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Rubens Menin, dono da MRV: “Chega de polarização”

Um dos empresários mais influentes do Brasil diz que os extremos ideológicos não levam a lugar algum e que o único caminho possível para o país é o centro

Apresentado por Atualizado em 8 dez 2023, 12h39 - Publicado em 8 dez 2023, 06h00

De engraxate a bilionário — eis o resumo, um tanto apressado, da trajetória do mineiro Rubens Menin, 67 anos, dono da MRV, a maior construtora da América Latina, e de múltiplos negócios no Brasil e no exterior. Um dos mais influentes empresários do país, Menin construiu sua fortuna no ramo imobiliário, mas a expandiu em atividades tão diversas quanto um banco (Inter), uma emissora de televisão (CNN), uma incorporadora nos Estados Unidos (Resia), uma empresa de galpões (Log), uma vinícola em Portugal (Menin Douro) e até um time de futebol (Atlético-MG)), entre outras. Na entrevista a seguir, Menin diz que não gosta de falar de política, mas elogia o trabalho de Fernando Haddad à frente do Ministério da Fazenda. Sem se esquivar das grandes questões nacionais, ele lamenta a polarização “barulhenta” da sociedade brasileira e cobra responsabilidade fiscal do governo. Como não poderia deixar de ser, falou também sobre o desafio de comandar empreendimentos tão diferentes. Confira os principais trechos da conversa.

Qual é a sua avaliação do primeiro ano do governo Lula? Não gosto de falar de política, mas admiro o trabalho do Fernando Haddad. Ele é um cara bacana, que sabe ouvir e está lutando feito doido pela reforma tributária e pelo equilíbrio fiscal. Parece que, ao falar isso, estou querendo bajular o Haddad. Não estou. É que ele foi a maior surpresa desse governo. Mas é fato que o Brasil tem muitos problemas que precisam ser combatidos.

Quais? Não há dúvida de que o Brasil precisa ter juízo fiscal. O governo gasta demais, e de uma maneira que não é inteligente. Reconheço que fizemos nos últimos anos uma série de reformas que mudaram a economia, mas é preciso fazer mais. É o caso, por exemplo, da reforma administrativa. É preciso cortar gastos, tornar o Estado mais eficiente, acabar com a corrupção. O dinheiro público não pode ser maltratado.

Como enxerga a polarização que permeia a sociedade brasileira? Os extremos não levam a nada e a polarização só interessa a uma minoria barulhenta. Mas o Brasil não é tão polarizado quanto as pessoas pensam que é. O problema é que essa minoria faz barulho demais, principalmente nas redes sociais. Aí parece que são muitas pessoas, mas não são. O Brasil é um país de centro.

A MRV foi fundada em 1979, às vésperas da hiperinflação. O que fez para sobreviver a esse teste de fogo? A crise mais séria por que passamos foi em 1982, um caos. Dezesseis empresas faziam habitação popular em Belo Horizonte, mas quinze fecharam. Nós sobrevivemos. Naquela época, o mercado financeiro era muito rudimentar, havia pouco crédito disponível. Tinha muita gente para trabalhar, mas faltavam empregos. Se eu colocasse anúncio de contratação, filas enormes se formavam nas obras. A saída que encontramos foi vender apartamentos baratos, mas para isso tivemos de desenvolver meios de reduzir os custos da construção. Ali surgiu o DNA da MRV.

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Como o ciclo de juros altos impactou os negócios da MRV no Brasil? O ano de 2023 foi um dos mais difíceis de nossa história. Nosso setor é muito sensível a juros elevados. Em menos de dois anos, nós saímos de uma taxa Selic de 2% ao ano para 13,75%. Agora, felizmente, nossos indicadores estão indo muito bem.

“Os extremos não levam a nada e a polarização só interessa a uma minoria barulhenta. Mas o Brasil não é tão polarizado quanto as pessoas pensam que é. Somos um país de centro”

A nova versão do programa de habitação popular Minha Casa, Minha Vida deverá impulsionar o setor imobiliário? O programa, feito junto com a iniciativa privada e associações setoriais, é muito bom e deverá, sim, ser um catalisador de negócios para a construção de baixa renda. Mas ele nunca ficou parado. Na verdade, o programa vem evoluindo desde que foi lançado, em 2009. Ele nunca retrocedeu.

Nem no governo Bolsonaro? Na realidade, não foi dada a mesma atenção para o programa, mas ele não retrocedeu. Apenas não cresceu como se esperava.

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Muitos economistas dizem que a reforma tributária representa uma oportunidade perdida para o Brasil, pois ela contempla muitas exceções. O que pensa disso? Ela é necessária e precisa acontecer. O Brasil chegou a um nível de complexidade tributária insustentável para um país em desenvolvimento. Para crescer, os países em desenvolvimento precisam trilhar dois caminhos essenciais: menor tributação e juros baixos. Começamos a baixar os juros há pouco tempo e agora chegou a hora de fazer a reforma tributária. Mas é fato que ela precisa evoluir com o passar do tempo, porque em um primeiro momento vamos criar algumas disparidades e desequilíbrios.

O senhor tem empresas no Brasil e nos Estados Unidos. Poderia falar das diferenças de manter negócios nos dois países? O americano não tem foco no popular. O PIB dos Estados Unidos é tão grande que ele se concentra nos dois terços superiores da pirâmide. De certa forma, nós estamos ocupando o espaço da habitação popular ao levar o modelo da MRV para lá. Nós “tropicalizamos” a indústria imobiliária nos Estados Unidos com o lançamento de empreendimentos acessíveis, como apartamentos menores e mais padronizados. Além disso, estamos modulando nossas obras, o que não é viável no Brasil.

