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Flávio Dino: ‘Farei campanha para Huck em um 2º turno contra Bolsonaro’

Com interesse de concorrer à Presidência em 2022, governador pondera que o apresentador ainda não se tornou um nome competitivo para desbancar o lulismo

Por Edoardo Ghirotto - 15 fev 2020, 10h05

O governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), está disposto a tentar a Presidência da República em 2022 se conseguir a sustentação de várias forças políticas para a sua candidatura. Dino vem se transformando em uma das principais lideranças do campo da esquerda fora do PT. Antagonista do presidente Jair Bolsonaro, ele tem se reunido com personalidades do centro e da direita para discutir propostas e projeções para o país. Entre seus interlocutores está o apresentador Luciano Huck, outro possível presidenciável.

Dino recebeu a VEJA na sala de reuniões do Palácio dos Leões, a sede do governo maranhense, em São Luís. Na parede, um quadro mostra Dino em encontros com os ex-presidentes petistas Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff e com o tucano Fernando Henrique Cardoso, além de reuniões com outras personalidades, como o papa Francisco e Pelé.

“O Huck não está aí porque não tenho uma foto com ele”, diz, aos risos. Ele aposta que o segundo turno da eleição presidencial será entre Bolsonaro e um candidato apoiado pelo PT, mas admite que fará campanha para Huck se o apresentador se viabilizar para o segundo turno. “Não basta só votar”, afirma.

Na edição de VEJA desta semana, Dino faz um balanço sobre a sua administração no Maranhão, defendendo uma gestão que logrou êxitos no campo social, mas que tem se mostrado temerária em relação às contas públicas do estado. Na entrevista abaixo, o governador fala sobre o desejo de reunir diversas forças políticas em torno de um projeto presidencial. Caso não consiga, ele afirma que será candidato ao Senado em 2022.

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O senhor tem sido apontado há algum tempo como uma liderança em ascensão no campo da esquerda. Antagonizar com o Bolsonaro ajudou na formação dessa condição? Considero essa classificação como uma consequência de um trabalho. Não é algo que eu busco como objetivo de vida. Meu foco continua sendo o Maranhão, então vejo que isso ocorre em função de um trabalho acumulativo. Eu fui juiz federal e deputado. Sou servidor público há 30 anos nos três Poderes. É um processo de acúmulo. Não é algo que faz a diferença na minha vida, eu toco como sempre toquei. Tenho posições claras e sempre acho que o diálogo é possível. Não busco ser um antagonista a Bolsonaro. Se ele me escolheu, então o desconforto é dele, não meu.

O senhor defende a formação de uma frente ampla para as eleições de 2022. Isso é possível com a estrutura político e partidária do Brasil? No primeiro turno, seria uma utopia. Mas, como alternativa a isso, a primeira coisa a se fazer é continuar defendendo a frente ampla. Ela não é só eleitoral. É um instrumento de atuação para a conjuntura. Ela sai vitoriosa todas as vezes em que se constitui. Esse senhor nazista do governo Bolsonaro, o ex-secretário de Cultura Roberto Alvim, só caiu porque se formou uma frente ampla que me uniu aos presidentes da Câmara e do Senado, ao Luciano Huck e ao João Doria. Todos estavam dizendo a mesma coisa. Isso é Frente Ampla. Você tem convergências pontuais, então consegue transcender as fronteiras da sua posição ideológica. Mesmo não sendo possível num primeiro turno, as eleições para cargos executivos são definidas em dois turnos. Na última eleição, houve uma frente ampla contra a esquerda, e por isso nós perdemos. Agora, eu quero uma que seja ao nosso favor.

O ex-presidente Lula tem sido um empecilho para a formação de uma frente ampla? Pelo contrário. Acredito que o Lula concorda com minha visão, porque já demonstrou isso na prática em 2002 com a escolha de José Alencar como vice-presidente. Lula passou por um evento grave, trágico e abjeto, que foi uma prisão arbitrária. Essa prisão arbitrária cria uma série de sentimentos. No arco da história que vem para frente, eu não acredito que o Lula vá negar o que sempre fez. Ele sempre buscou amplitude. E nós só ganhamos eleições quando formamos amplitude. A resposta para a dificuldade de se formar frentes amplas não é negar a importância delas. Se fizermos isso, nos colocaremos no pior lugar que existe para a ação politica, que é o isolamento. Não se pode desejar o isolamento. O Bolsonaro só ganhou a eleição porque essa força se formou contra nós. Em condições normais, é impossível que uma pessoa tão despreparada seja eleita.

