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Erick Witzel sobre o pai, governador do Rio: ‘Voltamos a nos falar’

Em depoimento, ele fala sobre a relação com Wilson Witzel, que foi abalada após o ex-juiz expor a transição de gênero do filho

As últimas eleições mexeram muito com todas as famílias brasileiras. Com a minha também, mas, para mim, a situação foi mais intensa: meu pai foi candidato. E ganhou.

Eu e meu pai, o atual governador do Rio, Wilson Witzel, sempre tivemos uma relação tranquila. Ele me levava para jogar tênis no clube e cantava para eu dormir — apesar de ser muito carinhoso, era péssimo cantor. Adorava estar ao seu lado, e lembro que as pessoas falavam muito bem dele.

Ele nunca se exaltou comigo, muito menos me bateu. Por volta dos meus 10 anos, meu pai escolheu seguir outro caminho e começou a construção de uma nova família. Separações, em sua maioria, são difíceis. Houve traumas e choro, eu não sabia como lidar com aquela situação. Nós nos víamos e nos falávamos com certa frequência. Ele se mudou para perto da praia, onde fazíamos passeios e dávamos risadas juntos.

Bem mais velho que meus três irmãos, não tenho tantas lembranças deles desse tempo. Éramos mesmo eu, meu pai e minha madrasta, que sempre foi bastante gentil comigo. Acredito que minhas aflições começaram a ficar evidentes depois dessa época, por volta dos meus 17 anos. Embora nossa relação fosse amistosa, não havia muito aprofundamento nos diálogos sobre questões mais sérias. Hoje entendo que isso se devia mais à falta de convivência do que a qualquer outra razão.

Desde a adolescência eu me enxergava como pessoa LGBT, porém foi aos 18 anos que dei início à minha transição de gênero. Foi uma caminhada intensa. Tratei dessa questão só com minha mãe, que sempre me apoiou, e com pouquíssimas pessoas. Era quase um segredo. Saí da casa da minha mãe, por muitos fatores, aos 19 anos, para continuar a trajetória de mudanças. Meu pai percebeu que algo acontecia, claro, afinal as transformações físicas ficavam mais aparentes a cada dia. Lembro que um dia ele indagou se era isso mesmo, se eu era uma pessoa trans. Não nesses termos. Dentro do que ele conhecia à época, no entanto, foi o que quis dizer.

Meu pai e a esposa me perguntaram como deveriam me chamar. Respondi: Erick. E assim fui chamado desde então. Eles contaram aos meus irmãos e houve a preocupação de recomendar que me tratassem pelo meu novo nome, de adaptá-los às mudanças. Nesse período nos víamos pouco e já não morávamos juntos havia anos.

Meses antes das eleições, ouvi com muito espanto sua intenção de se candidatar — e ainda por um partido conservador. Ele me alertou sobre as implicações de entrar para a política, e a inevitável exposição da família. A certeza de que ganharia era absoluta. Pedi discrição, que não falasse de mim. Sempre tive medo da violência. Nunca quis ser uma pessoa pública, muito menos nesse cenário. Contudo, aconteceu: numa entrevista de rádio, meu pai foi indagado sobre como lidava com as diferenças e, contra a minha vontade, contou sobre o filho trans. Quando expressei meu descontentamento com o resultado do primeiro turno em uma rede social, o tsunami me pegou. Recebi mais de 300 mensagens e um sem-número de ligações antes de decidir desligar o celular. Fui procurado incessantemente por repórteres e curiosos até o fim das eleições.

Não nos falamos por meses. Felizmente o tempo passou e os pensamentos se reestruturaram. No aniversário do meu irmão, em junho, fui, a convite do meu pai, ao Palácio das Laranjeiras, onde nunca pensei que pisaria. Conversamos sobre tudo, francamente, como família. Por fim nos entendemos. Temos visões políticas muito diferentes, entretanto precisamos dialogar se queremos viver em harmonia. Voltamos a nos falar, por mensagem e por telefone, mas não nos encontramos depois daquele dia. Assim espero que continuemos daqui para a frente: concordando em discordar, porém em paz. As famílias sempre lavam a roupa suja, no entanto minha família a lavou em público.

Depoimento a Victor Irajá

Publicado em VEJA de 17 de julho de 2019, edição nº 2643

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