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Casas divididas

Na raiz da polarização estão as bolhas em que cada tribo se protege das ideias alheias. Não se sabe a que isso nos levará

Qualquer nação que tenha sofrido uma desaceleração econômica tão acentuada, um aumento tão exacerbado da criminalidade e escândalos políticos e corporativos tão prevalentes sentirá certa dose de indignação pública. Mas as controvérsias ao longo do último ano envolvendo o ex-presidente Lula, o presidente eleito Jair Bolsonaro e muitas outras figuras públicas indicam uma perigosa diferença de opiniões quanto à identidade e aos rumos do Brasil.

É preciso reconhecer que as eleições dos últimos dois anos revelaram divisões profundas em vários países, e arrisco dizer que não há exemplo melhor disso do que meu país, os Estados Unidos. A intensidade da polarização nos EUA continua em franca escalada. E minha hipótese é que um olhar mais detalhado sobre as causas dessa polarização poderá ajudar a esclarecer o que vem ocorrendo em outros lugares.

Já estamos quase em 2019 e os Estados Unidos são hoje o que o ex-presidente Abraham Lincoln, que governou de 1861 a 1865, chamaria de “casa dividida”. Quase duas dezenas de democratas estão prestes a anunciar planos de candidatar-se à Presidência para concorrer contra Donald Trump. E, se as eleições do Congresso americano no mês passado nos mostraram alguma coisa, é que esquerda e direita raramente estiveram tão separadas desde que nossa democracia foi criada.

Quão separadas elas estão? Primeiro, existem as formas tradicionais de pensar sobre polarização. Um estudo recente do instituto Pew Research revelou que, no espectro político entre a esquerda e a direita, 94% das pessoas que se alinham com o Partido Democrata hoje estão mais à esquerda do que um simpatizante médio do Partido Republicano, e 92% dos republicanos estão mais à direita do que um democrata médio, quanto às suas visões sociais, econômicas e políticas. A conclusão óbvia, diante disso: o “centrão” político está desaparecendo. Essa é a grande mudança em relação à geração anterior, e tem a ver tanto com a emoção quanto com a ideologia. Metade dos republicanos agora diz que “odeia” os democratas, e um número quase igual de democratas afirma “odiar” os republicanos.

E de quem é a culpa?

Por mais reconfortante que possa ser, é importante não cairmos na tentação de pôr toda a culpa nos políticos por essa lastimável situação. Em vez disso, devemos observar as maneiras pelas quais os americanos estão se separando de seus compatriotas — e ampliar essa reflexão para os países onde a polarização se mostra patente. Comece com as maneiras pelas quais os cidadãos buscam novas ideias e informações sobre seu país e o mundo. Sim, parte do problema reside no fato de que americanos de esquerda e direita assistem a canais de televisão diferentes. Redes inteiras são dedicadas a alimentar seus preconceitos sobre outros americanos e pessoas em outros países. Isso dá aos consumidores de notícias e opiniões visões totalmente distintas do mundo e das ameaças que ele pode conter.

As diferenças ficam ainda mais evidentes na internet. Cada vez mais, meus colegas americanos se reúnem on-line dentro de suas chamadas filter bubbles (bolhas de filtro), aqueles sites que visitamos para encontrar opiniões e informações que confirmam nossos vieses e, especialmente, para nos conectar com outras pessoas que compartilham deles. Agora, somam-se a isso os algoritmos on-line que registram nossas buscas, interpretam nossos likes e nos mantêm na companhia de amigos e formadores de opinião que pensam e agem como nós.

“O centrão político está desaparecendo. Essa é a grande mudança em relação à geração anterior, e tem a ver tanto com a emoção quanto com a ideologia”

O mesmo ocorre nas mídias sociais, que nos permitem seguir aqueles com os quais concordamos e ignorar aqueles de quem discordamos. É uma pena, pois tira de nós a chance de conhecer o que outras pessoas estão vendo, ouvindo, pensando e sentindo. Isso torna mais difícil compreender melhor nosso país, o resto do mundo e a forma como ambos estão mudando rapidamente. Estamos nos privando das ferramentas de que precisamos para desafiar nossas crenças e mudar nossa maneira de pensar.

