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“É preciso ser antirracista”

A filha de Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank, de 4 anos, é vítima de ataque racista em rede social. Ele prestou queixa, atitude cada vez mais comum no país

A fofíssima Chissomo, apelido Titi, tem só 4 anos e mora há apenas um no Rio, desde que foi adotada pelo casal de atores Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank, no Malaui, onde ela nasceu. Pois nesse curto período já foi duas vezes alvo de manifestações racistas na internet — isso em um país onde a maioria da população é negra ou parda. A mais recente aconteceu no domingo 26: em um vídeo no Instagram, Dayane Alcântara, declarados 28 anos, apelido Day McCarthy, chamou Titi de “macaca” com “nariz de preto, horrível”. Gagliasso prestou queixa em uma delegacia, e, ao sair, afirmou: “Foi uma covardia. Mas a responsável vai ser presa”.

É pouco provável que Dayane acabe atrás das grades. Ao que tudo indica, ela não mora no Brasil. Natural de Vitória, no Espírito Santo, deve estar, segundo a polícia, vivendo ilegalmente no Canadá ou nos Estados Unidos, onde chegou a ser presa por prostituição. Se estivesse aqui, ela seria, com alta probabilidade, julgada pelo crime de injúria racial contra indivíduos, que costuma render penas mais amenas que as da Lei do Racismo, de maior amplitude. Há um ano, outra foto de Titi, publicada pela mãe, foi alvo de preconceito. “Você e seu marido até que combinam, mas a criança que vocês adotaram não combinou muito porque ela é pretinha, e lugar de preto é na África”, dizia o texto. A autora, uma adolescente de São Paulo, foi identificada, respondeu a inquérito e cumpre medida socioeducativa.

A punição pode não ser grande coisa, mas as denúncias de intolerância e preconceito não param de crescer. No Estado do Rio, segundo o Instituto de Segurança Pública, são denunciados, em média, 97 casos de intolerância racial por mês. Entre janeiro e setembro deste ano, 837 pessoas sofreram preconceito, 43 por causa da cor da pele. Depois de prestar queixa, Gagliasso postou uma frase da ativista americana Angela Davis: “Em uma sociedade racista, não basta não ser racista; é preciso ser antirracista”.

Publicado em VEJA de 6 de dezembro de 2017, edição nº 2559