O senhor apoiaria Luciano Huck num eventual segundo turno contra o Bolsonaro? Outro dia, eu disse que se o segundo turno tivesse sido entre o Bolsonaro e o Geraldo Alckmin, eu teria feito campanha para o Alckmin. Não é só votar. Claro que, se o segundo turno for entre o Huck e o Bolsonaro, com certeza estarei fazendo campanha pelo Luciano Huck.

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Uma candidatura de Luciano Huck seria competitiva para chegar ao segundo turno? Ainda não. Hoje, se houvesse eleições, seria o candidato do Lula contra o Bolsonaro. Mas, daqui a dois, dependerá de uma série de fatores, como o patamar da economia e o nível de desgaste do próprio Bolsonaro. Sem medo de errar, digo que é muito mais provável que a esquerda esteja no segundo turno do que fora dele. E aí estou falando da esquerda, do lulismo.

Sua candidatura à Presidência seria competitiva? O senhor planeja entrar na disputa para concorrer ao cargo ou como vice de alguém? Não existe candidatura a vice. Vice é uma escolha do titular. Eu só seria competitivo hoje se houvesse um conjunto de forças que sustentasse a candidatura. É um processo em curso, em andamento. Uma candidatura à Presidência pode se colocar se houver um conjunto de forças me apoiando. Você não disputa uma eleição majoritária sozinho. Eu ganhei a eleição de governador duas vezes porque tinha um movimento coletivo de partidos que me sustentou. Eu não ganhei porque sou bom. Se não houver esse conjunto de forças, então é claro que sou candidato ao Senado pelo Maranhão. E, se houvesse eleição hoje, o segundo turno seria entre Fernando Haddad e Bolsonaro, sendo que eu estaria novamente com Haddad, distribuindo panfleto nas ruas.

O senhor foi convidado para se filiar ao PT? Como interpretou a declaração da presidente do partido, Gleisi Hoffmann, de que poderá ser o cabeça de chapa da sigla em 2022? Convite eu considero quando é: ‘venha para o PT ser candidato’. Isso não aconteceu de forma alguma. Com relação à declaração da Gleisi, eu fiquei feliz, é óbvio. Mas há muita especulação. Eu vou me encontrar nesta semana com o Carlos Siqueira, presidente do PSB, que é meu amigo. Logo vão estar dizendo que eu vou me filiar ao PSB também.

Deixar o PCdoB até as eleições de 2022 é uma possibilidade? Acredito que, em 2021, não só o PCdoB, mas outros partidos passarão por um período de depuração. Eu defendo há muitos anos que façamos um processo parecido com a Frente Ampla, do Uruguai, ou com a Concertación, do Chile. Defendo a incorporação de vários partidos sem que haja a perda da identidade. O PCdoB vai mudar. O PCdoB de hoje já não é o de cinco anos atrás, porque é fruto de uma fusão com o PPL. Algo será feito em 2021. E eu estarei junto nesse movimento.

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Nesse cenário de mudanças, o senhor foi uma das vozes no PCdoB que apoiou a troca da foice e do martelo por uma identidade visual voltada para as cores da bandeira do Brasil. Por quê? Trocar a foice e o martelo pelo verde e amarelo é uma tática eleitoral. O PCdoB fará 100 anos em 2022. Ao longo do tempo, houve uma campanha muito forte de destruição da marca do partido. O que importa é o nosso programa e o seu conteúdo. Às vezes, eu me espanto com o espanto de que o PCdoB não pode mudar seu símbolo. Quantos partidos de esquerda e de direita já mudaram de símbolo e de nome. No mundo do trabalho, graças a Deus, nós trabalhamos cada vez menos com foices e martelos. Essa é uma simbologia que remete ao século XIX. As imagens precisam se adequar às realidades e, hoje, isso não é compreendido por um vasto segmento de trabalhadores que, às vezes, nem sequer conhecem uma foice.

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