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A aposta arriscada de Bolsonaro para conquistar o voto evangélico

Acreditar que a influência de líderes religiosos garantirá a transferência em bloco de votos dos evangélicos para o presidente pode ser tiro um tiro no pé

Por Letícia Casado, Rafael Moraes Moura Atualizado em 6 fev 2022, 07h56 - Publicado em 6 fev 2022, 09h00

O entorno de Jair Bolsonaro (PL) dá como certo o voto do eleitor evangélico para a reeleição do mandatário em outubro. Aliados afirmam que ele tem o apoio de cerca de 70% dos fiéis e que, em razão da proximidade do presidente com alguns líderes religiosos, a base vai permanecer unida ao longo do ano. No entanto, analistas que transitam no universo de política e religião destacam que a transferência de votos não é automática, e o presidente, ao dar como certo o voto dos fiéis, pode dar um tiro no pé por desconsiderar elementos econômicos e sociais que serão imperativos na eleição de 2022.

A eleição de 2018 foi guiada muito mais por um contexto de antipolítica, com Bolsonaro se colocando como o representante de fora do sistema (apesar de ter trabalhado por 28 anos como congressista), do que por ambições religiosas da população. Mas, neste ano, ele não vai concorrer como um outsider —pelo contrário, representará o Centrão e será o tempo todo confrontado com a realidade econômica do país e as consequências da pandemia. O entorno do presidente reconhece que inflação, desemprego elevado e a crise sanitária ameaçam a reeleição.

“Os evangélicos se interessam por outras questões além de valores: economia, políticas de saúde, segurança pública. Eles não ficam fechados na igreja enquanto o mundo está pegando fogo. O poder de convencimento do pastor tem um limite. Se as pessoas veem que a vida delas está piorando, que não compram mais carne, que a gasolina está cara, não tem palavra da salvação que resolva”, diz o cientista político Leonardo Barreto, diretor da consultoria de risco político Vector Research.

O demógrafo José Eustáquio Alves, professor aposentado da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE, destaca que, apesar de diversas lideranças religiosas estarem empenhadas na reeleição de Bolsonaro, o eleitorado não é homogêneo. Ele cita os exemplos dos pastores Magno Malta (PL-ES) e Marcelo Hodge Crivella (PRB), que não conseguiram se eleger em 2018. Malta havia sido cotado para ser vice de Bolsonaro e perdeu a reeleição no Senado para Fabiano Contarato (PT-ES), que é homossexual. Já o então prefeito do Rio, Marcelo Crivella (PRB), sobrinho do bispo Edir Macedo, da igreja Universal, não conseguiu eleger o filho para uma vaga na Câmara dos Deputados.

Em dezembro, o Datafolha mostrou que a avaliação negativa do governo aumentou entre os evangélicos e que, em eventual segundo turno, eles se diziam divididos entre Lula (46%) e Bolsonaro (44%). O instituto calcula que cerca de 31% dos eleitores brasileiros sejam evangélicos, somando mais de 45 milhões de pessoas.

Ainda que seja impossível medir com exatidão o peso de líderes religiosos sobre a decisão do eleitor, é consenso no universo político que certa influência existe. “Sem o apoio dos evangélicos e da Igreja Católica, o presidente não se reelege, nem ele nem ninguém”, diz o deputado federal Cezinha Madureira (PSD-SP), presidente da Frente Parlamentar Evangélica.

O crescimento da população evangélica no país se reflete na ampliação da bancada evangélica na Câmara, uma das mais atuantes: em 2018, os brasileiros elegeram 84 deputados, ante 75 em 2014 e 73 em 2010, segundo levantamento do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap). Alves, do IBGE, calcula que o número de brasileiros que se identificam como católicos está caindo 1,2% ao ano, enquanto o de evangélicos tem crescido 0,8% ao longo da última década — em 2032, o número de evangélicos deve superar o de católicos no Brasil.

A ofensiva pelo voto evangélico deve ser impulsionada neste ano por uma mudança legislativa articulada por aliados de Bolsonaro no Congresso. Já aprovado na Câmara, o novo Código Eleitoral cria uma blindagem para impedir que pastores, padres e candidatos sejam enquadrados por abuso de poder religioso. Na prática, o texto libera as campanhas eleitorais em igrejas, templos e universidades sob o pretexto de proteger a liberdade de expressão. “Não dá para tirar a Igreja do debate político, como não dá pra tirar as universidades do debate político. Não dá. Acho um preconceito mais com a política do que com a religião em si”, diz a deputada Margarete Coelho (PP-PI), relatora da proposta na Câmara. O texto ainda aguarda o aval dos senadores para entrar em vigor.

 

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