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Cesar Maia quer ser fiscal implacável da gestão de Eduardo Paes

Com um gabinete modesto no Palácio Pedro Ernesto, ele promete fiscalizar de perto a prefeitura: no primeiro dia de 2013, deu entrada em pedido de informações sobre patrimônio

Por Pâmela Oliveira, do Rio de Janeiro 19 jan 2013, 15h20

“Vou mobilizar a opinião pública. Minoria faz política de dentro do parlamento para fora, vai atrás de opinião pública para trazê-la ao plenário. O que faço no ex-blog, vou fazer na Câmara”

Quem ocupa um imóvel por muito tempo sabe exatamente onde estão as goteiras, os vazamentos, a janela emperrada e até o caminho dos ratos. Prefeito com mais horas de cadeira no Rio de Janeiro – esteve, ao todo, por 12 anos no poder – Cesar Maia está, agora, em novo endereço. Eleito vereador pelo DEM, ocupa um gabinete do Palácio Pedro Ernesto, sede do Legislativo carioca. A cabeça, no entanto, continua na prefeitura. Não para voltar, pois considera que cumpriu seu ciclo no Executivo do Rio. Pelos próximos quatro anos, Cesar vai atazanar o prefeito. Aliados na infância política de Eduardo Paes, nos anos 90, os dois alimentam hoje uma recíproca repugnância. Na cerimônia de posse, Cesar tomou o rumo de casa antes de Eduardo Paes alcançar a mesa para discursar. Melhor para os dois: o peemedebista reeleito em primeiro turno também não deu falta do antigo mestre.

O primeiro dia de 2013 foi uma boa prévia do que será a relação entre os dois até 2016, quando o Rio completará um ciclo de ouro de sua história, recebendo dois dos principais eventos esportivos mundiais e em acelerado processo de transformação. Tão logo tomou posse, Cesar deu entrada no primeiro pedido de informações oficial de 2013. Em resumo, quer saber o seguinte: quais são os equipamentos de saúde e educação da prefeitura na Zona Sul e na Grande Tijuca.

Curiosa a pergunta? Certamente sim, para quem não conhece os meandros da administração pública – assunto preferido do ex-prefeito, ao qual era capaz de se dedicar horas a fio durante as visitas que recebeu em seu breve recesso dos gabinetes, no escritório que mantém ao pé da mata na Estrada das Canoas, em São Conrado. “Quero saber o que consta na lista de patrimônio da prefeitura. Dei entrada no requerimento no dia da minha posse para o tempo começar a correr. Eles têm prazo para responder”, diz Maia. O requerimento é só o primeiro de uma série, garante.

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As instalações de Cesar Maia são bem mais modestas agora. Um gabinete com pouco mais de 40 metros quadrados, no terceiro andar do Palácio Pedro Ernesto. Dividido em três salas e recepção, o novo local de trabalho do ex-prefeito lembrava um acampamento quando o líder do DEM foi conhecê-lo. Pilhas de papéis e caixas substituíam mesas, retiradas pelo antigo ocupante que deixou apenas duas mesas e poucas cadeiras no gabinete.

Também é modesto o espaço do DEM na cena política carioca. O partido fez três dos 51 vereadores do Rio – além do ex-prefeito, Carlo Caiado e Tio Carlos, que foram reeleitos. Cesar Maia, que no início da campanha chegou a cogitar ter 65.000 votos e puxar outros candidatos pela legenda do DEM, teve 44.095, que não foram suficientes para ampliar a oposição democrata na Câmara. Na eleição majoritária, Rodrigo, filho de Cesar, também foi mal. A chapa que encabeçou, com Clarissa Garotinho como vice, chegou à reta final com 2, 94% dos votos. O ex-prefeito minimiza o estrago. E afirma que candidatura de Rodrigo foi uma estratégia de marketing para 2016. “ACM Neto venceu a eleição para prefeito em Salvador depois de perder a anterior sem sequer chegar ao segundo turno. Eduardo Paes teve uma votação pífia para governador e se elegeu prefeito. A candidatura do Rodrigo seguiu essa lógica de expor os nomes majoritários na televisão, transformá-los em personagens e torná-los competitivos”, explica.

Maia sabe que os opositores de Paes são minoria e, por isso, diz que não vai “gritar no plenário”. Ele rejeita o rótulo de articulador da oposição, mas já conversou com colegas que não compõem a base do governo. “Vou mobilizar a opinião pública. Minoria faz política de dentro do parlamento para fora, vai atrás da opinião pública para trazê-la ao plenário. O que faço no ex-blog, vou fazer na Câmara”, diz, referindo-se à newsletter que envia diariamente para 54.000 pessoas, ao Twitter e ao Facebook.

Cidade da Música – Cesar Maia não foi à inauguração da estrutura que considera um de seus grandes legados para a cidade: A Cidade da Música – rebatizada por Eduardo Paes como Cidade das Artes. O projeto de mais de meio bilhão de reais começou a ser construído em 2002 sob a gestão de Maia, que inaugurou a sala principal às pressas, no apagar das luzes de seu governo, com um concerto. Ao assumir a prefeitura, Paes interrompeu a construção e determinou uma auditoria na obra.

“Eduardo conhece o equipamento e sabe que vai fazer um sucesso absoluto. Ele tenta capitalizar. Volta ao nome original e não usa o que eu escolhi. Toda vez que sai matéria, diz que o projeto custava 80 milhões de reais e custou 550 milhões. Será que alguém razoavelmente instruído vai achar que um equipamento como aquele, maior do que o Maracanã e mais sofisticado vai custar 80 milhões? O Museu do Amanhã, aquele galpão, vai custar 300 milhões de reais”, diz ele, dando uma pista de para onde pode apontar seus próximos requerimentos de informação ao prefeito. Orçado em 215 milhões, o Museu do Amanhã deverá ter a obra concluída em 2013.

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