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“Não é hora da 6×1”, diz Paulo Skaf, presidente da Fiesp

Empresário afirma que debater a escala e a jornada de trabalho em ano eleitoral será prejudicial ao país

Por Diogo Schelp Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 20 mar 2026, 06h00 • Atualizado em 20 mar 2026, 11h03
  • Paulo Skaf foi presidente da Federação da Indústria do Estado de São Paulo (Fiesp) durante dezessete anos e, após hiato de um quadriênio, aos 70 de idade, está de volta desde janeiro para um mandato até 2029. A imagem da Fiesp, a principal entidade a representar um setor que responde por 28% do produto interno bruto industrial do país, tornou-se praticamente indissociável da figura pública de Skaf. De perfil conciliador, ele chegou a cultivar ambições políticas (foi três vezes candidato ao governo de São Paulo), todas fracassadas, mas que acabaram por aproximá-lo da direita bolsonarista. Apesar disso, declara estar costurando uma boa interlocução com o governo Lula na defesa dos interesses setoriais. Um de seus desafios tem sido demonstrar os prejuízos para empresas e trabalhadores de uma eventual aprovação, neste ano, do fim da escala 6×1 (seis dias de trabalho e um de descanso) e da redução da jornada semanal de 44 horas. “A medida pode derrubar a produtividade no Brasil”, alerta ele na entrevista a seguir.

    Por que o senhor é contra o fim da escala 6×1? A escala tem muito a ver com as características de cada setor — saúde, comércio, agricultura, indústria. Ninguém é contra discutir o assunto, mas isso não pode ocorrer no calor de um ano eleitoral. É um debate que precisa ser feito com muita serenidade, porque você pode estar impedindo alguém de trabalhar de uma forma que lhe convenha para ganhar mais. E isso ficar fixado em lei ou na Constituição é uma coisa muito séria. Por isso, defendo que o tema seja deixado para o próximo ciclo de governo.

    Qual tem sido a reação do poder público a esse pedido? Estive no Senado para mostrar a complexidade do tema. Minha sensação é que os parlamentares ficaram preocupados. O Brasil tem cerca de 45 milhões de trabalhadores com carteira assinada e 44 milhões de pessoas na informalidade ou fazendo bicos. Endurecer as regras do emprego com carteira é um convite à migração para a informalidade. Foi o que aconteceu quando o Chile reduziu a jornada em 2024.

    Pesquisas mostram que a grande maioria dos brasileiros é a favor da redução da jornada. Como avalia essa situação? Querer ganhar o mesmo trabalhando menos é como chamar mais gente para o churrasco sem comprar mais carne. Além disso, a medida pode derrubar a produtividade, que no Brasil já é baixa.

    O melhor caminho para atender a esse anseio seria via acordos coletivos, em vez de uma lei? Sim, pela negociação. É o que é moderno. O espírito da reforma trabalhista era exatamente este: menos legislação e mais negociação. Quando você coloca uma escala de trabalho na Constituição Federal, enrijece tudo. Um vendedor que ganha comissão e quer trabalhar aos sábados tem um interesse; outro trabalhador pode preferir folgar. Reduzir horas trabalhadas nem sempre beneficia as pessoas, além de gerar aumento de preços. No final, principalmente em empresas e comércios menores, as pessoas acabam operando fora da lei porque não lhes foi dada a liberdade de se entender com o empregador.

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    “Reduzir as horas trabalhadas nem sempre beneficia as pessoas, além de gerar aumento de preços. No final, as pessoas acabam operando fora da lei, pois não lhes foi dada liberdade”

    O número de recuperações judiciais e extrajudiciais de empresas disparou. O que isso revela sobre a economia? Revela que trabalhar com juros básicos três vezes maiores que a inflação e juros reais seis vezes mais altos não é sustentável. Houve quem confiou no país, alavancou, investiu — e de repente viu a despesa financeira multiplicar por até cinco vezes o que estava previsto. É um absurdo. Lamentavelmente, o governo tem a ver com a necessidade dessas altas taxas, porque gasta muito e mal, gerando déficit primário e nominal, o que pressiona a inflação e força o aumento dos juros para contê-la. Há um debate legítimo sobre se é inflação de demanda ou de custo, mas a realidade é que juros nesse patamar prejudicam quem quer produzir e investir.

    A política monetária do Banco Central é restritiva demais, mesmo diante das dificuldades fiscais? O governo deveria ser mais responsável com os gastos. A dívida do governo brasileiro está em torno de 10 trilhões de reais. E é crescente. Chegamos com a dívida a 80% do PIB e o governo Lula deve deixar essa relação em torno de 85% ao final do mandato. No ano passado, o pagamento de juros consumiu cerca de 1 trilhão de reais. Os governos não deveriam pesar nas costas da sociedade, deveriam aliviá-la. No Brasil, quem quer produzir encontra juros altos, logística cara, insegurança pública, insegurança jurídica e educação de baixa qualidade. Tudo isso num momento em que o mundo vive uma revolução tecnológica acelerada. O Brasil precisa de uma agenda voltada à inovação, à tecnologia e à inteligência artificial. Não podemos continuar perdendo oportunidades.

