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Sem discriminação

A Fifa tem influência para exigir respeito a direitos humanos

Por Maria Laura Canineu 15 jun 2018, 06h00

Enquanto a Rússia recebe a maior competição de futebol do planeta, a Federação Internacional de Futebol (Fifa) deve deixar claro que suas regras fora de campo são tão importantes quanto as do gramado. Ela proíbe qualquer tipo de discriminação, mas, às vésperas da competição, as autoridades russas têm violado direitos de jornalistas e defensores de direitos humanos e vêm impondo leis e políticas discriminatórias contra gays, lésbicas, bissexuais e transexuais (LGBTs). Há cinco anos, pouco antes da Olimpíada de Sochi, a Rússia aprovou uma lei contra a “propaganda gay”. Essa lei, que impede a veiculação de informações positivas sobre pessoas LGBT que possam ser vistas por crianças, contribuiu para o aumento da violência contra essa população.

Sabemos que a Fifa pode influenciar governos anfitriões. Na Copa do Mundo de 2014, ela pressionou com sucesso o Brasil para permitir a venda de cerveja nos estádios — o veto à bebida alcoólica em jogos de futebol tinha como objetivo coibir a violência entre torcidas rivais. Como a Budweiser era grande patrocinadora, o então secretário-geral da entidade reverberou que “bebidas alcoólicas são parte da Copa do Mundo”. Se a Fifa pode influenciar leis e políticas para agradar a patrocinadores, certamente pode fazer mais para defender os direitos humanos — e tem a responsabilidade de proteger torcedores, inclusive LGBTs, e a oportunidade de utilizar seu poder para o bem comum. Ela criou boas regras e regulamentos, mas muitas vezes não faz o suficiente para sair da retórica. No ano passado, apesar dos terríveis episódios de agressão contra gays na Chechênia, envolvendo tortura e espancamento, a federação colocou a capital, Grozni, na lista de locais de treinamento para a Copa.

Mais de 60 000 brasileiros compraram ingressos para assistir aos jogos na Rússia. O Itamaraty publicou recentemente um Guia Consular do Torcedor Brasileiro, recomendando aos LGBTs que evitem demonstrações públicas de afeto. A Fare, uma rede que luta contra a discriminação no futebol em todo o mundo, também os aconselhou a não dar as mãos em público durante a competição.

Agora que a bola rolou no Estádio Lujniki, de Moscou, inaugurando a Copa, está mais do que na hora de a Fifa agir e declarar publicamente que as autoridades russas devem respeitar as regras antidiscriminação e garantir uma atmosfera acolhedora para jornalistas, defensores de direitos humanos e pessoas LGBT, dentro e fora de campo. Grandes patrocinadores — incluindo Coca-Cola, Visa e Adidas — deveriam se juntar ao coro e cobrar uma posição da entidade. Bebidas alcoólicas podem fazer parte do evento, mas violações dos direitos humanos não.

Não é apenas sobre a Rússia. O Catar, que criminaliza relações homoafetivas, sediará a próxima Copa do Mundo. As preocupações com os direitos humanos no país são tantas que o McDonald’s pensa em reconsiderar o seu patrocínio depois deste Mundial. A Fifa tem poder suficiente para advertir Rússia, Catar e futuros anfitriões de que homofobia e qualquer violação dos direitos humanos não têm lugar na competição.

Publicado em VEJA de 20 de junho de 2018, edição nº 2587

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