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Ciro Nogueira está de volta ao centro do poder

Influente em um bloco que reúne mais de 200 deputados, senador é reverenciado no Planalto como o mais novo aliado do governo Bolsonaro

Por Marcela Mattos Atualizado em 19 jun 2020, 12h13 - Publicado em 19 jun 2020, 06h00

O senador Ciro Nogueira (PI) tem um patrimônio declarado de 23 milhões de reais, que inclui um avião e um Camaro, mas circula pelas ruas de Brasília na singela moto Honda, avaliada em 20 000 reais, que ilustra estas páginas. “O Ciro tem alma de baixo clero”, diz um amigo dele. “Se tiver uma reunião num palácio ou uma conversa com dez deputados em um boteco, não há dúvida de que ele vai ao boteco.” Parece uma questão de estilo pessoal, mas é, antes de tudo, uma estratégia política. Presidente do Progressistas, o mais influente partido do chamado Centrão, grupo acostumado a negociar seu apoio ao presidente da vez em troca de cargos e verbas públicas, Ciro Nogueira sabe que, quanto mais deputados tiver sob sua influência — num bar ou no Congresso —, maior será a chance de ser cortejado e bem tratado pelo Palácio do Planalto. Essa receita é tão infalível que ele se tornou aliado de Lula, Dilma Rousseff e Michel Temer e conseguiu de petistas e peemedebistas ministérios de ponta para o seu partido.

A chegada de Bolsonaro ao poder e seu discurso contra a velha política sugeriam que os tempos de glória de Nogueira, processado por corrupção, e do Progressistas, a sigla com o maior número de políticos investigados na Lava-Jato, chegariam ao fim. Deu-se o contrário, e, sem sombra de dúvida, o senador é hoje um dos parlamentares mais influentes do país. O motivo é simples: ele controla um bloco parlamentar com mais de 200 deputados, que formalmente é liderado por seu correligionário Arthur Lira. Essa tropa sozinha é capaz de catapultar projetos importantes para o governo e também funcionar como um campo de força para impedir investidas da oposição. Foi justamente esse atributo que atraiu Bolsonaro, que, para consumar a parceria, deu ao Progressistas o comando de órgãos como o Departamento Nacional de Obras contra as Secas (Dnocs) e o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), cujo orçamento este ano é de 54 bilhões de reais.

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No Planalto, Nogueira é tratado com impressionante deferência pelo seu grau de fidelidade. O ministro Luiz Eduardo Ramos, responsável pela articulação política, estima que antes mesmo da aliança entre as partes a bancada da legenda já votava ao lado do governo em 80% dos projetos. Essa sintonia tende a ficar ainda mais fina, já que o senador tem recebido a retribuição devida. Recentemente, ele anunciou ter conseguido a liberação de cerca de 17 milhões de reais para a construção de uma ponte na cidade de Parnaíba, a segunda maior do Piauí e um de seus redutos eleitorais. A cerimônia para celebrar o anúncio do recurso foi virtual e contou com a presença do ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, e de aliados da região. O prefeito de Parnaíba, o ex-senador Mão Santa (DEM), participou do evento e prometeu nomear o novo cartão-postal da cidade como “Geraldo Bolsonaro”, em homenagem ao pai do presidente.

A esperança de Ciro Nogueira é contar com o apoio de Bolsonaro para sua candidatura ao governo do Piauí em 2022. Na última eleição, o ex-capitão teve apenas 23% dos votos no estado no segundo turno, mas o senador diz ter em mãos pesquisas que mostram que o presidente está cada vez mais popular no Nordeste. “Eu quero levá-lo a uma comunidade que não tem água para ele ver um poço jorrando, a alegria dessas pessoas e o semblante delas. Não tem quem não se emocione e não se comprometa com isso”, disse Nogueira a VEJA (confira a entrevista abaixo). O problema desse tipo de jura de amor é que, como as nuvens, ela muda ao sabor dos ventos. Em 2018, Nogueira fez o Progressistas se aliar ao PSDB, mas, mesmo assim, declarou voto no PT.

Em 2016, ele prometia marchar em defesa do mandato da então presidente Dilma. Faltando poucos dias para a votação na Câmara, ela o chamou para uma conversa no Palácio da Alvorada. “Posso contar com você?”, perguntou a petista. Nogueira disse que sim, mas com uma condição: a de que outras legendas de centro, como o então PR (hoje PL) e o PSD, não pulassem fora do barco. Ciro sabia que essas siglas estavam a favor do impeachment. Enquanto dava uma última esperança a Dilma, já costurava seu apoio ao futuro governo Temer em troca de dois ministérios e do comando da Caixa. “Tudo isso pode acontecer novamente com o governo Bolsonaro. É o que a gente costuma dizer: gato não gosta do dono, gato gosta do hotel”, afirma um escaldado petista que acompanhou as negociações.

Publicado em VEJA de 24 de junho de 2020, edição nº 2692

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