O plano original de Vorcaro derrubado com a saída de Toffoli do caso Master
Empresário estava pronto para assumir crime de gestão temerária para tentar se livrar de inquérito no Supremo Tribunal Federal
Com a escolha do ministro Dias Toffoli como relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal (STF), Daniel Vorcaro tinha alinhavado uma estratégia jurídica que, na pior das hipóteses, previa que ele confessasse apenas o crime de gestão temerária, levasse o caso para a primeira instância e pagasse uma bolada para se livrar das amarras da justiça, disseram a VEJA interlocutores com acesso ao ex-dono do banco símbolo do maior escândalo financeiro da história do país.
O ardil, continuam os interlocutores, contava como premissa necessária a presença de Dias Toffoli na relatoria, o que caiu por terra desde que a Corte, premida pelas revelações de que o magistrado foi sócio de um resort vendido a um fundo ligado ao Master, decidiu entregar o caso a outro ministro.
Gerir de forma temerária uma instituição financeira, como indicava a primeira estratégia de Vorcaro, se caracteriza, por exemplo, pelo desprezo às normas de gestão de um banco. Dois exemplos são sintomáticos do modus operandi do Master: em 18 de novembro de 2025, data da liquidação da instituição pelo Banco Central, os valores em caixa eram dez vezes menores do que o fluxo de CDBs que venceriam naquele dia, enquanto o estoque de compulsórios recolhidos na mesma data era de menos de 1% do exigido pelo BC.
O crime de gestão temerária prevê pena de dois a oito anos de cadeia, além de multa, que interlocutores de Vorcaro estimam que ficaria na casa das centenas de milhões – e que ele concordaria em pagar.
A hipótese de gestão temerária tem como pano de fundo também a ideia de que o ex-dono do Master tentaria afastar a imputação de gestão fraudulenta, crime mais grave (e com penas de até 12 anos de cadeia) e que exige atuações enganosas dolosas para causar prejuízo, além de má-fé na administração do banco. Na tentativa de compra pelo BRB, como se sabe, o Master repassou papeis podres para o Banco de Brasília em uma fraude de mais de 12 bilhões de reais. Todo o escândalo do Master ultrapassa os 50 bilhões.
Com a ascensão de André Mendonça como novo relator das investigações que apuram a controversa venda da instituição financeira para o BRB, interlocutores de Vorcaro acreditam ter agora menos margem para negociação, ainda que o magistrado tenha permitido na quinta-feira, 26, que dois irmãos de Toffoli sócios do resort Tayayá não sejam obrigados a comparecer à CPI do Crime Organizado, colegiado que tenta fechar o cerco não só contra os familiares do ministro, mas também contra o filho do presidente Lula, Fábio Luís Lula da Silva.
Em uma votação turbulenta – com direito inclusive a acusações de manipulação de votos – o colegiado aprovou a quebra dos sigilos fiscal e bancário de Lulinha e a encomenda de um relatório de inteligência financeira com as movimentações do primogênito do petista entre 2022 e 2026.
Como novo responsável por pilotar o inquérito do Master no Supremo, André Mendonça tem declarado a pessoas próximas que, por cautela, pretende manter todo o caso no STF para evitar eventuais nulidades e atrasos na investigação. É que, na hipótese de ele declinar de imediato da competência e remeter a investigação para a primeira instância, a provável menção a figurões da política levaria o processo de volta à Corte porque deputados federais, senadores e ministros de Estado têm foro privilegiado. De acordo com interlocutores do ministro, ele quer evitar que uma futura operação de busca e apreensão que esbarre de um parlamentar leve a investigação toda a ser temporariamente suspensa e depois remetida de volta ao STF.





