução livre, de “assimetria da atribuição de motivação”. Resumindo a conclusão, os republicanos se julgam movidos pelo amor, enquanto creem piamente que os democratas são motivados pelo ódio (e não apenas por ideias eventualmente erradas), e vice-versa. O mesmo vale para israelenses e palestinos. “A descrença nas instituições provavelmente incentiva a polarização porque, se as pessoas não têm fé em mediadores imparciais como o governo, vão se tornar mais suscetíveis à divisão em grupos baseados na ideologia e serão menos otimistas sobre a possibilidade de soluções não violentas”, disse a VEJA Adam Waytz, doutor em psicologia, professor da Universidade Northwestern e um dos responsáveis pelo estudo.

As consequências desse conflito de visões são preocupantes. Se os cidadãos creem que o outro lado é formado apenas por pessoas que representam o mal, enquanto eles próprios detêm a exclusividade das virtudes, o debate político descamba para a guerra de facções — ou simplesmente para a violência, como no episódio do empresário agredido por petistas ou no dos petistas alvejados por atiradores. Uma das causas óbvias para esse clima de intolerância está na retórica incendiária dos grupos políticos em choque. “A pregação da descrença na legitimidade das instituições é mais forte no PT, mas também é compartilhada por Jair Bolsonaro e por seguidores de outros candidatos”, afirma Praça. Enquanto seus líderes fazem um silêncio cúmplice, radicais de direita e de esquerda, cada um a seu modo, deixam prosperar a abordagem fascista de que o inimigo precisa ser eliminado — fisicamente, se for o caso.

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As eleições que se aproximam, com sua multiplicidade de candidatos, seriam uma excelente oportunidade para fortalecer o debate democrático; mas, até aqui, o que tem prevalecido é a exacerbação ideológica. Qual é a solução? O estudo coordenado por Adam Waytz mostrou que é necessário convencer as pessoas de que elas têm sempre algo a ganhar quando identificam adequadamente as motivações do lado oposto. Diz o pesquisador: “Se você convencer as pessoas de que vão se beneficiar caso compreendam o outro lado de forma precisa, elas ficarão mais propensas a sentar-se à mesa de negociação”. A isso se dá o nome de “diálogo”.

Publicado em VEJA de 9 de maio de 2018, edição nº 2581

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