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O supercoach

Celebridade mundial, bilionário e motivador de presidentes, o americano Tony Robbins, estrela do universo da autoajuda, faz sua primeira palestra no Brasil

Por Maria Clara Vieira 17 ago 2018, 07h00

Diante de uma plateia de 13 000 pessoas em transe, um homem de mais de 2 metros de altura e músculos de quem se exercita diariamente movimenta-se pelo palco, fala sem parar (em inglês, com tradução simultânea em fones de ouvido) e, em dado momento, põe estranhos para trocar confidências como se fossem amigos de infância. “Conte à pessoa ao lado quais são os piores sentimentos que você experimenta ao longo da semana”, convida. “Depois, abracem-se.” Sentar-se nas primeiras fileiras do espetáculo entremeado de música pop e luzes piscantes custou 5 500 reais — e todos os assentos foram ocupados. A ocasião era especialíssima: a primeira palestra no Brasil do americano Tony Robbins, 58 anos, o mais bem-sucedido expert em aprimoramento pessoal do mundo — ou coach, como a categoria é chamada hoje.

No competitivo universo do coaching, Robbins reina soberano. Da sua lista de clientes constam os ex-presi­dentes Nelson Mandela, Bill Clinton e Mikhail Gorbachev, a apresentadora Oprah Winfrey, a princesa Diana — até madre Teresa de Calcutá bebeu de sua fonte motivacional. Nascido na Califórnia como Anthony J. Mahavoric (o Robbins atual vem do pai adotivo), ele acumula um patrimônio estimado em 6 bilhões de dólares. A fortuna é fruto das vendas de três best-sellers (mais de 15 milhões de exemplares), dos concorridos seminários em um hotel de Palm Beach, na Flórida, que duram de três a sete dias e prometem “despertar o poder interior” dos participantes, e de palestras esporádicas como a que o trouxe a São Paulo por 24 horas na quinta-feira 9 — Robbins chegou, apresentou-se por quatro horas, dormiu e foi embora em seu jato particular.

Não sou guru. Não digo às pessoas o que fazer, só ensino estratégias.

Tony Robbins

O coach dos coaches não presta mais assessoria individual, mas se reúne a cada três meses com um seleto grupo de 300 clientes. Entre estes já figurou a tenista Serena Williams, que credita a Robbins sua recuperação após uma cirurgia complicada em 2011. “Eu me achava superconfiante. Depois de trabalhar com Tony, percebi que era no máximo uma nota 4. Com ele cheguei a 10”, elogia Serena. Robbins não fala sobre ex-clientes, mas abriu exceção no Brasil para contar uma história que ouviu de Gorbachev, quando lhe dava uma carona em seu avião. Contou o ex-presidente soviético que, em 1985, durante uma discussão de ânimos exaltados com o então presidente americano Ronald Reagan, este quebrou o gelo: “Isso não está funcionando. Vamos começar de novo. Oi, eu sou Ron. Posso chamá-lo de Mikhail?”.

Segundo Robbins, a atitude de Reagan demonstra o poder da comunicação emotiva, uma das linhas mestras da controvertida programação neurolinguística, método desenvolvido na década de 70 que propõe a reformatação da mente por meio da linguagem e do qual o coach americano é o maior divulgador. No palco, ele reforça a mensagem: “Quem concorda comigo diga aye (sim, em inglês antigo)”. A resposta é um “ai” retumbante. “Tony é um showman como nunca se viu na história dos palestrantes. Usa técnicas sofisticadas de movimentação no palco para evocar sentimentos e sabe escolher os participantes das demonstrações”, diz Villela da Mata, presidente da Sociedade Brasileira de Coaching. Apesar da legião de fãs incondicionais que levam a ferro e fogo suas dicas, o californiano recusa o título de guru. “Guru é alguém de quem as pessoas dependem. Não digo o que elas devem fazer, só ensino algumas estratégias. Não quero que ninguém dependa de mim”, disse a VEJA.

Em matéria de exigências excêntricas, Robbins foi até modesto na vinda ao Brasil — “A não ser pela segurança, semelhante à dos aeroportos, que contratamos especialmente para ele”, revela a empresária Elany Leão, responsável pelo evento. O coach trouxe a pequena cama elástica onde se exercita antes de subir ao palco e a temperatura no auditório ficou em exatos 16 graus para evitar sonolência na plateia. O cachê não foi revelado, mas o custo da operação girou em torno de 12 milhões de reais — 3 milhões para cada hora de palestra. As mentes reprogramadas agradecem.

Publicado em VEJA de 22 de agosto de 2018, edição nº 2596

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