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O crime contra uma voz

Marielle Franco é a primeira vítima política da barbárie do Rio. Ela foi executada, a tiros, e deixou uma indagação: a quem interessava seu assassinato?

Por Fernando Molica e Luisa Bustamante - 16 mar 2018, 06h00

Rio de Janeiro, quinta-feira, 15 de março. Sob um sol de quase 40 graus, uma multidão se reuniu nas escadarias do Palácio Pedro Ernesto, onde fica a Câmara Municipal, para homenagear Marielle Franco, a vereadora de 38 anos executada com quatro tiros na cabeça na noite anterior. Marielle era novíssima na política: eleita pelo Psol em 2016, com 46 500 votos (a quinta maior votação), entrava no segundo ano de mandato. Voz vibrante a favor das mulheres, dos negros, dos homossexuais e dos favelados — categorias em que se encaixava pessoalmente —, tinha intensa atuação dentro e fora da Câmara. A morte brutal a agigantou, ao adicionar um componente político ao inaceitável caldeirão de violência que engolfa o Rio: os disparos abateram uma pessoa eleita pelos cariocas para representá-los. Exato um mês depois de instalada, a intervenção militar nas polícias fluminenses, que imaginava ter tempo para agir, vê-se encostada na parede. “A ação federal foi desafiada pelo assassinato de Marielle”, diz a cientista social Silvia Ramos, especialista em segurança pública.

A morte da vereadora foi um ato planejado. Marielle saiu de um encontro de mulheres negras na Lapa, zona central do Rio, por volta das 21 horas. Sentou-se no lado direito do banco de trás do carro, um Chevrolet Agile branco com vidros fumê, junto da assessora; ao volante estava o motorista, Anderson Gomes, de 39 anos. Seguiram para a Tijuca, onde ela morava com a companheira, Mônica. A polícia já sabe que os ocupantes de um Chevrolet Cobalt prata os seguiram por 4 quilômetros, até uma esquina do bairro do Estácio, onde fizeram uma manobra para interceptar o carro da vereadora. Da janela, dispararam nove tiros com uma arma calibre 9 milímetros, de uso exclusivo das Forças Armadas, mirando diretamente o crânio de Marielle — sua assessora só ouviu as rajadas. Não podiam vê-la, mas sabiam onde se sentava. Gomes, que estava na linha de tiro, também foi atingido por três balas e morreu. A polícia já descartou qualquer hipótese que não seja a execução, pelo modus operandi: os criminosos não roubaram nada, já chegaram atirando e sabiam o que estavam fazendo. A assessora não foi ferida, prestou depoimento e, por segurança, seria levada para fora do Rio de Janeiro pelo Psol.

“Somos todos Marielle” – O caixão chega ao velório, na Câmara dos Vereadores: comoção popular Pablo Jacob/Agência O Globo

A notícia ganhou as redes e se espalhou com tremenda velocidade — a certa altura, era o assunto mais comentado do mundo no Twitter. Durante reunião com ministros em Brasília, o presidente Michel Temer, ao abrir o encontro, disse que se tratava de “um verdadeiro atentado ao estado de direito e à democracia”. O governador Luiz Fernando Pezão e o prefeito Marcelo Crivella se manifestaram. Artistas lamentaram o crime. O deputado estadual Marcelo Freixo, que levou Marielle para o Psol, chorou ao comentar sua morte. O choque se converteu em marchas nas ruas de pelo menos dez estados brasileiros, que também estão previstas para seis cidades no exterior, entre elas Paris e Nova York. Cartazes diziam: “Intervenção é uma farsa”.

Disparos certeiros – O carro: os atiradores sabiam onde Marielle estava Pablo Jacob/Agência O Globo

Como no Brasil politicamente polarizado tudo é visto pela lente da deformação ideológica, já apareceram críticas à enorme repercussão do crime, creditando-a ao perfil de Marielle: mulher, negra, lésbica, esquerdista. Nada mais equivocado. Seu assassinato é um símbolo dramático porque se trata de uma execução contra uma voz pública, que detinha um mandato popular. Sua morte traz à memória a carnificina de uma Medellín dos anos 90 em que o crime chegava perigosamente perto de controlar o Estado, ameaçar autoridades e abalar as instituições da Colômbia. Fosse a vítima um homem, branco, heterossexual e direitista, a gravidade não seria um milímetro menor. Por tudo isso, o presidente Temer tocou no ponto nevrálgico: é um atentado à democracia.

