Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Identidade revelada

As partes íntimas expostas na tela 'A Origem do Mundo', de Courbet, pertencem a bailarina francesa, de acordo com livro a ser lançado

Mistério de mais de um século, a origem do mundo, tal qual retratada em um nu pintado por Gustave Courbet em 1866, ganhou nome e sobrenome. Um livro prestes a ser lançado na França revela que as partes íntimas (no caso, nada íntimas) expostas de maneira ultrarrealista na tela A Origem do Mundo pertencem “com 99% de certeza” à francesa Constance Queniaux, uma bailarina amante do diplomata e bon vivant egípcio Halil Pasha, que teria encomendado a obra a Courbet.

Endividado, Pasha pôs o quadro à venda e ele passou por uma série de colecionadores, sendo o último o psicanalista Jacques Lacan, que arrematou a tela em 1955 e a pendurou na parede de sua casa de campo. Disfarçadamente: por mais transgressor que fosse, ele preferiu acomodar a pintura em uma moldura dupla que exibia na frente uma versão surrealista do torso despido. Depois da morte de Lacan, a família firmou um acordo tributário com o governo francês, e A Origem do Mundo foi integrada ao acervo do Museu d’Orsay, em Paris. Por muito tempo se atribuiu a identidade da modelo à irlandesa Joanna Hiffernan, namorada de Courbet, mas um detalhe sempre atrapalhou a suposição: Joanna era ruiva natural; a mulher do quadro, definitivamente, não é. A descoberta do nome de Constance se deu por acaso, quando o historiador francês Claude Schopp examinou com cuidado uma correspondência de Alexandre Dumas Filho que fazia referência ao quadro. A revelação foi feita em entrevista de Schopp divulgada na terça 25.


PRECURSOR DA BOSSA NOVA

 (Leo Pinheiro/Valor/Agência O Globo)

Antes do violão e da voz de João Gilberto, que Gilberto Gil definiria como um tipo de “samba desossado”, houve o samba-canção de Chauki Maddi, paulista de Pirajuí que ficou conhecido como Tito Madi. Ao subtrair das baladas de amor e dor de cotovelo os exageros de vozes mais poderosas e melodramáticas do passado recente, reduzindo-as ao essencial, de canto pequeno e preciso, fez escola e criou discípulos. Além de João Gilberto, grandes nomes como Roberto Carlos e Wilson Simonal sempre gostaram de destacar o espanto que lhes provocara a audição de Madi e de outro compositor e intérprete de mesma linhagem, Johnny Alf (1929-2010). Um dos clássicos de Madi, o mais regravado, é a bonita Chove Lá Fora, de 1957: “A noite está tão fria / Chove lá fora / E essa saudade enjoada / Não vai embora”. Bem-­humorado, nunca gostou de cultivar o personagem melancólico que lhe atribuíram. “A vida não é um samba-canção. Meus sambas-canções são sofridos, mas minha vida não. Eu crio um estado de tristeza para gerar essas músicas”, disse em 2009 em entrevista ao jornal O Globo. “Não chovia quando compus Chove Lá Fora.” Morreu na quarta-feira 26, no Rio, de complicações de uma pneumonia. Tinha 89 anos.

 

Publicado em VEJA de 3 de outubro de 2018, edição nº 2602