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    Qual o possível impacto da alta do preço do petróleo sobre a indústria brasileira em meio à guerra no Oriente Médio? O Brasil importa diesel, então o impacto já existe. Tudo depende de um conflito que nem os envolvidos sabem como vai terminar. O petróleo pode chegar a 150 dólares o barril — ou voltar a 70, com uma eventual normalização. O que posso dizer é que juros elevados no Brasil não vão baixar o preço do diesel. O mercado não vive uma euforia — a indústria de transformação e o comércio estão com dificuldades. Não há uma economia aquecida pela demanda que justifique a manutenção dos juros nesse patamar. Defendo a redução dos juros, mesmo com eventual pressão inflacionária vinda do conflito.

    O pacote do governo que reduziu impostos sobre o diesel foi uma medida acertada? Foi bem-vinda, mas não resolve o problema. O governo criou uma taxação sobre as exportações de petróleo para compensar a renúncia de receita, então houve equilíbrio fiscal nesse caso específico. Mas o aumento do combustível a que estamos assistindo é percentualmente muito maior do que essa compensação. Pode ajudar um pouco, de forma pontual e temporária. E tem que ser temporária, porque o governo gasta muito, deve muito, gera déficit — não pode toda hora arcar com esse tipo de medida.

    Recentemente, o governo recuou em parte de uma medida de elevação do imposto de importação sobre produtos eletrônicos. A indústria brasileira demanda protecionismo? A política de comércio exterior precisa ser bem pensada. Há distorções sérias no Brasil. Há casos em que o imposto de importação sobre a matéria-prima é maior do que sobre o produto manufaturado. Para o Brasil, o que interessa são as manufaturas, que agregam valor e geram emprego. Não se deveria ter maior proteção para a matéria-prima do que para o produto acabado. Há também questões de defesa comercial, que é diferente de protecionismo. Defesa comercial é o combate a práticas desleais, como o dumping — quando um produto é vendido abaixo do custo real, o que destrói os concorrentes apenas para provocar, depois, uma alta de preços.

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    Como o senhor avalia a atuação de Geraldo Alckmin no papel de ministro do Desenvolvimento e Indústria? No que diz respeito às relações com os Estados Unidos, os setores que escaparam das tarifas — celulose, suco de laranja, aviação — o fizeram por meio de lobby, no bom sentido, feito pelos próprios setores, com a ajuda de contrapartes americanas. Além disso, a mais recente redução das tarifas para 10% foi decisão da Suprema Corte americana. Sendo justo, não houve muita influência do governo brasileiro nas tratativas. Na primeira fase, pesou a diplomacia empresarial. Na segunda, foi a Suprema Corte.

    “Vamos ter uma candidatura forte ao governo de São Paulo e boas opções à Presidência. Eu vou torcer para que a visão liberal ganhe e tenhamos um novo governo no ano que vem”

    O senhor foi candidato a governador três vezes. Tem planos de disputar novamente algum cargo eletivo? Não. Neste momento, não tenho filiação partidária. Saí do Republicanos e não tenho planos na política partidária. Retornei à Fiesp e estou feliz aqui. É um privilégio presidir uma das entidades mais conceituadas do mundo, de forma voluntária, sem remuneração.

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    Nas eleições deste ano, para governador de São Paulo e presidente da República, qual será o seu posicionamento? A Fiesp é uma entidade política, não partidária. O presidente da Fiesp precisa conviver com todas as esferas de poder — municipal, estadual, federal, Judiciário, Legislativo, Executivo — e receber missões de todas as partes do mundo. Quero menos Estado, menos imposto, menos estatização, mais concorrência, mais modernidade, mais tecnologia, mais negociação e menos engessamento. Esses são princípios liberais, de direita. Essa é a visão da Fiesp e também a minha. Os candidatos que estiverem nessa linha contarão com nossa total simpatia. Vamos ter uma candidatura forte ao governo de São Paulo e boas opções à Presidência, em uma eleição competitiva. Eu vou torcer para que a visão liberal ganhe e tenhamos um novo governo no ano que vem.

    Essa simpatia pode se converter em apoio explícito? Eu, pessoalmente, não tenho dificuldade em manifestar minha preferência, seja para governador, seja para presidente da República. Farei isso na medida do possível, sem misturar com a entidade. Agirei de forma apartidária, olhando para o que é melhor para o país.

    O senhor afirmou anteriormente que há insegurança jurídica no Brasil. A que se refere? O Poder Judiciário é a defesa do cidadão, da empresa, do investidor estrangeiro. É a ele que se recorre quando há um problema. Estamos passando uma fase com bastante desconforto em relação ao Judiciário, em especial ao Supremo Tribunal Federal. Há uma ansiedade real da sociedade a esse respeito. As eleições para o Senado deste ano serão muito pautadas por esta questão, a necessidade de mudanças no STF.

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    De que forma a atuação do STF impacta o setor empresarial? Pelo exemplo que o STF transmite para outras instâncias do Judiciário. Devido ao que temos assistido, há uma desconfiança na sociedade. Algumas mudanças se impõem. Por que não estabelecer uma idade mínima de 65 anos para os ministros? Combinada com a aposentadoria compulsória aos 75, isso garantiria pessoas experientes, com mandato de dez anos. O próprio presidente do Supremo, o ministro Edson Fachin, tem feito declarações positivas sobre a necessidade de um código de ética, de regras claras e de transparência. A expectativa da sociedade é que ele cumpra o anunciado. Um exemplo vale por 1 milhão de palavras. É o que eu peço a todos os homens públicos do Brasil: acordem de manhã lembrando disso e deem bons exemplos todos os dias.

    Publicado em VEJA de 20 de março de 2026, edição nº 2987

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