Por que não é viável? Nos Estados Unidos, todas as nossas obras são 100% iguais. No Brasil, não. Para ter ideia, estamos em 168 cidades brasileiras e apenas dez delas possuem padronização. Cada município brasileiro tem sua própria norma, o que é um absurdo. Uma das minhas lutas é a criação de um regramento único para a nossa indústria. É um gargalo que temos.

Então não há dúvida de que é mais difícil fazer negócios no Brasil do que nos Estados Unidos? Vou dar exemplos: são necessários apenas dois profissionais para fazer a contabilidade de nossa empresa nos Estados Unidos. No Brasil, são dezenas de pessoas. As aprovações de projetos em território americano saem em três meses. No Brasil, perdemos muito mais tempo com isso. A burocracia custa caro e impede o desenvolvimento do país.

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Os seus filhos atuam nos negócios da família. Como separar a relação pessoal da profissional, especialmente em empresas de capital aberto, que prezam a governança? Tenho três filhos. A Maria Fernanda, que foi diretora jurídica, está só no board das empresas e trabalhando mais a filantropia. O Rafael é CEO da MRV e o João Vitor, do Banco Inter. Há uma sinergia muito grande entre nós, mas eles não ocupam essas posições porque são meus familiares. Na verdade, foram ungidos pela competência e pela dedicação.

Vocês falam de negócios em casa ou o assunto é proibido? Em casa, decidimos não falar de negócios. Não dá, não é saudável. Para discutir questões relativas às empresas, fazemos nossas reuniões nas noites de terça-feira. As conversas de negócios também nunca entram nas festas de aniversário, nos domingos ou no Natal.

O Banco Inter migrou há pouco mais de um ano todas as suas ações para os Estados Unidos. Por quê? A indústria financeira brasileira é muito evoluída. Fomos o primeiro banco digital do Brasil e democratizamos a indústria. Nos Estados Unidos, queremos surfar esse movimento também. Encontramos por lá uma carência muito grande desse tipo de serviço, e agora já temos ali 2 milhões de clientes. O mais bacana é que o software que os americanos usam é inteiramente produzido no Brasil, com tecnologia proprietária nossa.

Em 2020, o senhor entrou na indústria de mídia, com a CNN Brasil. Que balanço faz dessa experiência? Essa indústria é a mais desafiadora para mim, mais até do que o futebol, mas não existe democracia sem uma mídia livre e competente. O que me encantou na CNN é o leque de possibilidades que ela oferece. Uma mídia bem trabalhada, com bons objetivos e responsabilidade, traz benefícios enormes para a sociedade.

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O senhor participa das decisões editoriais? Eu participo do conselho da CNN, mas não me envolvo no dia a dia. Não sou do ramo, posso acabar atrapalhando. Eu fico satisfeito em ver os jornalistas falarem que têm independência.

O senhor está acostumado a liderar mercados, mas esse não é o caso da CNN no Brasil. É um incômodo? Estamos formando uma equipe muito forte para fazer jus à marca. Eu acredito que a CNN está melhor do que ontem e amanhã estará melhor do que hoje. O que me deixa mais satisfeito é o crescimento no mundo digital. Os resultados são fantásticos. Estamos fazendo um investimento bem grande nisso para ela ser cada vez mais multiplataforma. A CNN tem um universo aberto pela frente.

“Meu sonho é que a SAF seja tão eficiente que possamos abrir o capital do Atlético na bolsa. O time só será a potência que desejamos se tiver uma boa estrutura de capital”

Como começou a sua história com o Atlético-MG? É bem antiga. Meu avô era italiano, mas torcia para o Atlético. Fui ao estádio pela primeira aos 6 anos. Foi maravilhoso, jamais esqueci. A entrada no clube aconteceu aos poucos. No começo dos anos 2000, um amigo assumiu a presidência do Galo e pediu que eu ajudasse de maneira informal. Era uma época muito difícil para o time. Com o tempo, fomos aumentando a participação até chegar à SAF (Sociedade Anônima do Futebol).

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Até onde o senhor pretende levar o Atlético? Meu grande sonho é que a SAF seja tão eficiente que possamos abrir o capital. O Atlético só será a potência que desejamos se ele tiver uma boa estrutura de capital. A SAF foi só o primeiro passo. Queremos eficiência e lucro operacional para um dia o Atlético ir à bolsa de valores.

O senhor dá pitaco na escalação do time? Eu não abro mão de ver jogo com a minha família, mas a SAF é profissional. Temos uma divisão de gestão financeiro-administrativa e outra que cuida do futebol. Eu não participo de nada disso. Eu procuro não dar palpite até para não atrapalhar.

O senhor começou a vida profissional como engraxate, lavador de carros e vendedor de apostas esportivas. Como foi parar no ramo imobiliário? A inspiração para empreender veio do meu avô, que falava muito de negócios comigo. Ele foi meu mentor. Tinha uma padaria, sempre acordava cedo, rasgava o saco de farinha e fazia os doces. Meus pais eram funcionários públicos. O sonho da minha mãe era que eu tivesse um bom emprego. Meu pai me incentivava a empreender. A primeira casa que fiz foi com meu primo, com dinheiro emprestado da família, quando eu tinha 19 anos.

O senhor criou o Movimento Bem Maior para estimular ações de filantropia. A ideia vingou? O Brasil é um país solidário, mas a filantropia não está enraizada. Só 0,2% do PIB é investido em filantropia, enquanto nos Estados Unidos o índice é 2%. O Estado não consegue resolver as mazelas nacionais sozinho. Nós, empresários, precisamos agir.

Publicado em VEJA de 8 de dezembro de 2023, edição nº 2871

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