Delimitar para deixar como está

O que um festival de cinema tem a ver com a “profecia” de Jucá

Por Fernando Grostein Andrade - 4 maio 2018, 06h00

O documentário Missão 115, exibido no festival É Tudo Verdade, jogou luz sobre um clássico caso de terrorismo de Estado: a bomba do Riocentro. Ilustrado com reportagens de VEJA que documentaram a prática assassina de militares na tentativa de conter o processo de abertura democrática no fim dos anos 80, o filme revela que a Comissão da Verdade só teve acesso a documentos militares secretos por acaso: a viúva de um militar da Marinha achou microfilmes nas coisas do falecido.

A corrupção, hoje, toma conta não só dos orçamentos do governo, mas também da verdade. Porque, mesmo que às vezes exista mais de uma verdade, também existe a mentira. E a corrupção chegou a tal ponto que se travestiu de combate à corrupção. Lembremos a célebre conversa ocorrida em março de 2016, com Dilma Rousseff ainda na Presidência da República, em que o então ministro do Planejamento, o senador Romero Jucá (MDB-RR), fala em “estancar a sangria” da Lava-Jato. Seu interlocutor é o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado. É pedagógico rememorar:

Machado: “É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional”.

Jucá: “Com Supremo, com tudo”.

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Machado: “Com tudo, aí parava tudo”.

Jucá: “É. Delimitava onde está, pronto”.

A desculpa, como sempre, era a governabilidade. Quantos congressistas, como o senador Aécio Neves (PSDB-­MG), não votaram pelo afastamento de Dilma falando em combate à corrupção e agora são acusados de corrupção, com fartas evidências? Quantos supostos defensores da Lava-Jato não pegaram o microfone travestidos de paladinos da Justiça e se revelaram corruptos?

Delimitar é um expediente brasileiro: a Lei da Anistia, que foi criada para limpar a barra da elite militar dos assassinatos que cometeu financiada por alguns empresários brasileiros, deixou de fora, por exemplo, os praças do Exército.

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Outro filme do É Tudo Verdade, do qual fui jurado, expôs mais uma face do terrorismo de Estado. Auto de Resistência revela que milhares das mais de 10 000 mortes identificadas como “auto de resistência” no Rio de Janeiro podem ter sido, em sua imensa maioria, execuções.

O problema da caça às bruxas da corrupção é que ela esconde muitas vezes a mais perversa das mentiras. Existe uma banda podre da elite brasileira (eu disse uma “banda”, portanto “uma parte”) que é predatória e quer se manter na órbita do poder a qualquer custo: por meio de créditos, contratos, leis especiais, tributações vips. Para tanto, não só mente, mas mata o futuro desviando dinheiro, tentando limitar a Justiça e buscando manipular a imprensa por meio de contratos publicitários públicos.

Pergunto: mesmo diante de tanto esforço por parte da sociedade, incluídos juízes e procuradores, para estabelecer uma nova Justiça no Brasil, sejamos francos — será que estamos de fato combatendo a corrupção ou apenas delimitando-a, para que continue a prosperar de forma mais sofisticada?

Publicado em VEJA de 9 de maio de 2018, edição nº 2581

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