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Após derrota, Bolsonaro começa a articular por seu incerto futuro político

Com mais de 58 milhões de votos, o primeiro presidente a perder uma reeleição em tese se credencia para liderar a oposição — em tese

Por Marcela Mattos Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
5 nov 2022, 08h00

Aliados costumam dizer que nem Jair Bolsonaro acreditava, no início de 2018, que conseguiria se eleger presidente da República. Faltava tudo: tempo de televisão, dinheiro, partido, apoio político. O resto é história, mas fato é que, depois de eleito, o improvável presidente se apegou à cadeira, recuou da promessa de jamais tentar a reeleição e chegou até a comemorar a soltura do ex-presidente Lula — na cabeça de Bolsonaro, não havia ninguém melhor do que o petista para manter vivo na sociedade o sentimento anticorrupção que o guindou ao Palácio do Planalto. Depois dessa metamorfose, o ex-capitão, quando questionado sobre o futuro, respondia sempre que vislumbrava apenas três cenários: ser preso, morto ou alcançar a vitória nas eleições deste ano. “Somente Deus me tira daqui”, repetia. Apesar dos variados percalços criados pelo próprio governo nos últimos quatro anos, da pandemia que matou quase 700 000 pessoas no país e da crise econômica que se seguiu, a derrota nas urnas nunca foi considerada opção. Atônito, Bolsonaro, de início, estava decidido a não reconhecer publicamente o resultado. Depois, foi convencido a reconsiderar.

ESPELHO - Donald Trump: o ex-presidente americano inspira os bolsonaristas -
ESPELHO - Donald Trump: o ex-presidente americano inspira os bolsonaristas – (Seth Wenig/AP/Image Plus)

Num pronunciamento que durou pouco mais de dois minutos, feito 45 horas depois de proclamado o resultado do segundo turno, o presidente leu uma nota de apenas 22 linhas, na qual agradeceu aos 58 milhões de votos, defendeu o seu governo, fez críticas indiretas ao Supremo Tribunal Federal, mas não parabenizou o vencedor como reza a tradição. A fala enxuta foi precedida por uma intensa discussão sobre como o presidente trataria a derrota sem fazer nenhuma menção ou aceno a Lula. Bolsonaro havia sido aconselhado pelo filho, o deputado Eduardo Bolsonaro, a permanecer em silêncio. A baderna promovida pelos caminhoneiros, porém, obrigou o presidente a mudar de ideia. O núcleo político do governo avaliou que o fechamento das estradas poderia provocar uma confusão de proporções imprevisíveis. O silêncio seria interpretado como um aval do Planalto ao movimento e, no final, a responsabilidade pelo que acontecesse seria toda atribuída ao mandatário. Na nota, o presidente ressaltou que manifestações pacíficas eram bem-vindas, desde que não prejudicassem o direito de ir e vir. No dia seguinte, postou um vídeo pedindo aos apoiadores que desbloqueassem as rodovias.

CENTRÃO - Valdemar: o PL já planeja ter candidato próprio à Presidência em 2026 -
CENTRÃO - Valdemar: o PL já planeja ter candidato próprio à Presidência em 2026 – (Pedro Ladeira/Folhapress/.)

Superado o choque inicial da derrota, Bolsonaro começou a cuidar do próprio futuro. Do PL, seu partido, recebeu a garantia de que terá todo o suporte necessário para, caso queira, se consolidar como o principal líder da oposição. Foi combinado que ele permanecerá em Brasília a partir de janeiro. O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, colocará à disposição de Bolsonaro um cargo de direção, casa, escritório, além de um salário mensal. Por lei, ex-presidentes têm direito a oito funcionários, custeados pelo Estado, e dois veículos oficiais. Bolsonaro também ouviu a garantia de que não precisará se preocupar com advogados, caso enfrente processos após o fim do mandato. Dinheiro não é problema. Neste ano, o PL elegeu a maior bancada do Congresso graças à adesão de bolsonaristas, o que garante à legenda nos próximos quatro anos acesso a um bilionário fundo partidário e eleitoral. O partido quer ter o ex-capitão e seus 58 milhões de votos como cacife para futuras articulações políticas e, se tudo sair como planejado, também como a principal aposta para enfrentar Lula e o PT em 2026. É um projeto ousado.

