A teia de corrupção, segredos e violência revelada pelas mensagens do celular de Vorcaro
As informações encontradas no telefone do dono do Master revelam os métodos pouco ortodoxos que ele utilizou para gerir seu império
Na terça-feira 3, advogados de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, foram à sede da Polícia Federal, em Brasília, sem saber que o caso estava na iminência de sofrer uma reviravolta. Depois de cumprir os protocolos que a burocracia exige, receberam um disco rígido com dezenas de terabytes de informações extraídas dos telefones do banqueiro acusado de patrocinar a maior fraude financeira da história. Aconteceu então um primeiro fato inusual. Antes de deixarem o prédio, os advogados colocaram o equipamento dentro de um envelope, lacraram e registraram o procedimento na presença de um tabelião convocado para atestar que ninguém teve acesso ao conteúdo do material. A encenação tinha um objetivo: mostrar para algumas pessoas que os dados existem e estavam protegidos contra eventuais vazamentos. O propósito, no entanto, era um pouco mais ardiloso. Há tempos circula por alguns dos gabinetes mais importantes da Praça dos Três Poderes a história de que o banqueiro guardaria mensagens, documentos e imagens que, se divulgados, provocariam um terremoto político. Segundo pessoas próximas, o próprio Vorcaro teria interesse em alimentar essa versão. Com esse acervo, ele se protegeria de um decreto de prisão e ainda conseguiria reverter o processo de liquidação do Master.
O cenário mudou repentinamente. Na manhã da quarta-feira 4, Vorcaro foi preso em São Paulo, após a Polícia Federal encontrar indícios de que ele havia subornado dois funcionários do Banco Central — Paulo Sérgio Neves, ex-diretor de Fiscalização, e Belline Santana, chefe de departamento —, desviado 2 bilhões de reais de maneira clandestina para a conta do pai e montado uma estrutura para espionar, coagir e intimidar desafetos. Ainda segundo a investigação, o banqueiro também cooptava agentes públicos para trabalharem por seus interesses, dava ordens para punir quem o contrariasse e desembolsava fortunas em troca de favores. Os servidores do BC, por exemplo, teriam recebido propina para repassar informações sigilosas de interesse do Master. Vorcaro também mantinha em sua folha de pagamento policiais, servidores públicos de vários escalões e jornalistas. Para a PF, ele utilizava métodos violentos contra quem lhe desagradasse, sugeria atentados e encomendava ações de vingança. Além dele, mais três pessoas foram presas: Fabiano Zettel, cunhado e braço direito do banqueiro; o policial aposentado Marilson Roseno, que fazia trabalhos de vigilância para o grupo; e Luiz Phillipi Mourão, conhecido como “Sicário”, o encarregado de obter informações sigilosas e executar operações de interesse da organização mafiosa.
De acordo com as investigações, Sicário acessou indevidamente bancos de dados da Polícia Federal, do Ministério Público e até de organismos internacionais como o FBI e a Interpol. Uma das missões que ele recebeu do banqueiro teria sido a de espancar um jornalista e simular um assalto — segundo a defesa de Vorcaro, essa e outras mensagens foram tiradas do contexto. Para a PF, no entanto, não há dúvidas do que se trata. “São profissionais do crime, que atuam de forma coordenada, com a captação ilícita de servidores públicos dos mais altos escalões da República, buscando assim construir um cenário favorável de enfraquecimento do Estado e permanência da delinquência alcançada, mesmo que para isso tenham que se utilizar de atos de violência física e coação por meio de sua milícia”, registrou a Polícia Federal no pedido de prisão do ex-banqueiro. Em um acontecimento típico de tramas mafiosas, o tal Sicário foi encontrado agonizando na cela onde estava detido na Superintendência da PF em Minas Gerais. Pela versão oficial, ele se enforcou com a própria camisa. Levado ao hospital, permanecia internado até o fim da tarde da última quinta, 5, com protocolo de morte cerebral aberto.
As informações que levaram Vorcaro de volta à prisão estavam armazenadas nos telefones dele. Bastou identificar os interlocutores. E consta que há coisas muito mais interessantes nesse acervo — hipótese que tem tirado o sono de muita gente. De acordo com uma pessoa próxima ao banqueiro, os arquivos recuperados incluem agendamentos de reuniões, comentários de cunho íntimo sobre festas particulares e menções nem sempre republicanas a deputados e senadores, ministros de Estado e autoridades do Judiciário. Desde o início das investigações, conversas e documentos sigilosos do banqueiro já provocaram algumas tormentas no caso. Uma delas, inclusive, está na raiz de muitos boatos. Em novembro, quando a PF realizou a primeira busca numa casa que Vorcaro mantém em Brasília, foi localizado um envelope que continha a anotação “Congresso”. Não se sabe até hoje o que havia dentro do envelope — se é que havia alguma coisa —, mas imediatamente depois da apreensão o inquérito foi transferido da Justiça Federal no Distrito Federal para o Supremo Tribunal Federal, onde as investigações travaram.