Nos Estados Unidos, assim como no Brasil, estamos nos dividindo ao longo de linhas demográficas. Dados sobre as eleições de 2016 e 2018 mostram diferenças acentuadas da opinião política, que varia muito, dependendo de idade, faixa salarial, grau de escolaridade, identidade étnica e localização geográfica: quem mora em regiões metropolitanas tende a ter visões políticas opostas às de quem vive em áreas mais rurais.

Existe ainda outro fator: não há como olhar atentamente para a política dos Estados Unidos e a sociedade americana sem levar em consideração a questão de raça. Estudos recentes revelaram que os estudantes americanos estão agora mais segregados em termos de raça do que estavam no fim dos anos 1960, antes da imposição da dessegregação das escolas públicas por força de lei, com o avanço dos movimentos pró-direitos civis. Hoje, mais e mais americanos estão rodeados exclusivamente por amigos de sua raça. O resultado é que essa autossegregação está nos agrupando em tribos com pensamentos semelhantes. Isso ajuda a evitar pessoas com opiniões que possam divergir daquilo em que acreditamos. Como consequência, nós nos tornamos menos tolerantes.

Essa perspectiva é perigosa porque nossos políticos se aproveitam de tal divisão para piorar as coisas. Toda essa autossegregação incentiva os dois partidos políticos antagônicos — o Democrata e o Republicano — a enviar mensagens e adotar políticas direcionadas apenas àqueles grupos específicos de americanos que eles acham prontos a votar em sua legenda. Em outras palavras, os políticos republicanos não falam mais com os eleitores democratas, nem os democratas falam com os republicanos. Ninguém está tentando convencer ninguém de outra coisa além de que seus preconceitos mais profundos estão corretos e de que se correrá perigo caso não se vote nesse sentido.

“Ninguém está tentando convencer ninguém de outra coisa além de que seus preconceitos mais profundos estão corretos”

Há quem argumente que países autoritários não têm esse problema. Não existe polarização publicamente aceitável na China, na Rússia ou na Arábia Saudita. Nesses países, o Estado trabalha arduamente para controlar o fluxo de informações dentro da sociedade e para ativamente formular a opinião pública sobre o futuro e o mundo. Não há espaço para o contraditório, e o debate é sacrificado. Até recentemente, muitos acreditavam que a internet e as mídias sociais tornariam impossível o controle das informações pelo Estado e que a fragmentação da opinião pública seria inevitável. Entretanto, hoje está ficando claro que o Estado autoritário encontrou novas maneiras de erguer muros, reais e virtuais, que desviam a opinião pública dos pontos de vista alternativos. A propaganda do Estado revelou-se mais eficaz, e não menos, porque penetra mais profundamente na vida das pessoas.

Não está claro se toda ditadura poderá continuar sendo uma ditadura da forma como se via décadas atrás. Avanços nas tecnologias de informação e comunicação podem ainda reservar surpresas para nós. Mas, por enquanto, democracias como o Brasil, os Estados Unidos e muitas outras estão enfrentando problemas de liberdade em consequência da fraqueza na natureza humana que elas inevitavelmente revelam.

Terreno comum

Como disse certa vez o notável filósofo americano Yogi Berra: “É difícil fazer previsões, especialmente sobre o futuro”. Há uma previsão, porém, que podemos arriscar sobre os Estados Unidos, o Brasil e os demais países, democráticos ou não: sempre haverá esquerda e direita. É um ponto pacífico. Qualquer um que leia o bastante os veículos de comunicação sobre política perceberá uma noção recorrente de que determinado lado conseguirá, de alguma forma, uma vitória final absoluta sobre o outro. É uma grande bobagem. A direita jamais eliminará a esquerda, nem a esquerda exterminará a direita. Nos Estados Unidos, no Brasil e em qualquer outro lugar, as pessoas de todas as tendências políticas precisam encontrar um terreno comum para construir uma nação segura, saudável e próspera.

* Ian Bremmer é presidente do grupo Eurasia, professor da Universidade de Nova York e autor do livro Us vs. Them: The Failure of Globalism (Nós contra Eles: a Falência do Globalismo)

Publicado em VEJA de 26 de dezembro de 2018, edição nº 2614