Desconsolada em frente ao Instituto Médico-Legal, a irmã mais nova de Marielle, Anielle Silva, desabafou: “É mais uma vítima da ausência de segurança. Dá dor e revolta. Vou lembrar dela pelo sorrisão, pela garra. Espero justiça”. O ministro da Segurança, Raul Jungmann, pôs a Polícia Federal à disposição para ajudar nas investigações, o que o recém-empossado chefe da Polícia Civil fluminense, Rivaldo Barbosa, agradeceu, mas contornou: disse que sua equipe “tem credibilidade e competência para cuidar do caso” — indício de que segue viva a rivalidade entre as forças de segurança, uma das fraquezas no combate ao crime no Rio.

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“Laboratório” – Moradores da Vila Kennedy após ação policial: operações em favelas eram alvo de denúncias da vereadora (à dir.) Márcio Alves/Agência O Globo

Por que, afinal, Marielle foi executada a tiros? Quem tinha interesse em sua morte? Informações preliminares do governo apontam para o envolvimento de milícias, como são chamados os grupos de ex-policiais que atuam na criminalidade (muitas vezes apoiados por policiais na ativa) e que sempre foram alvo das críticas da vereadora. O motivo mais citado por colegas do Psol é seu ativismo em relação a direitos humanos, escancarado em dois posts no Twitter chamando atenção para a truculência policial nas favelas. “O que está acontecendo em Acari é um absurdo! O 41º Batalhão da PM é conhecido como batalhão da morte”, escreveu Marielle em 10 de março, sobre uma operação da PM na favela da Zona Norte. Três dias depois, voltou à carga, falando de uma morte no Jacarezinho, na mesma região: “Mais um homicídio de um jovem que pode estar entrando na conta da PM. Quantos mais vão precisar morrer para que esta guerra acabe?”.

A véspera – Marielle denunciou: “Mais um homicídio de um jovem” //Reprodução

“Marielle tinha uma atuação que apresentava perigo para determinados setores. Não se executa uma vereadora como ela sem que isso tenha relação com as denúncias que estava fazendo”, diz o vereador Tarcísio Motta, pré­-candidato do Psol ao governo do Rio, que considerava fortemente ter a parlamentar como sua vice. “Ela sabia que seu discurso e a sua própria figura incomodavam: mulher, negra, da periferia, mãe ainda na adolescência, homossexual. Às vezes se cansava, mas logo voltava ao habitual bom humor”, diz Manoela Miklos, 34 anos, doutora em relações internacionais, feminista e amiga de Marielle.

A violência policial não era o único assunto das mensagens da vereadora, nem o mais frequente. Muitos comentários se referiam à situação da mulher, ao racismo e à homofobia , entremeados de críticas ao governo Temer e à intervenção na segurança do Rio de Janeiro. Mas é certo que o modo de agir da PM a incomodava — uma amiga morreu em fogo cruzado no Complexo da Maré. Em entrevista após ter sido eleita, Marielle contou que na mocidade era católica praticante e atuava na Pastoral da Juventude. Em seguida passou por um período em que curtia “baile, torcida, farra” — e aí ficou grávida da única filha, Luyara, de 20 anos, que criou sozinha e hoje mora com a tia Anielle. A gravidez adiou a entrada na universidade, mas aos 22 anos Marielle começou o curso de sociologia na PUC do Rio e depois fez mestrado em administração pública na Universidade Federal Fluminense. Ela viria a trabalhar uma década como assessora parlamentar de Freixo na área de direitos humanos e tinha bom trânsito em todas as alas. Não era radical, tinha diálogo com todas as correntes e uma atuação respeitada. Vaidosa, vestia-se com roupas e adereços coloridos ao estilo africano. Gostava de batom forte e de turbantes, que, segundo ela, “trazem realeza à mulher negra”.

No seu velório (de caixão fechado) na Câmara de Vereadores, entre gritos de “Marielle presente”, a mãe, Marinete, repetia chorando: “Ela não merecia isso”. No Facebook, Luyara, a filha, escreveu: “Mataram minha mãe e mais 46 500 eleitores”. Cerca de 60 000 pessoas são assassinadas por ano no Brasil. Não há estatísticas para medir quantas delas são executadas, como foi Marielle, mas sabe-se que não se trata da maioria. No Rio de Janeiro, 5 322 pessoas morreram violentamente em 2017 (469 só no último mês de janeiro). Decretada para pôr ordem na segurança, a intervenção militar anunciada logo depois do Carnaval teve, até agora, duas medidas visíveis. Uma foi a mudança da cúpula das polícias; outra, a presença diária na Vila Kennedy, transformada em “laboratório” da ação. A execução de uma vereadora exige que se passe, sem demora, da fase de teste à de ação. Enquanto isso não ocorrer, a pergunta da vereadora precisará ser refeita: “Quantas Marielles vão precisar morrer para que essa guerra acabe?”.

Publicado em VEJA de 21 de março de 2018, edição nº 2574

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