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arte Bolsonaro

O PL é uma das estrelas do chamado Centrão — partidos que historicamente se aliam aos governos de turno em troca de cargos e verbas. Uma importante liderança da legenda, sob a condição de anonimato, explicou que essa submissão voluntária ao governo de turno não deve se repetir na gestão petista. Essas legendas hoje reúnem a maioria dos deputados e senadores, têm direito a bilhões oriundos dos fundos partidários, controlam o Orçamento da União e agora contam com um forte candidato a presidente — aliás, não apenas um. O Republicanos, outra estrela do Centrão, elegeu o bolsonarista Tarcísio de Freitas para o governo de São Paulo, estado que tem o maior colégio eleitoral do país. Os governadores Romeu Zema (Novo), de Minas Gerais, e Cláudio Castro (PL), do Rio de Janeiro, ampliam esse rol de opções. Mas foi o presidente, em tese, quem saiu mais fortalecido das urnas. “Quando Bolsonaro se mostrava completamente perdido, a economia em crise, a inflação e a fome voltando, ainda assim uma relevante parcela da população apoiava o governo. Significa que essas pessoas adoram o Bolsonaro. Ele, sem dúvida, é uma liderança com raízes na sociedade. Não será fácil substituí-lo”, afirma o cientista político Miguel Lago, professor da Universidade Columbia.

NOVA ESTRELA - Tarcísio de Freitas: credenciais para voos ainda mais altos -
NOVA ESTRELA - Tarcísio de Freitas: credenciais para voos ainda mais altos – (Ronny Santos/Folhapress/.)

A tradição brasileira, no entanto, mostra que uma montanha de votos nem sempre é garantia de uma carreira política ascendente. Foi assim com quase todos os presidenciáveis derrotados em segundo turno (veja no quadro). Foi assim com ex-presidentes que tentaram voltar à cena política. José Sarney, por exemplo, teve de mudar seu domicílio eleitoral do Maranhão para o Amapá para conseguir uma vaga de senador. Fernando Collor, após ter o mandato cassado, conquistou depois de algumas eleições uma vaga no Senado por Alagoas. Neste ano, tentou subir um degrau na carreira, candidatou-se a governador do seu estado, mas foi derrotado. Dilma Rousseff, depois de também sofrer o impeachment, tentou, sem sucesso, uma vaga no Congresso por Minas Gerais. Lula, nesse caso, é uma óbvia exceção, mas o caminho até o retorno à Presidência, com condenações e prisão, foi tortuoso e absolutamente inédito até aqui. “Normalmente, políticos populistas como Bolsonaro, quando ficam sem mandato, começam a definhar. O esperado é que ele paulatinamente vá perdendo a influência e a capacidade de agregar interesses”, explica o cientista político da FGV Carlos Pereira. “Os próprios membros do PL vão começar a encontrar novas lideranças que talvez galvanizem essa direita conservadora brasileira que é real e é forte no Brasil”, acrescenta.

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VITRINE - Romeu Zema: o governador mineiro também é opção forte para 2026 -
VITRINE - Romeu Zema: o governador mineiro também é opção forte para 2026 – (Gilson Junio/AGIF/AFP)

Os apoiadores que apostam na capacidade de Jair Bolsonaro de liderar a oposição e voltar à Presidência da República encontram inspiração a milhares de quilômetros de Brasília. Em 2020, Donald Trump foi o primeiro presidente em trinta anos a disputar e perder uma reeleição nos Estados Unidos. Surpreendido com a derrota, ele resistiu a reconhecer a vitória de Joe Biden, apostou no caos ao contestar o resultado das eleições, incentivou a insubordinação civil, foi alvo de operações policiais, manteve-se em evidência e preservou a influência no Partido Republicano. Desde que deixou a Casa Branca, organiza comícios, dedica-se a criticar o adversário, e um de seus filhos já promove até eventos para arrecadar fundos. Rompendo uma tradição americana, Trump, que teve as contas nas redes sociais bloqueadas por publicações controversas, não compareceu à posse do sucessor e já anunciou que estuda se candidatar novamente em 2024. As pesquisas mais recentes mostram que, se as eleições fossem hoje, ele daria o troco e venceria Biden. Por aqui, Lula declarou que não pretende disputar um novo mandato.

Publicado em VEJA de 9 de novembro de 2022, edição nº 2814

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