Relator do inquérito, o ministro Dias Toffoli ficou dois meses e meio à frente do caso. Nesse período, decretou o sigilo absoluto das investigações, se envolveu num insólito debate com a Polícia Federal por divergências sobre a condução do caso e acabou afastado delas depois de revelar-se que era sócio de uma empresa que tivera negócios com o grupo Master. André Mendonça foi então sorteado para assumir o posto. Ele confidenciou a pessoas próximas que pretendia conduzir a apuração de maneira célere e discreta para evitar, dentro do possível, ruídos no processo eleitoral. É exatamente o que ele tem feito. A estratégia do banqueiro tinha como ponto de chegada a mudança de status do Master de banco liquidado para banco em liquidação ordinária. Isso permitiria ao próprio Vorcaro vender de forma escalonada e por preços de mercado os ativos do conglomerado, hoje bloqueados por ordem do BC, e cobrir os prejuízos que não são abarcados pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Ainda que de execução improvável e efetividade duvidosa, a ideia foi apresentada a integrantes do governo e a representantes de instituições financeiras com a roupagem de um jogo de ganha-ganha: os correntistas e empresas que compraram papéis não cobertos pelo FGC seriam ressarcidos e os bancos de primeira linha, que com a debacle do Master tiveram de arcar com mais de 50 bilhões de reais para repor perdas de investidores lesados, se livrariam de um concorrente tido como desleal pela Faria Lima. Com o cenário de disputa eleitoral em aberto, como mostram as pesquisas, representantes da oposição também foram consultados sobre a possibilidade de tentar uma saída honrosa para o empresário. A reação de quem ouviu o projeto salva-vidas foi a pior possível. Mais do que um mero rearranjo financeiro, o negócio tinha como pano de fundo fazer um aceno para atrair os figurões da política que acabaram enredados no caso por amizade, interesses ou ambos. Nesse rol estão personagens como o presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), cujo irmão é conselheiro do fundo de previdência do Amapá (Amprev), que investiu 400 milhões de reais em títulos problemáticos do banco de Vorcaro.
A preocupação com o desenrolar do caso Master é ecumênica e reúne políticos de direita, esquerda, integrantes do Judiciário e auxiliares próximos do presidente da República. Personagens do Centrão, como o senador Ciro Nogueira (PP-PI), ou próceres do governo, como o chefe da Casa Civil, Rui Costa (PT), por exemplo, acompanham com lupa o avanço das investigações. O parlamentar foi o autor de uma emenda que aumentava o valor de cobertura do FGC, usado como trampolim de alavancagem do Master, de 250 000 reais para 1 milhão de reais. Já Rui Costa teme o desgaste por conta da relação próxima com o empresário Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro e também preso. Lima fechou um rentável negócio com o governo da Bahia quando Costa era o governador. O ministro também participou de uma reunião entre o presidente Lula e o banqueiro em 2024. Sem saber o que ainda pode aparecer, magistrados também têm procurado interlocutores para explicar eventuais encontros antigos ou conversas com o banqueiro.
A estratégia de sobrevivência de Daniel Vorcaro tinha como ponto de partida os segredos guardados em seus celulares. Na terça-feira, algumas horas depois de os advogados do Master deixarem a sede da Polícia Federal com o HD lacrado, ocorreu um segundo fato ainda mais inusual: os defensores foram intimados a devolver o material. Com isso, ficará mais difícil que as supostas mensagens, vídeos ou fotografias de parlamentares, juízes e ministros de Estado um dia sejam conhecidas na íntegra.
André Mendonça já anunciou que, se for necessário compartilhar o conteúdo dos arquivos, isso será feito, desde que subtraído o que não tiver ligação com o caso. Festas privadas com a presença de autoridades na casa do banqueiro, regadas a bebidas e animadas por convidadas especiais, por mais inoportunas, constrangedoras e desaconselháveis que sejam, em tese não interessam à investigação de um escândalo financeiro. Se tornadas públicas, podem no máximo destruir carreiras e fulminar reputações.
Publicado em VEJA de 6 de março de 2026, edição nº 2985






