Clique e Assine a partir de R$ 7,90/mês

“A política atrapalha”, diz David Card, vencedor do Nobel de Economia

Para o canadense, a interferência dos governos em assuntos econômicos para obter dividendos políticos pode ser um obstáculo ao progresso

Por Carlos Valim, Luana Meneghetti Atualizado em 12 nov 2021, 17h15 - Publicado em 12 nov 2021, 06h00

Nascido em uma família humilde de pequenos fazendeiros, o economista canadense David Card, 65 anos, se transformou em um improvável ganhador da maior honraria acadêmica de sua especialidade: o Prêmio Nobel de Economia. Normalmente afeita à consagração de grandes arcabouços teóricos, a Academia Real de Ciências da Suécia, em 2021, acabou optando por fugir a essa regra ao reconhecer o trabalho de Card, focado em experimentos naturais, que são pesquisas a partir de situações do mundo real, principalmente no que diz respeito aos impactos do salário mínimo, da migração e da educação no mercado de trabalho. Professor da Universidade da Califórnia, em Berkeley, Card dividiu o prêmio de cerca de 1,1 milhão de dólares com os colegas Joshua D. Angrist e Guido W. Imbens, respectivamente do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e da Universidade Stanford, que criaram metodologias para avaliar as relações de causa e efeito na economia. Com mais de três décadas de carreira, Card tem peculiar interesse no Brasil, alvo de um estudo de 2018 em que analisou a determinante racial dos salários nas empresas. Um mês e meio depois de anunciado vencedor do Nobel, Card falou a VEJA, por meio de conferência virtual, sobre o prêmio, suas pesquisas, o racismo no Brasil e como vê as perspectivas econômicas do país.

Suas pesquisas sobre mercado de trabalho são muito influentes e ajudaram a desenvolver as chamadas metodologias de experimentos naturais. O senhor tinha a expectativa de ganhar um Nobel com elas? Não. O Prêmio Nobel de Economia é sempre concedido às pessoas que fazem o que chamamos de pesquisa metodológica, como criar um modelo teórico ou estatístico. Meus covencedores, Joshua Angrist e Guido Imbens, tiveram o prêmio concedido por sua metodologia. Portanto, acho que sou a primeira pessoa a ganhar um apenas por fazer estudos. Daí eu não ter jamais imaginado que isso poderia acontecer.

Os estudos sobre mercado de trabalho são muito interessantes e importantes para governos fazerem políticas de geração de empregos, mas nem sempre têm o reconhecimento acadêmico, não? Nunca. Esse não é um campo muito respeitado.

O senhor não vê a perspectiva de isso mudar? Um pouco, talvez, lentamente. Acho que, no entanto, ainda prevalece a ideia de que a economia é em grande parte um assunto teórico. Se você ler Adam Smith (1723-1790) ou John Maynard Keynes (1883-1946), tudo é teoria. Há algumas provas casuais. Alguém pensa: “Isto deve ser verdade”. Essa tradição ainda vive fortemente na economia. Os economistas mais respeitados estão trabalhando em modelos bastante abstratos de coisas. Do meu ponto de vista, isso sempre foi um problema, pois há muitos modelos e não há provas suficientes de quais estão certos ou qual parte de cada um deles está certa. Mas, de qualquer forma, é mais estimulante intelectualmente para a maioria das pessoas falar sobre o teórico. Por exemplo, as pessoas gostam de falar sobre filosofia e religião.

Se eles se baseassem mais em dados e conseguissem demonstrar com mais precisão o que é causa e consequência, como é o caso dos experimentos naturais, os economistas poderiam mudar a sociedade? Na realidade, em economia, um estudo não costuma mudar muito a opinião de ninguém. Na verdade, nem mesmo dez estudos costumam mudar ninguém. Ou mais verdade ainda, a maioria das pessoas nunca muda sua opinião. Em vez disso, o que acontece é que, com o tempo, talvez os mais jovens tenham a mente um pouco mais aberta do que os mais velhos, então, eles começam a procurar respostas para novos problemas.

“Nosso estudo no Brasil mostra que problemas educacionais explicam dois terços das diferenças salariais entre brancos e não brancos nas empresas. Já o terço restante pode ser racismo mesmo”

O senhor realizou estudos sobre o Brasil. Por que escolheu o país para realizá-los? O Brasil é interessante para fazer experimentos naturais. No que diz respeito a mercado de trabalho, minha área de interesse, tem dados muito bons sobre o setor formal. E é um país incomum, pois tem uma fração muito grande de trabalhadores não brancos. Foi um dos maiores países a receber escravos no mundo e é um país onde mais da metade da população não é branca. Então, posso olhar para uma empresa e verificar nessa empresa em uma determinada categoria de idade e escolaridade de trabalhadores, ou em uma determinada categoria salarial, quantos dos trabalhadores são brancos e não brancos. A partir disso, poderíamos ver como seria a evolução das pessoas na empresa. Essa é a base do trabalho que escrevemos.

Que conclusões tirou desses dados? Algumas dessas descobertas, acredito, são bastante conhecidas no Brasil. A educação é um fator de extrema relevância no mercado de trabalho brasileiro, e os trabalhadores não brancos têm uma educação mais baixa. Muitas pessoas já sabiam disso. Mas, pelos dados, pudemos constatar que as diferenças salariais entre brancos e não brancos provocadas pelas disparidades em educação se aplicam a dois terços dos casos. O terço restante pode ser creditado ao racismo puro e simples. Ainda assim, a questão da raça no Brasil é fascinante.

