Oferta Inédita: Assine por apenas 7,99

Os desafios da nossa democracia

Devemos assegurar a convivência harmônica entre os diversos

Por Murillo de Aragão 20 dez 2019, 06h00 | Atualizado em 4 jun 2024, 14h49
Os desafios da nossa democracia Priorizar nos meus resultados Google

De forma sub-reptícia ou declarada, há variados e sucessivos questionamentos quanto à eficiência da democracia como forma legítima de governo. Mas o que poucos percebem é que uma democracia fraca é uma rodovia aberta para a autocracia e para a ditadura. Adolf Hitler e Hugo Chávez são dois bons exemplos de exploração das contradições e das fragilidades do sistema. Se elas não existissem, nenhum dos dois teria chegado ao poder — na Alemanha e na Venezuela, respectivamente — e, a partir daí, construído regimes de exceção.

A fragilidade de uma democracia se evidencia quando as instituições não respondem aos desafios impostos pela conjuntura política, econômica e social. Tal fragilidade quase sempre decorre de aspectos estruturais que envolvem educação precária, ausência de liberdade de imprensa e falta de independência entre os poderes da República. Ocorre ainda devido à inexistência de eleições livres e justas. Também em consequência de aspectos conjunturais, como o desempenho da economia, a ausência de segurança pública, corrupção e a precariedade dos serviços públicos.

“Poucos percebem que uma democracia fraca é uma rodovia aberta para a autocracia e para a ditadura”

Em 1994, o cientista político Philippe Schmitter apontava dois riscos relevantes para a democracia: a desilusão com o desempenho real do sistema e a incapacidade de produzir um conjunto aceitável e previsível de regras para a competição e a cooperação políticas. Nesse tempo não existiam as redes sociais. Adiante, em 2013, o escritor venezuelano Moisés Naím mostrou no livro O Fim do Poder que a combinação de governos ineficientes com maior transparência e fluxo das informações fazia acelerar a desconfiança nas instituições. Para ele, essa situação produziria o maior dos riscos para a democracia: um tipo excepcionalmente perigoso de alienação descontente que leva as pessoas a se distanciar da política.

Não são poucos os que acreditam que a democracia brasileira hoje está em perigo. Tais narrativas são sustentadas por alas derrotadas da esquerda nacional, alinhadas com o universo politicamente correto e desafiadas pelas políticas conservadoras implementadas pelo governo. Mas essas narrativas também são alimentadas pelos setores mais radicais da ultradireita que apoiam o governo. Radicais não querem a democracia. A polarização pode ter o efeito perverso de afastar os que estão no centro do processo político. É um risco.

Continua após a publicidade

Nos momentos de polarização, que também são inerentes ao processo democrático, devemos aceitar o pensamento divergente e o que é contraditório às nossas crenças. A humanidade evolui mudando de ideias. Citando novamente Moisés Naím, o grande desafio para a democracia é aprender a organizar governos com pessoas que se odeiam e, acrescento eu, com projetos opostos. Não preconizo o império do consenso, mas a vontade da maioria dentro dos marcos constitucionais que nós mesmos estabelecemos em nossa Constituição. Assim não devemos nos distanciar da política. Tampouco atuar apenas em função de nossos interesses. A democracia nos impõe princípios que podem assegurar a convivência harmônica entre os diversos. E esses princípios devem ser valorizados e protegidos pela participação de todos.

Publicado em VEJA de 25 de dezembro de 2019, edição nº 2666

Publicidade
TAGS:

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Estádio de futebol lotado com bandeira do Brasil e bola no campo, e um jogador de camisa amarela comemorando. À direita, capas de revistas Veja, Super, Viagem e Quatro Rodas flutuando sobre fundo verde escuroTorcedor de costas, vestindo camisa amarela, comemora com os braços erguidos em um estádio de futebol lotado, sob um céu verde-azulado. Uma bola de futebol com a bandeira do Brasil está no campo. À direita, um fundo verde escuro com um pequeno ícone de árvore branca no canto inferior direito
OFERTA CAMPEÂ

Digital Básico

A notícia em tempo real na palma da sua mão!
Chega de esperar! Informação quente, direto da fonte, onde você estiver.
De: R$ 14,99/mês Apenas R$ 2,99/mês
ECONOMIZE ATÉ 29% OFF

Revista em Casa + Digital Premium

Receba 4 revistas de Veja no mês, além de todos os benefícios do plano Digital Completo (cada revista sai por menos de R$ 10,00) + Abril Signature Ouro, o novo programa de benefícios da Abril, que te dá acesso a descontos exclusivos e cashback em centenas de estabelecimentos.
De: R$ 55,90/mês
A partir de R$ 39,99/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$35,88, equivalente a R$2,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).