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Luta pela alma do Brasil

Bolsonaro é o presidente das guerras culturais: venceu mantendo as bases eletrizadas com um discurso pesado em temas morais e vago em assuntos de governança

Por Eduardo Wolf 30 nov 2018, 07h00

Faz pouco mais de um ano que uma matéria do jornal The New York Times afirmou que Donald Trump e alguns de seus principais assessores na Casa Branca reconheciam, nos bastidores, que o presidente americano se via “lutando uma guerra cultural em defesa de sua base”, isto é, o eleitorado branco sem ensino superior, condenado pelas novas configurações econômicas a trabalhos precários — ou ao desemprego. Trump dominou como poucos a gramática do conflito ideológico que politizou cada aspecto da vida americana, e mantém os vínculos com sua base eleitoral não apresentando propostas sobre temas elaborados da grande política, da economia ou da diplomacia, mas sim alimentando o ressentimento dos derrotados da economia globalizada que lhe garantiram um mandato contra as “elites politicamente corretas” — daí o ataque aos jogadores negros de futebol americano que protestam em campo contra o racismo ou as mensagens em rede social contra artistas ou jornalistas. Na “guerra pela alma da nação” — a famosa expressão do republicano extremista Patrick Buchanan que, em 1992, sintetizou a guerra cultural nos Estados Unidos —, a construção de identidades, o controle de narrativas e a manipulação populista são as armas básicas no campo de batalha.

Quem quiser compreender de maneira mais completa como se deu a eleição de Jair Bolsonaro à Presidência do Brasil deverá ter em mente, entre outras tantas variáveis, esse cenário americano. Não tenha dúvida: a razão pela qual pouco ou nada se falou na campanha eleitoral do alcance das privatizações, da reforma da Previdência ou das alianças que dariam a cara do futuro governo (todos, é claro, temas essenciais em uma disputa presidencial), mas muito se disse sobre “Foro de São Paulo”, “comunismo” e “ideologia de gênero”, é esta: Jair Bolsonaro é o presidente das guerras culturais no Brasil. Essa constatação em nada diminui a relevância ou a correção de análises centradas em outros aspectos da eleição, como o consolidado sentimento antipetista que hoje marca a sociedade brasileira ou a virada ideológica que vem se desenvolvendo no mínimo desde 2013 e que ajudou a impulsionar a primeira candidatura abertamente de direita a faturar a Presidência em décadas. Antes, tra­ta-se de entender como esses fatores foram componentes de uma nova dinâmica na política brasileira.

A guerra cultural, como outras dinâmicas de disputas políticas, depende de uma polarização política para florescer. Sociedades divididas apenas sobre tópicos específicos — a aprovação desta ou daquela lei particular — dificilmente mergulham em polarizações radicais. Contudo, quando envolve mais amplamente os valores partilhados e a imagem da própria nação, a polarização tende a ser mais intensa e duradoura, e a dinâmica da guerra cultural se instala. Do jogo do “nós contra eles”, que durante mais de uma década foi dominado pelo PT com uma retórica de classe social, emergiu o discurso do resgate da nação ameaçada. “Take our country back” — “tomar nosso país de volta” — foi um slogan entoado por Trump e seus apoiadores. Em versão um tanto improvisada, o mesmo tema apareceu nas frases finais de Bolsonaro em seu primeiro vídeo após a divulgação da vitória, em 28 de outubro, quando anunciou que tinha a missão de “resgatar o nosso Brasil”. Comunistas, socialistas, globalistas ou, mais simplesmente, a “petralhada” são os sequestradores do país, responsáveis por sua ruína. Não são apenas adversários no jogo dos grupos políticos concorrentes, e sim “inimigos da nação”. Assim, a guerra cultural mistura o adversário real — os governos petistas e suas políticas (suficientemente desastrosas para merecer oposição) — com a fantasia retórica poderosa do “inimigo da nação”, que precisa ser “varrido do mapa”. Cria-se um novo “nós contra eles”, distinto daquele estabelecido pelo petismo, mas com lógica semelhante: de um lado, “patriotas” e “cidadãos de bem”; de outro, fantasmagorias várias — a “ameaça comunista”, os “complôs globalistas”, a “ideologia de gênero” etc.

A crença em uma identidade inalterável das nações é indispensável para mobilizar os guerreiros culturais

Esse tipo de retórica depende de uma característica fundamental das guerras culturais: a crença de que existe uma essência, uma identidade profunda e inalterável da nação ou da sociedade, e de que ela está sob ataque. Pode ser a América Grande de outrora na retórica de Trump, o Brasil conservador dos discursos triunfalistas dos apoiadores de Bolsonaro, ou ainda o Ocidente cristão, conspurcado por esquerdistas vários, que o novo chanceler brasileiro sonha em restaurar. Nações não têm essências fixas ou identidades imutáveis, mas a crença nisso é indispensável para mobilizar tropas de guerreiros culturais, especialmente quando as batalhas são travadas no confortável terreno das mídias sociais — e Bolsonaro, como Trump, venceu todas nessa seara. A formação em massa de seguidores, o compartilhamento instantâneo de conteúdos, pouco importa se falsos ou verdadeiros, e o acirramento dos ânimos políticos são potencializados por redes como o Facebook, o Twitter e o WhatsApp. Foram o terreno preferido de Bolsonaro durante a campanha, e têm sido seu veículo principal de comunicação após a vitória, com suas lives improvisadas (com cuidado?), nas quais são exibidos os símbolos de seu campo na guerra cultural — como a Bíblia e os livros de Olavo de Carvalho, guru da direita de internet que chega agora ao poder.

Não se trava uma guerra cultural discutindo modelos de câmbio, meta de inflação e tecnicalidades de privatização de estatais. Essa consciência — lição bem aprendida da experiência de Trump — permitiu a Bolsonaro, de um lado, manter-se na superfície em todas as questões relevantes para a economia e o desenvolvimento do país e, de outro, consolidar e ampliar sua campanha em terreno mais propício: o dos valores morais que estariam no centro da identidade do Brasil conservador que ele, em tese, encarna e representa. Daí a estratégia: atacar o politicamente correto, a doutrinação ideológica nas escolas, a sexualização das crianças e a ideologia de gênero, as pautas identitárias caras à esquerda. E atacar a imprensa, que seria manipuladora e conspiratória — exatamente como pregavam os discursos da esquerda, só que com sinal ideológico trocado.

Uma vez utilizada a dinâmica da guerra cultural para vencer a eleição, não há indícios de que o presidente eleito tenha intenção de abandoná-la. Bolsonaro segue fazendo uso dos canais de comunicação direta com suas bases, em detrimento da aceitação das lentes e filtros da imprensa profissional, por exemplo. Se for vitorioso no terreno da política convencional, aprovando seus projetos, ele poderá levar a reboque sua agenda moral, modulando sua importância ao seu gosto; caso acumule derrotas políticas, poderá compensá-las radicalizando as pautas ideológicas e morais. A guerra cultural está aí para manter a base eletrizada, mesmo. Nesse jogo duplo, o presidente eleito pode seguir as regras da política formal exigidas pela democracia com uma mão e atacá-las com a outra. Como o PT fazia com sua retórica de classes, só que agora com os novos avatares dos “patriotas” e “salvadores do Ocidente”.

* Eduardo Wolf é doutor em filosofia pela USP, editor do Estado da Arte e prepara um livro sobre as guerras culturais

Publicado em VEJA de 5 de dezembro de 2018, edição nº 2611

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