Fascinante em que sentido? Há uma longa história de estudos sobre o assunto. O primeiro sobre esse tema foi realizado nos anos 1970, mas, durante a ditadura, foi suprimido. Era um estudo muito bonito, mas que não foi analisado por quatro anos. De qualquer forma, existe uma longa tradição de estudos raciais no Brasil, que vem desde um famoso sociólogo dos anos 1930 (Gilberto Freyre). A percepção brasileira sobre a mestiçagem era de que todas as pessoas vão ficando mais brancas. Essa é uma maneira de colocar as coisas. É o ponto de vista oposto ao dos americanos. Eles têm uma visão estranha — eu não sou americano, nasci no Canadá — de que, se você é um oitavo negro, você é negro. A raça branca, para eles, é uma coisa muito fraca e frágil, e uma pequena dose de raça negra faz de você um negro. Enquanto a visão oposta foi mais exposta no Brasil desde a primeira metade do século XX. Numa família negra, se a filha se casasse com um homem branco, ou vice e versa, talvez os descendentes fossem considerados brancos. De certa forma, é uma visão mais otimista, por se esperar que sofrerão menos racismo.

Continua após a publicidade

No Brasil, discute-se sobre o que é mais importante para uma pessoa negra conseguir um bom emprego. Seus estudos podem realmente medir isso? Diferenças raciais estão presentes, mas não são enormes, como seriam nos Estados Unidos nos anos 1950. Nesse momento, tenho dois alunos do Brasil que têm trabalhado em algo realmente muito interessante. Eles encontraram uma maneira de descobrir a raça dos donos das empresas no Brasil. Podem dizer se é branco, não branco ou mestiço. Eles mostraram que há diferenças bastante grandes e que, se você não é branco, é bom ter um empregador não branco também.

Como vê a economia brasileira hoje? Não tenho acompanhado com atenção, mas eu usaria como métrica a relação de imigração entre Brasil e Portugal. É algo realmente interessante, porque esses dois países têm muitas ondas migratórias, de um lado para o outro. Se o Brasil está indo bem e Portugal está indo mal, então, todos os brasileiros voltam. Mas se o Brasil está indo mal, e Portugal está indo bem, então todos vão para Lisboa. Há outros países assim. A Austrália e a Nova Zelândia, por exemplo. Eles estão conectados; é fácil ir e vir. E isso é ótimo. Há alguns países que têm essa relação com a Espanha, como o Uruguai. Eu sempre simpatizo com os trabalhadores, para dizer a verdade. Eu cresci em uma família pobre, pude ir para a faculdade e me mudar para os Estados Unidos. Portanto, sempre sinto que seria bom se essas pessoas pobres tivessem algumas oportunidades melhores. Isso é o que os economistas chamam de “votar com os pés”.

Então, a quantidade de brasileiros morando em Lisboa hoje indica que as coisas não estão boas? Eu realmente não sei o suficiente para fazer um comentário inteligente. Eu só sei que as coisas não estão indo tão bem neste momento. O Brasil é um país muito rico; há muita gente talentosa no país. Mas a Argentina também e a Argentina sempre consegue estragar tudo. O Brasil nem sempre faz asneiras. Ele sobe e desce. Tenho confiança em que eventualmente o país voltará ao bom caminho. A política no Brasil é meio confusa e difícil. E talvez isso seja um obstáculo ao progresso. Também é um obstáculo nos Estados Unidos.

No passado recente, a esperança no Brasil era de ficarmos mais parecidos com os Estados Unidos, em que a política influenciasse menos a economia e a vida das pessoas, mas parece que o contrário está acontecendo. Na verdade, isso se passa em muitos países. Na Grã-Bretanha, é a mesma coisa. A política está se tornando mais invasiva e provavelmente menos útil. Ela está atrapalhando. Não creio que os economistas tenham feito muito progresso na compreensão disso.

“O Brasil nem sempre faz asneiras. É um país que sobe e desce. O problema é que a política é meio confusa. Mas tenho confiança em que o país voltará ao caminho correto”

Outro campo de estudo que parece promissor são os impactos da pandemia nas economias. Acredita que os experimentos naturais estão sendo utilizados para trazer respostas às perguntas mais importantes que surgiram? Tenho certeza de que alguns estudos são muito bons e alguns são problemáticos. A dificuldade é que todos os setores foram afetados, em alguma medida. Portanto, não há um grupo de controle realmente bom para usar como referência para comparações. A Covid é mais como um choque macro. Houve realmente um efeito recessivo agregado, que às vezes afeta algumas indústrias, comunidades e tipos de trabalhadores mais do que outros, mas todos foram afetados.

Então será muito difícil concluir que países adotaram as melhores estratégias? Eu acho que sim. Por exemplo, para saber os reais impactos dos lockdowns na economia, alguém dirá que tal cidade esteve em lockdown e isso a prejudicou ou não em comparação a outra que não esteve. Muitas vezes o governo declara um lockdown, mas é difícil provar o que aconteceu ali. Onde vivo, dizem que tivemos uma resposta rigorosa contra a Covid. Na realidade, não foi bem assim.

Ou seja, mesmo no futuro, será difícil chegar a tais conclusões? Para medir isso, seria preciso estar agora em campo, registrando cuidadosamente a aplicação da lei — e isso não acontece. Em dez anos, não nos lembraremos mais, não teremos registros disso.

Publicado em VEJA de 17 de novembro de 2021, edição nº 2764

Continua após a publicidade

Publicidade